Sex Pistols: a história de uma revolução que fica por explicar

Realizada por Danny Boyle, com cuidado no casting, direção artística e na recriação de factos, “Pistol” acaba por narrar a história dos Sex Pistols deixando vago porque foram uma semente de revolução e não explica o que mudaram no mundo da música. Texto: Nuno Galopim

FX

Haverá tantas visões sobre a história dos Sex Pistols quantas forem as narrativas contadas pelos protagonistas ou as muitas figuras ao seu redor. E não necessariamente coincidentes… E Pistol, uma minissérie de seis episódios realizada por Danny Boyle é disso um exemplo bem evidente, tantas que foram já ou as batalhas legais (pela utilização da música) ou as palavras críticas que contrariam o que ali se mostra… Baseada em Lonely Boy: Tales From a Sex Pistol, de Steve Jones, que de resto é um dos produtores da série, e tendo contado ainda com Paul Cook (baterista do grupo) como fonte considerada, a visão aqui apresentada faz do guitarrista o epicentro da aventura (mesmo quando o mostra acobardado perante o Manager), vinca o papel criativo e performativo de Johnny Rotten, reconhece a Sid Vicious a força da iconografia e vinca a presença de Malcolm McLaren como manipulador, o esteta que procurava levar a cabo uma revolução que, como aqui se conta, na verdade partira de ideias lançadas pela estilista Vivienne Westwood. Tudo certo, embora nunca saberemos bem que peso e papel terão factualmente desempenhado cada uma destas figuras, segundo esta ou outras narrativas.

Pistol aproxima-se mais de uma ideia de docudrama do que de uma criação na linha de biopics mais criativos que o cinema já acolheu. Danny Boyle recorre a imagens de arquivo, de Bowie aos Brotherhood of Man, das ruas de Londres de 1976 ao Jubileu de 1977, para vincar as ligações à realidade. De resto, a arrumação cronológica dos acontecimentos procura recriar episódios, que recuam à noite em que Bowie “mata” Ziggy no Hammersmith Odeon ao desmembrar da aventura depois da digressão norte-americana dos Sex Pistols. Com um claro domínio de técnicas aprendidas no cinema, Danny Boyle dá espaço às personagens para terem corpo humano (e não serem meros veículos que desencadearam acontecimentos) e cuida da direção artística, recriando concertos, o grupo que os acompanhava (onde não faltam Sixouxsie Sioux, Billy Idol ou Jordan) e vincando mesmo, através de oráculos, as datas de acontrecimentos, da mítica ida ao daytime da Thames Television à aventura num barco em pleno Tamisa. Houve uma busca de sentido de “verdade” nas atuações ao vivo, de facto interpretadas pelos atores… Mas no fim… a coisa sabe a pouco.

Mera sucessão de quadros (factuais), com o já referido cuidado em dar espaço à expressão da identidade das personagens, Pistol contra a história de uma banda barulhenta, amadora, caótica nas ligações pessoais e veículo para uma eventual revolução. Só não fica claro que revolução é aquela. Porque muda a música e como a muda. Nem mesmo acaba por dar a entender (a quem não conheça) o papel determinante que os Sex Pistols tiveram na história da música. Cativam fãs que se vestem como eles, tocam em bares e clubes imundos… E mudaram o mundo? Pois é… Danny Boyle até mostra o que aconteceu. Fala de revolução. Mas não o que com eles mudou. Fica a história de uma banda aparentemente anárquica, que dizia palavrões, fazia umas canções com pregos de fora e, a princípio, nem tocava lá muito bem… Magras conclusões quando se fala de uma banda que ajudou a transformar não só a forma de fazer música mas também a indústria do disco e o próprio jornalismo musical. Conclusões que não passarão pela cabeça de quem vir a série sem imaginar quem são os Sex Pistols. 

“Pistol” é uma produção da FX e está disponível na plataforma Disney +

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