TV Mania “Bored With Prozac and the Internet?”

Gravado nos anos 90, editado digitalmente em numa tiragem limitada em vinil em 2013, eis que conhece agora reedição em CD o álbum “Bored By Prozac and the Internet?”, criado por Nick Rhodes e Warren Cuccurullo sob a designação TV Mania. Texto: Nuno Galopim

Gravado na segunda metade dos anos 90, na mesma altura em que os Duran Duran trabalhavam em Medazzaland (editado em 1997), o primeiro dos três discos idealizados para um projeto paralelo do teclista Nick Rhodes e do então guitarrista do grupo, Warren Cuccurullo, acabou literalmente perdido. Até que, há perto de uma década, o teclista descobriu (por puro acaso) uma cassete DAT com a mistura final das gravações, representando o disco que agora podemos escutar uma verdadeira hipótese de viagem no tempo aos sons, técnicas e ideias que então ali registaram.

Apresentando-se como TV Mania, a dupla Rhodes/Cuccurullo trabalhara então numa música que tinha a televisão como principal matéria prima para o material vocal (como de resto já os Duran Duran haviam realizado em dois temas do álbum Liberty), de certa forma procurando Nick Rhodes uma variação de um processo de recolha de elementos a partir do pequeno ecrã como o havia feito com as polaroids que tirou no auge da fama global dos Duran Duran e publicou, em 1984, no livro Interference. Os samples “colhidos” de emissões televisivas são aqui parte protagonista de um corpo que depois junta essencialmente um trabalho musical que convoca ainda a presença de electrónicas e guitarras, seguindo uma lógica de construção atenta à linha da invenção no seu tempo (recorde-se que este disco é criação contemporânea à edição do visionário Entroducing…, de DJ Shadow, lançado em 1996).

Materialização em disco de um projeto de musical de palco entretanto abandonado, Bored With Prozac And The Internet? traduz ainda um percurso narrativo, contando-nos a história de uma família ultra-disfuncional que cativa a atenção de cientistas que a resolvem “vigiar” 24 horas por dia (através do auxílio de câmaras de televisão), entrando depois em cena uma estação de TV que propõe a exibição dessas imagens em direto, ininterruptamente. Estávamos em meados dos noventas, antes da chegada do Big Brother e do filme Truman Show, de Pete Weir, e a ideia que sustentava o conceito narrativo resultava assim de uma atenção pelos sinais dos tempos (a consciência do peso da Internet num futuro próximo, a proliferação de novos sistemas de vigilância e o consumo de novos medicamentos) e as naturais ressonâncias do 1984 de Orwell.

Tomados de surpresa pela estreia de Truman Show, Nick e Warren abandonaram o musical, concentrando atenções na criação de um álbum que, mantendo estas premissas narrativas, procurou assim uma forma diferente e desafiante de criar canções. Estamos sonicamente em ambientes com alguma familiaridade com momentos da etapa Medazzaland dos Duran Duran. Mas o diálogo entre vozes, electrónicas e guitarras não procurava contudo no melodismo pop clássico que serve a escrita do grupo a sua linha condutora. Os temas exploravam antes a sugestão de ambientes, a presença vocal “samplada” definindo soluções na verdade mais próximas de uma lógica cinematográfica que de um perfil pop, cabendo a Euphoria (que ecoa memórias de um Love Voodoo dos Duran Duran), uma aproximação mais evidente a terreno pop mais convencional, contando aí com a colaboração vocal de Madeleine Farley.

Pedido e (felizmente) achado, Bored With Prozac And The Internet? teve uma primeira edição digital em 2013, surgindo então um lançamento deluxe em vinil numa tiragem muito limitada. Agora, pela primeira vez, o disco surge num suporte físico (neste caso o CD) num lançamento acessível a todos. Bored With Prozac And The Internet representa um dos mais interessantes e desafiantes dos vários projetos paralelos alguma vez nascidos entre músicos dos Duran Duran. E merece morar entre os discos que, em meados dos noventas, experimentaram, com bons resultados, novas formas de pensar modelos e práticas de escrita pop.

“Bored With Prozac And The Internet?”, dos TV Mania, está disponível numa edição em CD pela Tape Modern / BMG.

Por alturas do lançamento do disco tive uma conversa com Nick Rhodes. Aqui fica parte da transcrição dessa conversa na qual o lançamento do álbum do projeto TV Mania agora reeditado é referido:

Em 1984 editou ‘Interference’, um livro de polaroids tiradas de ecrãs de televisão. O álbum de TV Mania volta a ter a televisão como ponto de partida. É uma matéria prima interessante de trabalhar? 

As televisões que usava nos anos 80, quando estava a tirar polaroids, eram aqueles grandes ecrãs de raios catódicos. E eram precisas umas duas pessoas para as carregar… Hoje temos os ecrãs de LEDs, até mesmo televisores 3D. Mas a maneira como vemos televisão mão mudou tanto quanto eu pensava que iria mudar. Ainda temos televisores nas nossas salas ou nos nossos quartos. A televisão é um elemento importante da nossa sociedade. E foi certamente um elemento importante para este projeto. O disco foi inspirado por vozes que vinham de programas de televisão a que assistíamos e de que gostávamos, como o Fashion Show, com entrevistas feitas nos bastidores. Eu disse ao Warren: “estas pessoas falam com títulos de canções!”… Beautiful, Beautiful Clothes… I Wanna Make Films… Senti que não precisávamos de procurar mais noutros lugares…

O lançamento do disco, tantos anos depois de gravado, fê-lo reencontrar-se com Warren Cuccurullo, que saiu dos Duran Duran no início do século… 

Gosto muito do Warren e acho mesmo que é um dos músicos maiores e mais criativos que andam por aí. Trouxe muito aos Duran Duran quando integrou a banda. E quando trabalhámos no Bored With Prozac And The Internet? foi o meu parceiro ao longo de todo o processo. Quando chegou a reunião dos Duran Duran afastámo-nos… Mas mantivemos o contacto um com o outro. E agora foi bom podermos fazer de novo um projeto juntos, mesmo com um disco gravado há 17 anos. Tivemos uma festa de lançamento e uma inauguração de uma exposição de fotografias minhas e foi muito bom.

O álbum que agora editam é, na verdade, apenas parte do que se propunham fazer como TV Mania. O resto do material em que trabalharam verá também um dia a luz do dia? 

Há mesmo muito material, sim. Era um projeto muito ambicioso. Foi originalmente concebido como um musical e o álbum que agora editamos era um elemento de um conjunto de três. Mas este foi também o único álbum que concluímos. Temos muito material inacabado… E há algumas canções lindas ali à espera. Foram coisas em que fomos trabalhando em compassos de espera enquanto estávamos a terminar o álbum [Medazzaland] dos Duran Duran. Talvez um dia apresentemos as misturas dos instrumentais… Ou chamemos alguém para concluir as canções connosco…

Diferente dos Arcadia e The Devils, acha que o projeto TV Mania foi, das suas aventuras em paralelo, a que mais teve reflexos na música dos Duran Duran? Na produção teve. Por alturas do Medazzaland e do Pop Trash movemo-nos para esses espaços. E esses foram álbuns que produzimos. Creio que os TV Mania propuseram uma música única e diferente de tudo o que tínhamos feito antes. Já tínhamos usado samples de televisão no Liberty. Há um sample no Hothead (de George Bush) e um no First Impressions. Ou seja, já tínhamos trabalhado com samples de televisão. Mas isto é diferente. Era a ideia de fazer canções apenas com samples. Recordo-me do impacto que teve o Fear of a Black Planet, dos Public Enemy, que era um álbum bem à frente no seu tempo na forma como usava samples, não de televisão mas de outros discos, numa miscelânea de temas.

Bored With Prozac and The Internet? conta uma história. Como definiram o conceito? É que falam de uma família cuja vida é vigiada por câmaras que captam imagens que depois são transmitidas pela televisão. Ainda não se falava de reality TV nessa altura… Havia apenas o Real World, na MTV… E não era um programa que acompanhássemos, nem estávamos cientes da sua existência. O que nos motivou foi mais a tecnologia que se estava a desenvolver naquela altura. A Internet era algo ainda incipiente, mas começava a estar disponível… Ainda não havia Napseter, nem partilha de ficheiros e o email era uma coisa relativamente nova. Mas era claro que o futuro passava por ali. Depois havia as noticias que chegavam da industria farmacêutica, com as pessoas a falar sobre o prozac. E ainda os novos sistemas de vigilância, que começavam a estar progressivamente mais sofisticados, com pessoas a instalar câmaras. Londres é uma cidade muito vigiada por câmaras. Quase podemos ver os passos que damos… Estávamos, assim atentos a tudo isto… Depois havia aquela comparação orwelliana ao seu 1984. Mas ao mesmo tempo havia algo de novo ali… Eu e o Warren tivemos então a ideia de criar um musical. E eu lembrei-me de criar esta família completamente disfuncional. São pessoas que, no fundo, refletem partes do que é a sociedade. Uma família disfuncional interessante… E por isso alguém a podia estudar. Assim surgiram os cientistas, que os colocaram num espaço fechado e assim os monitorizavam com câmaras 24 horas por dia. Uma televisão saberia então do que se passava, e mostraria interesse em garantir a transmissão dessas imagens… Isto foi aí um ano antes do Truman Show, antes do Survivor e do Big Brother… Mas havia outras pessoas a pensar o mesmo que nós. Porque era o que estava no ar, era para aí que as coisas iam avançar… O culto da celebridade estava em franco desenvolvimento… E então desenvolvemos um argumento para um show para a Broadway. Mas então estreia o Truman Show… O conceito era semelhante, embora ali fosse a história de um homem que cresce num estúdio… Mas acabámos por arquivar a ideia. Mesmo assim continuámos a trabalhar na música. Era um grande conceito, mas o que entretanto acontecera não afetaria a música.

Ao editarem agora o disco optaram por fazê-lo apenas por download digital e em vinil… 

São os formatos em que hoje consumo música. E é tão poético ver este ressurgimento do vinil, até porque é ainda o melhor formato para ouvir música. O som é o melhor! E depois há o regresso ao packaging glorioso que o vinil permite ter. Pegar na caixa em vinil, ou na edição gatefold… É um formato fantástico. Não é que seja pessoalmente contra o CD, mas esse é um formato que está a morrer.

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