57. Stevie Wonder “Journey Through “The Secret Life of Plants” (1979)

Depois de uma sucessão de álbuns de grande sucesso lançados ao longo da década de 70, Stevie Wonder apresentou em 1979 o algo desconcertante “Journey Through “The Secret Life of Plants”, disco que o tempo entretanto aprendeu a escutar. Texto: Nuno Galopim

Entre 1972 e 1976 Stevie Wonder lançou quatro álbuns que não só ajudaram a definir novos caminhos para a música a (entre os quais a assimilação de novas ferramentas electrónicas no corpo das canções) como, sobretudo com Innervisions (1973), Fulfillingness’ First Finale (1974) e Songs in the Key of Life (1976), obteve três episódios de grande sucesso. Num tempo em que a edição de novos discos era muitas vezes definida por agendas de trabalho que previam um título novo a cada ano, os meses e anos foram passando sem que surgisse um sucessor. Só nos EUA o álbum de 1976 alcançou vendas na ordem dos 5 milhões de exemplares, pelo que as expectativas entre o grande público (e naturalmente a editora) eram consideráveis. Contudo, surpresa das surpresas, quando a resposta de Stevie Wonder a esta espera finalmente chegou, o novo disco que apresentou ao mundo era um álbum duplo, com mais temas instrumentais de que canções e que servia de banda sonora a um documentário (de Walon Greene) sobre plantas. 

Apesar do impacte inicial da chegada de Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants” às lojas o impacte menor do filme nas salas de cinema condicionou a exposição do álbum. E nem mesmo a presença de canções como Send One Love (que gerou mais um êxito de dimensão global quando editado em single), Black Orchid, Outside My Window ou de Come Back as a Flower (esta na voz de Syreeta White, então casada com Stevie Wonder) não foi suficiente para dar ao álbum fôlego de comunicação suficiente para retomar o patamar de popularidade e até mesmo na criação de um olhar crítico. Houve mesmo algumas manifestações de menor entusiasmo perante a dimensão, ambição e características do disco, factores que a passagem do tempo ajudou a encarar de outra forma, com o próprio Stevie Wonder, a dada altura (mas valentes anos depois), a apontar este como um dos seus três melhores álbuns.

A música aqui oscila entre as necessidades pragmáticas das imagens e narrativas que o filme ia lançando sequência após sequência (cada plano foi descrito ao músico, que seguiu com atenção todo o guião), chegando ora a mergulhar em espaços contemplativos não muito distantes do que então era designado por new age, rumando noutras ocasiões a instantes com uma pulsação rítmica mais demarcada. Congas, bongos e até uma corá coabitam com um batalhão de sintetizadores, entre os quais se encontrava um dos primeiros samplers digitais. Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants”, cuja edição original tinha a capa impressa em braille e era feita com cartão perfumado, tornou-se com o tempo um momento com travo clássico, representando naturalmente um claro episódio de herança direta na obra de Stevie Wonder dos impulsos mais desafiantes que a sua música fora desenvolvendo ao longo da década de 70. Um ano depois o sucesso em grande escala regressaria com Hotter Than July

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