Saint Etienne “Over The Border” (2012)

Editado em 212 o álbum “Over The Border” é um dos momentos mais felizes de toda a discografia dos Saint Etienne. Texto: Nuno Galopim

Fosse um filme e Over The Border, a faixa de abertura de Words and Music by Saint Etienne, seria um prólogo, colocando o espectador na dimensão de tempo e espaço em que tudo depois vai acontecer. O tempo é o de hoje, o espaço o da música pop, mas esta é uma história que parte do reconhecimento que houve um “antes” para acreditar, como quando diz “love is here to stay”, que há um depois. O disco é o primeiro álbum de originais que os Saint Etienne lançam em sete anos, sucedendo ao magnífico Tales From The Turnpike House que alguns pensaram ter sabor a despedida, o que felizmente não aconteceu. Pelo caminho fizeram música para cinema, regressaram e repensaram o álbum de estreia Foxbase Alpha (chamando-lhe Foxbase Beta), lançaram uma nova antologia e um EP de Natal.

No seu álbum de 2012 retomam a história onde a tinham deixado com um disco que, firme em todas as marcas linguísticas e referências que sempre caracterizaram a música do trio – um apelo pop clássico que remonta aos sessentas, um interesse maior pelas eletrónicas e um saber discreto e pontual na integração, mas sem devaneios hard floor, de elementos da música de dança – e que tematicamente celebra a importância que a música pop teve na sua formação pessoal. Sarah Cracknell conta que não tinha ia à igreja, mas era devota dos New Order e dos singles da Postcard, acompanhava a Smash Hits, a Record Morror, Paul Morley e o NME, integrando elementos de uma cultura que, no fundo, define hoje quem é o espaço de heranças vivas que há muito reconhecemos nos Saint Etienne.

Tal como os Pet Shop Boys (que os antecederam), os Saint Etienne há muito ocupam um espaço que promove uma relação inteligente com a canção pop. Entre alguma melancolia e ocasionais frestas de luz Words and Music by Saint Etienne é um disco que prefere ser atual a querer à força ser moderno (deixam isso para quem, de facto, escreve hoje, com saber e propriedade, a linha da frente da invenção pop). Em vez de se vestir como aquilo que não é (o que não lhes impede uma colaboração com um dos elementos da “escola” Xenomania em Tonight), os Saint Etienne mostram aqui como podem ser fiéis a uma identidade num disco que fala ainda do tempo, do envelhecimento. E é de todo o conjunto de verdades, da soma de heranças que são sólidas e vividas, de uma mão cheia de belíssimas canções e da reafirmaçãoo de uma personalidade que nasce em Words and Music by Saint Etienne, um dos melhores discos do trio britânico.

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