Os melhores discos de 2022

Começamos hoje a viagem (habitual) pelos títulos mais marcantes que em disco nos chegaram ao longo de 2022. As escolhas hoje versam as novas edições no formato de álbum, independentemente dos suportes em que estes discos foram lançados. Textos: Nuno Galopim

As escolhas, tal como no ano passado, surgem divididas em quatro grandes áreas: nacional, música do Brasil, bandas sonoras e, arrumando todo o resto, o espaço internacional. Em 2022 os meus consumos de jazz e clássica andaram menos focados nos novos lançamentos, daí não haver escolhas nesses domínios. Cada lista é apresentada por ordem alfabética, pelo que destaco apenas o “disco do ano” em cada uma delas.

INTERNACIONAL

Weyes Blood “And In The Darkness, Hearts Aglow”

Três anos depois do maravilhoso Titanic Rising Weyes Blood lançou em 2022 o seu sucessor. Tem por título And in the Darkness, Hearts Aglow e, desenvolvendo mais ainda as formas, alarga o espectro de observações e reflexões de uma narrativa comum. Tal como no disco de 2019 os arranjos são elaborados mas nunca intrusivos, entendidos como cenário e não personagem. E traduzem um gosto por terrenos habitualmente designados por “chamber pop”. Titanic Rising terá iniciado um ciclo de três discos sob uma narrativa estética e tematicamente consequentes. E se o disco de 2019 olhava sobretudo para os jogos de frágil equilíbrio na casa comum que habitamos (o planeta, entenda-se), lançando sinais de alerta, agora em And in the Darkness, Hearts Aglow, disco que nasce depois de todo um arco de vivências que teve uma pandemia e todo um quadro de comportamentos na mira das atenções de Weyes Blood, abre o ângulo de observação para, ao espaço acrescentar quem o habita e o modo como nos relacionamos. Curiosamente, apesar do programa temático algo sombrio, as canções desenham caminhos que parecem traduzir uma sede de otimismo e esperança.

Além do álbum de Weyes Blood outros 19 completam a lista dos 20 eleitos na área da produção pop (e afins) internacional de 2022. Aqui fica a lista completa, ordenada alfabeticamente.

Beach House “Once Twice Melody”

Beyoncé “Renaissance”

Björk “Fossora”

Brian Eno “Foreverandevernomore”

Jenny Hval “Classical Objects”

Harry Styles “Harry’s House”

Kendrick Lamar “Mr Morale & The Big Steppers”

Mitski “Laurel Hell”

Nick Cave “Seven Psalms”

Panda Bear + Sonic Boom “Reset”

Perfume Genius “The Ugly Season”

Pomme “Consolation”

Rosalia “Motomami”

Sault “11”

Sharon Van Etten “We’ve Been Going About This All Wrong”

Sondre Lerche “Avatars of Love”

Stromae “Multitude”

The Smile “A Light For Atracting Attention”

Weyes Blood “And In The Darkness Hearts Aglow”

William Orbit “The Painter”

NACIONAL

A Garota Não “2 de abril”

Do mundo imediatamente ao redor de cada um de nós podem nascer retratos, e reflexões, que traduzem formas de fixar ecos do um aqui e de um agora comuns que, mesmo com histórias de vida, geografias ou até mesmo em diferido (num qualquer tempo futuro), outros mais podem depois descodificar. É o acontece com o belíssimo 2 de abril, álbum que inscreveu definitivamente no mapa musical português a voz (a que canta e, também a que escreve) de A Garota Não. Cátia Mazari Oliveira, que tinha já dado nome de rua ao seu disco anterior, toma agora o bairro onde nasceu (em Setúbal) como ponto de partida para 20 canções que falam de si, mas também de nós e do nosso tempo, sublinhando pontos de vista que partilham ora memórias ora olhares sobre o presente, cientes da força que a música e as palavras podem ter para mergulhar nas entranhas das coisas, as mais felizes, as mais difíceis, e nelas encontrar as peças pelas quais se constrói (e comenta) uma vida e a relação com os outros e os lugares partilhados. O álbum teve inicialmente um lançamento digital mas está igualmente disponível no formato de disco/livro, numa edição limitada que se encontra a partir da página da cantora no Bandcamp.

Além do segundo álbum de A Garota Não outros 19 discos completam a lista dos 20 eleitos na área da produção nacional de 2022. Aqui fica a lista completa, ordenada alfabeticamente:

A Garota Não “2 de Abril”

Ana Lua Caiano “Cheguei Tarde A Ontem”

Ana Moura “Casa Guilhermina”

Amélia Muge “Amélias”

Batida “Neon Colonialismo”

Branko “OBG”

David Fonseca “Living Room Bohemian Apocalipse”

Dino d’Santiago “Badiu”

Fado Bicha “Ocupação”

Lisbon Poetry Orchestra “Os Surrealistas”

Márcia “Picos e Vales”

Mário Laginha “Jangada”

Maro “Can you see me?”

Mirror People “Heartbeats Etc”

Pongo “Sakidila”

Salto “Língua Afiada”

Salvador Sobral “Sal”

Surma “Alla”

The Gift “Coral”

Xinobi “Balsame”

BRASIL

Bala Desejo “Sim Sim Sim”

O álbum de estreia do quarteto Bala Desejo evoca memórias da música brasileira para sugerir sonhos e desejos com sabor ao tempo presente, em canções de formas e arranjos cativantes que marcam o nascimento de um nome que vale a pena não perder de vista. Dora Morelembaum, Júlia Mestre, Lucas Nunes e Zé Ibarra eram já amigos desde os tempos vividos na escola. Quando os “lives” através da Internet geraram frequentes espaços de comunicação entre os músicos e quem os queria escutar, deram por si a cruzar-se nos palcos virtuais da cantora Teresa Cristina. Todos eles tinham começado por viver aqueles dias sob as leis de isolamento que os confinamentos exigiram. Mas depois acabaram a partilhar juntos um mesmo espaço. A vida conjunta gerou o mesmo que acontece nas residências artísticas, com trocas de ideias e experiências, criando os berços onde foram então nascendo as canções que este ano ganharam forma em Sim, Sim, Sim. Ecos da MPB, da bossa nova, do próprio carnaval e até da nostalgia do LP (com uma arrumação das canções em duas faces distintas), são pontos de partida para um disco que transpira familiaridades mas tem o sabor a novo.

O disco dos Bala Desejo é um dos dez de que mais gostei entre os que escutei da música criada este ano no Brasil. Aqui fica a lista completa, ordenada alfabeticamente.

Anvil FX “Estado de Choque”

Bala Desejo “Sim Sim Sim”

Bel Medusa “Abala Ladaia”

Criolo “Sobre Viver”

Fla Mingo “Esquina”

Gerra D “Todos os Lados”

Gilsons “Pra Gente Acordar”

Joe Silhueta “Sobre Saltos Y Outras Quedas”

Tim Bernardes “Mil Coisas Invisíveis”

Where Go “Meu Maioli”

BANDAS SONORAS

Nick Cave e Warren Ellis “La Panthère des Neiges”

Com uma obra conjunta criada para o grande ecrã desde 2005, Nick Cave e Warren Ellis têm em “La Panthère des Neiges” não só uma das suas melhores bandas sonoras mas também um disco em evidente sintonia com os seus mais recentes títulos vocais, apresentando inclusivamente o alinhamento duas canções que poderiam ser descendentes diretas de Carnage ou Ghosteen. O filme é um documentário de Marie Amiguet and Vincent Munier (este último um fotógrafo especializado no mundo selvagem), criando em conjunto com o escritor Sylvain Tesson. Ambos partem ali em busca da pantera das neves, na região dos Himalaias. É verdade que não vi ainda o filme, mas o modo como a história e as imagens cativaram Ellis e Cave, estimulando mais uma colaboração, tem para já na música um cartão de apresentação que, na verdade, também vive de forma independente como disco (originalmente com lançamento digital em finais de 2021 e só depois disponível em suporte físico).

A banda sonora criada por Nick Cave e Warren Ellis destaca-se entre as restantes nove da lista das melhores dez entre as que escutei este ano. Aqui fica a lista completa, ordenada alfabeticamente.

Carter Burwell “The Banshees of Inisherin”

Cliff Martinez “Kimi”

Danny Elfman “Wednesday”

Matthew Herbert “The Wonder”

Nathan Micay “Industry (Season 2)”

Nicholas Britell “Andor”

Nick Cave + Warren Ellis “La Panthere Des Neiges”

Son Lux “Everything At Once”

Trent Reznor + Atticus Ross “Bones and All”

Vários “Elvis”

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