60. Klaus Nomi “Klaus Nomi” (1981)

Este é o número 60 da lista “100 Discos Daqueles que Raramente Aparecem nas Listas”… Editado em 1981 o álbum promoveu um espaço de diálogo entre os universos da pop, da música eletrónica e da ópera. Texto: Nuno Galopim

“Quem é Klaus Nomi? Um discreto mas brilhante génio ou uma farsa total? A oitava maravilha do mundo ou um erro trágico na linha de montagem da vida?” Estas palavras, plenas de um sentido de dúvida, foram publicadas em 1980 na imprensa nova-iorquina e notavam não só a perplexidade mas também o impacte que o músico começara a gerar, sobretudo depois da ocasião em que, juntamente com Joey Arias, acompanhara David Bowie numa histórica atuação na televisão em dezembro de 1979.

Alemão, residente em Nova Iorque desde 1972, era dotado de um registo vocal invulgar, isto numa época em que estava ainda longe a abertura de espaço de interesse pelos contratenores que hoje conhecem um espaço no panorama discográfico da música clássica com álbuns em nome próprio para além, portanto, das gravações de ópera. Entre espetáculos de vaudeville “alternativo” foi ganhando espaço e cultivando uma personagem que chegou aos ouvidos de Bowie, que o levou à célebre atuação no Saturday Night Live que então deu que falar. 

Entre o encanto pelas heranças de outras épocas e a uma nova linguagem pop que se desenhava na altura (atenta à emergência dos sintetizadores), gravou um primeiro álbum em 1981 ao qual deu o seu nome e que se transformaria numa verdadeira peça de referência pelo modo ímpar como juntava esses dois mundos e apresentava a sua voz. Um parceiro central nesta aventura foi o teclista Kristian Hoffman, que começara a acompanhá-lo em palco em 1978 e teve depois um papel importante a definir, com o cantor, os rumos para um álbum onde tanto havia espaço para versões pop (algumas algo inesperadas, como You Don’t Own Me, de Leslie Gore, Lightning Strikes de Lou Christie ou ainda o clássico The Twist), alguns inéditos (um deles assinado por Man Parrish, um dos pioneiros do electro) e, vincando uma assinatura distintiva, novas abordagens árias de ópera. E aqui tanto canta uma ária de Sansão e Dalila de Saint Saëns como o marcante The Cold Song, que na verdade tem raiz no Rei Artur de Purcell.

Além da música o álbum inscreveu um episódio relevante na história da iconografia pop através da fotografia de Michael Halsband que vemos na capa. Ali surge Klaus Nomi envergando o fato com tonalidades sci-fi que entretanto tornara célebre nas suas atuações em clubes de Nova Iorque, completando a construção desta imagem com um trabalho de maquilhagem que vincava o carácter fantástico e… operático, desta sua criação. A este álbum seguiu-se um segundo, em 1982, ficando depois inacabado o projeto Ze Bakdaz (lançado postumamente em 2007). Klaus Nomi morreu num hospital nova-iorquino em agosto de 1983. Foi uma das primeiras figuras de relevo na música a ter a sua vida ceifada demasiado cedo pela sida. 

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