Voz determinante no processo que levou a bossa nova para além das fronteiras do Brasil, figura desde cedo também reconhecida por quem segue os caminhos do jazz, a cantora brasileira Astrud Gilberto deixou-nos, aos 83 anos. Texto: Nuno Galopim

Não era carioca, mas deu voz à mais célebre mulher alguma vez cantada pela música brasileira. Natural de Salvador (Bahia), onde nasceu em março de 1940, Astrud Evangelina Weinert mudou-se para o Rio de Janeiro quando tinha apenas sete anos. Foi Nara Leão, sua amiga desde os dias de adolescência, quem a desafiou a explorar a voz e, depois, a apresentou a João Gilberto, com quem se casou em 1959, ao lado dele subindo a palco pela primeira vez no ano seguinte, num evento que assinalava o lançamento de “O Amor, o Sorriso, a Flor”, segundo álbum dele, em cujo alinhamento surgia “Corcovado”. Coube todavia à sua entrega a uma versão em língua inglesa da “Garota de Ipanema” (composta em 1962 com música de António Carlos Jobim e letra de Vinicius de Moraes, com as palavras em inglês agora por Norman Gimbel), que em 1964 abriu o alinhamento de um álbum que juntou João Gilberto a Stan Getz, o momento em que a sua voz transcendeu fronteiras e chegou a todo o mundo, lançando as bases para um caminho em nome próprio que a cantora assume depois do fim do casamento, que acontece nesse mesmo ano.  E logo em 1964 gravou, ao lado de Stan Getz, o álbum “Getz Au Go Go”, onde a escutamos em cinco canções, entre as quais “Corcovado” e uma versão em inglês do “Samba de Uma Nota Só”.

O Grammy obtido em 1965 pela gravação de “The Girl From Ipanema” amplificou o estatuto e ajudou a dar voz a uma nova etapa, na qual à bossa nova a ao jazz a cantora, que permaneceu nos Estados Unidos (para onde se mudara ainda quando vivia com João Gilberto) juntou outras propostas, juntando ao canto ocasiões em que se revelou também como autora e compositora. Editado em 1972, contando com arranjos de Eumir Deodato, o álbum “Now” é um belo exemplo de um episódio de destaque numa obra que, apesar dos alicerces iniciais lançados entre colaborações com os grandes da bossa nova, ganhou fôlego e foi de facto desenhando os traços maiores de afirmação de uma personalidade.

A regularidade das edições foi ganhando um caráter cada vez mais irregular e espaçado depois da segunda metade dos anos 70, o que não fechou todavia portas à atenção de músicos das mais variadas origens, tendo desde então Astrud Gilbeto assinado colaborações com nomes como o trombonista japonês Shigeharu Mukai, o norte-americano Michael Franks, o francês Etienne Daho (com quem cantou “Les Bords de Seine”, do álbum “Eden”) ou George Michael, ao lado de quem recriou “Desafinado” no álbum “Red Hot + Rio”. A polaca Barbara Stanisława Trzetrzelewska, que em tempos integrou oś Matt Bianco, dedicou-lhe a canção “Astrud”.

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