A amizade e respeito entre George Michael e Andrew Ridgley, assim como uma ideia de celebração de juventude, são o tutano de uma história que durou quatro anos e nos deixou grandes canções, agora relatada pela voz de ambos num documentário. Texto: Nuno Galopim

A data não cai do céu por acaso. Passam agora 40 anos sobre a edição de “Fantastic”, o álbum de estreia que comprovou que havia nos Wham!. Um evidente potencial para ir além de uma breve sucessão de singles de sucesso para apetite juvenil. Esta última ideia, o apelo a um público teenager, não saiu nunca de cena e, de resto, toda a breve aventura dos Wham! nasceu e colocou a si mesma um ponto final ciente de que havia uma sintonia grande entre uma celebração por parte dos músicos que davam o corpo ao manifesto e o público, um nadinha mais novo, que reagia com entusiasmo, comprava discos e enchia plateias. Ao almejar dar passos mais adiante e perenes, com vista a construir uma obra que não se esgotasse nesse ciclo, ao mesmo tempo traduzindo os conflitos identitários (que na verdade só conseguiria encarar de olhos nos olhos uns dez anos depois, com a edição de “Older”), George Michael sabia que a sua etapa de vida a bordo dos Wham! tinha os dias contados. Por seu lado, o seu grande amigo de infância, Andrew Ridgley, motor inicial de toda esta história, observava mesmo à sua frente o processo de rápido crescimento de um talento que tinha horizontes maiores do que aquela vida a dois lhe poderia dar. Firme na grande amizade que os unia e pelo respeito tremendo que ainda hoje traduz pelo amigo entretanto desaparecido em 2016, Andrew não colocou quaisquer entraves a nenhuma das etapas da vida a dois que, uma a uma, foram dando prioridade, destaque e independência a George Michael: o assumir da assinatura das canções, a conquista do lugar de produtor e, um nada mais adiante, o inevitável ponto final, magistralmente encenado num concerto no estádio de Wembley, que assim concluiu um percurso que, em quatro anos, os levara de discretas pistas de dança em discotecas secundárias ao maior palco na capital britânica, numa carreira que pelo caminho os fizera um caso de sucesso global, com a “conquista” da América pelo meio e uma nota de peso no currículo quando se repara que foram a primeira banda pop ocidental a fazer uma digressão na China. Esta é a história que nos é contada no magnífico “Wham!”, documentário de Chris Smith estreado esta semana na plataforma Netflix.
Trabalho magistral de montagem de material de arquivo – estarmos em claro terreno “found footage” -, contando apenas com as vozes de George Michael e de Andrew Ridgley (este certamente numa entrevista feita recentemente a pensar no projeto), o filme mostra como a breve vida dos Wham! (Entre 1982 e 84) expressou sobretudo uma ideia de celebração de amizade entre os dois amigos, deixando, pelo ponto final precoce, aquela mesma marca que associamos à “trágica” ideia do “die young stay pretty” que ligamos a tantos ícones pop desaparecidos nos dias de juventude. Os Wham! nunca envelheceram. E todo o rol de gargalhadas e disparates que ambos os músicos viviam no seu dia a dia ficam como subtexto natural para o clima no qual estas canções surgiram e se tornaram banda sonora pop do seu tempo. O filme recua aos dias de infância e escola, escuta a primeira banda de ambos – os Executive, uma espécie de piscadela de olho aos Specials, mas em registo caseiro – e nota como Andrew de facto foi o motor que garantiu a ambos os passos sólidos que os levaram às primeiras canções, à maquete de apresentação, aos discos e até mesmo à criação de uma imagem (centrada em roupa desportiva) que os elevou de promessa a fenómeno pop entre 1983 e 84. O mau contrato com a Innervision, a exposição inicial em atuações sucessivas em pequenas discotecas e o acaso de sorte que foi o convite para atuar no “Top of The Pops” quando “Young Guns” tinha chegado ao número 42 (e portanto inelegível para o programa, mas numa semana em que alguém “eleito” para atuar teve de cancelar a participação) são aqui as fundações sobre as quais, depois, assistimos à evolução da escrita de um grande autor e, com o tempo, a tomada de consciência de uma visão maior sobre as canções que, ao segundo álbum, o colocou no papel de produtor.
O filme acompanha os discos, a evolução da imagem, a reação dos media e do público, mas também os acontecimentos mais privados, nomeadamente a luta interior que George Michael vivia desde que tomara consciência da sua identidade. Ao mesmo tempo observa o “salto” maior dado na etapa “Make It Big”, o “caso” do número um não alcançado (na altura) por “Last Christmas” (e o conflito de ego que George Michael então viveu), os passos iniciais de um percurso a solo com “Careless Whisper” (na verdade uma canção nascida de uma ideia inicial, à guitarra, de Andrew), a digressão chinesa, a americana e o caminho inevitável para o fim. Face ao que recentemente surgiu em entrevistas, o filme não fala na eventualidade (então levantada pelo próprio George) de um terceiro álbum. Mas firma um bom retrato do que foi esta história e resolve de vez a “má imprensa” que em tempos não entendeu o papel de Andrew em todo este percurso. Sem ele nunca teria havido Wham! nem, como consequência, o percurso de maturação que permitiu a George Michael encontrar a confiança na escrita e a sua voz criativa. Aquele era o percurso inevitável a dois. E, convenhamos, com uma obra que nos deixou um belo punhado de grandes canções.





Deixe um comentário