Nascidos numa fervilhante Londres que, na alvorada dos anos 80, procurava caminhos para a pop com mais cor do que o quotidiano cinzento que então se vivia, os Culture Club surgiram de uma reunião de figuras com mais contrastes do que afinidades entre si. O vocalista, conhecido pelos frequentadadores das noites “Bowie” conduzidas por Steve Strange e Rusty Egan pelos lados de Covent Garden, tinha dado primeiros passos a cantar ocasionalmente com os Bow Wow Wow. George (O’Dowd de apelido, mas depois conhecido como Boy George, vincando os jogos de ambiguidades que a sua imagem projetada), segundo conta a mitologia pop, não conviveu facilmente com a vocalista Annabella Lwin, pelo que encontrou no baixista Mick Craig, londrino com ascendência jamaicana, o núcleo para um novo grupo ao qual se juntaram o baterista Jon Moss (que já tinha tocado com os Damned e numa sessão de estúdio com os Adam And The Ants) e o guitarrista Roy Hay. Depois de baterem a várias portas receberam um voto de confiança da Virgin Records que, depois de ver ignorados os dois primeiros singles “White Boy” e “I’m Affraid Of Me”, colheu os frutos do tremendo impacte de “Do You Really Want To Hurt Me”, que se fez sucesso com expressão global, arrastando para um patamar de fama planetária a figura andrógina de Boy George, que recuperava, mas segundo os caminhos da sua personalidade, ecos dos sismos identitários gerados nos tempos do glam rock.

Um ano depois do impacte do álbum de estreia “Kissing To Be Clever” (1982), que gerou ainda mais dois momentos de êxito pop com “Time” e “I’ll Tumble 4 Ya”, os Culture Club dão um segundo e sólido passo em “Colour By Numbers”, álbum que traduz, numa linguagem pop não formatada, o mesmo sentido de diversidade de referências que define o caldeirão de gostos, vivências e experiências que caracterizava os próprios Culture Club. Essa ideia de diversidade de referências, aliada à nitidez da produção de Seve Levine (que os acompanhara já no disco anterior e manteria ainda a mesma posição no álbum seguinte), desenha aqui um alinhamento onde, apesar de uma costela soul ainda bem evidente ao longo do alinhamento (e particularmente evidente em “Black Money” ou na balada “Victims”, esta com particular presença da coralista Helen Terry), nasce outro dos clássicos maiores da pop dos oitentas: “Karma Chameleon”. O álbum corresponde ao período de sucesso mais intenso e globalmente mais expressivo dos Culture Club, incluindo ainda momentos que fizeram história nas rádios e tabelas de singles de enraio em singles como “Church Of The Poison Mind”, “Miss Me Blind” ou “It’s a Miracle”). Apesar da dimensão planetária que o sucesso do grupo aqui alcança, “Colour By Numbers” correspondeu ao último episódio verdadeiramente marcante na obra dos Culture Club. Apesar do impacte de “War Song” (1984), o álbum seguinte já não repete nem o menu gourmet de ideias aqui reunidas nem conquista a mesma adesão, sendo ainda mais discreto o quarto disco, “From Luxury To Heartache” (1986), ao qual se segue um ponto final que só seria interrompido numa reunião que, apesar de ter gerado os álbuns “Don’t Mind If I Do” (1998) e “Life” (2018, na verdade creditado a Boy George com os Culture Club), tem sobretudo vivido da força da nostalgia. E as canções de “Colour By Numbers” continuam a ser as mais presentes nos alinhamentos dos concertos da banda, agora reduzida a um trio (após a saída de Jon Moss em 2021).





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