O modelo de minissérie em 3 episódios é de facto eficaz para contar uma história, sobretudo quando a narrativa sugere um jogo de complementaridade de pontos de vista ou na arrumação da cronologia daquilo que se conta. No caso do muito recente “Murder Without a Trial”, sobre o assassinato de John Lennon, a opção foi meramente cronológica na ordenação dos eventos evocados e das entrevistas que os permitiriam relatar na primeira pessoa. Já em “Arnold”, sobre a vida de Arnold Schwarzenegger, a opção foi temática, focando o primeiro episódio o seu percurso no culturismo, versando o segundo a sua carreira no cinema e focando o terceiro o seu papel na política norte-americana (sobretudo na Califórnia). “Raffa”, minissérie de três episódios que nos apresenta a história de vida de Raffaella Carrà, uma das mais populares cantoras e figuras da televisão italiana, faz uma espécie de dois em um, unindo uma ordenação cronológica dos eventos a uma segmentação da narrativa que ora foca a início a afirmação de uma personalidade e a conquista da popularidade pela música e pela dança, depois a conquista de mercados televisivos latino-americanos e de um estatuto de sucesso ainda maior na TV italiana, e, a fechar, uma etapa em que a apresentadora de programas tomou o lugar da estrela da música.

Recheada de entrevistas com figuras que lhe foram próximas (da família a colaboradores e ainda alguns admiradores), evitando as armadilhas da nostalgia para propor um olhar contemporâneo e crítico sobre uma figura que gerou tanto o grande sucesso como a divisão de opiniões, “Raffa” começa por mostrar como nem sempre os guardiões dos templos sabem antever o futuro. Sonhava dançar e foi-lhe dado um não… As voltas que a vida deu acabaram por mostrar como o seu modo de expressar a música através do movimento acabou por mudar a forma dos programas de variedades da RAI nos anos 70, envolvendo depois coreografias elaboradas, assim como apostas arrojadas na música e na imagem. Não deixa de ser curioso confrontar esta os retratos de um país conservador que Pasolini escutou no seu documentário de 1964 “Comícios de Amor” (recentemente editado em DVD entre nós) e as reações dessa mesma Itália real a um certo patamar de erotismo até então inédito na televisão italiana, sugerido pelas canções e por via da dança e que teve episódio marcante em “Tuca Tuca”, em 1971, a canção que gerou definitivamente o fenómeno Carrà. 

A série faz questão de sublinhar a separação de mundos – e de personalidades – entre a figura pública (e artística) de Raffaella Carrà e a mulher real, Raffaella Pelloni, que só alguns conheciam (esses poucos aqui com espaço para garantir a fiel construção do seu perfil). Com muito material de arquivo, que evoca especiais criados para a televisão nos anos 70 e 80 (alguns deles exibidos entre nós na altura, pela RTP), juntando a Itália a sua importante presença nas televisões latino-americanas (primeiro em Espanha, depois na América Latina). Aborda-se a sua transformação em estrela do daytime televisivo nos anos 80. Assim como a sua contribuição para causas identitárias. E inclui ainda uma conversa com o produtor e DJ Bob Sinclair que em 2011 criou uma nova versão de “Far L’Amore” (magnificamente usada depois numa sequência do filme “A Grande Beleza” de Paolo Sorrentino). 

One response to “Raffaella Carrà: a revolução que chegou, com música, através da televisão”

  1. C’est une mini-série super intéressante, C’est cool de découvrir son impact non seulement en Italie mais aussi en Amérique latine. Et sérieux, les archives et les extraits d’émissions spéciales sont un vrai bonus nostalgique. 👏

    Gostar

Deixe uma resposta para shirokoori Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Trending