Reconhecido pioneiro da eletrónica nos domínios da música popular, protagonista de concertos de dimensões colossais desenhados, ao ar livre, em lugares de referência de cidades por todo o planeta, carregando ainda no currículo feitos como o de ter sido o primeiro músico ocidental a apresentar-se ao vivo na China depois da Revolução Cultural ou o de ter editado um disco com uma só cópia, vendendo-o depois em leilão (aconteceu com “Music For Supermarkets”, em 1983), o francês Jean Michel Jarre completou em 2023 os 75 anos. 

Filho do compositor Maurice Jarre (com quem na verdade pouco conviveu, já que os pais se separaram era ele ainda uma criança), nasceu em Lyon a 24 de agosto de 1948. Estudou música e completou a formação ao integrar, em finais dos anos 60, o Groupe de Recherches Musicales (GRM) dirigido por Pierre Schaeffer onde aprofundado o seu interesse pela exploração da música eletrónica. Data dessa etapa o lançamento de um primeiro single “La Cage”, em 1971) e o início da colaboração, sobretudo como compositor, para discos de cantores franceses, até meados dos anos 70 assinando canções para vozes como as de Françoise Hardy, Patrick Juvet ou Christophe, entre outros mais. Por essa altura, tendo compreendido que o seu caminho não seria o das explorações que fizera ao lado de Pierre Schaffer, tinha já iniciado um percurso como autor, editando em 1973 dois primeiros álbuns: “Deserted Palace” (ainda hoje uma raridade, já que nunca teve sequer edição em CD) e uma banda sonora. Coube contudo a um esforço caseiro, longo e dispendioso, a criação do episódio que lhe daria visibilidade e um caminho. Literalmente gravado num estúdio que montara na sua casa em Lyon, “Oxygéne”, editado em 1976, cativou intenções. E abriu caminho para uma sucessão de discos que, juntamente com “Equinoxe” (1978) e “Les Chants Magnetiques” (1981) o colocaram na linha da frente das atenções de uma emergente presença com grande notoriedade de uma nova pop eletrónica. A edição do duplo ao vivo, que entre nós foi lançado como “Os Concertos na China” (1982) sublinhou definitivamente o estatuto, ao mesmo tempo que, depois de uma primeira superprodução na Praça da Concórdia (Paris) em 1979, o nome de Jean Michel Jarre passou a ser também associado a concertos de grande escala como os que, nos anos seguintes apresentou em Houston, Lyon, Londres ou Moscovo (este com um recorde de mais de três milhões de pessoas na assistência).

Depois desta sucessão de discos que o colocaram no mapa, ora lançou títulos mais exploratórios (como “Zoolook”, de 1984, focado nos potenciais do sampling e da exploração da voz) ora peças mais populares (como “Rendez Vous”, de 1986), criando frequentemente títulos concetuais como “Revolutions” (1988), “En Attendant Cousteau” (1990) ou “Chronologie” (1993). Criou duas sequelas para “Oxygène”, uma para “Equinoxe” e mais recentemente celebrou em “Oxymore” (2022) a memória dos dias em que partilhou as visões de novos desafios ao lado de Pierre Schaffer e levou a disco a música criada para uma exposição de Sebastião Salgado (“Amazônia”, 2021). Entre 2015 e 2016 chamou uma multidão de músicos, desde contemporâneos como os Tangerine Dream ou John Carpenter a descendentes, dos Pet Shop Boys a Vince Clarke (Erasure) para criar um díptico ao qual chamou “Electrónica”. Durante a pandemia acentuou uma nova frente de trabalho criando concertos virtuais nos quais é possível marcar presença como avatar, dessas experiências tendo surgido “Welcome to the Other Side: Concert from Virtual Notre-Dame”, um disco “ao vivo” criado numa Notre Dame virtual na noite de passagem de ano de 2020 para 2021. Outra das suas criações mais recentes é a App “Eon” que cria música sempre diferente cada vez que o utilizador acede aos seus conteúdos (uma edição limitada a três mil exemplares fixou em 3 LP e 2 CD alguns momentos assim gerados pela aplicação).

Ao longo das próximas semanas, um a um, vão aqui surgir textos sobre os discos de Jean Michel Jarre.

ÁLBUNS DE ESTÚDIO

1973. “Deserted Palace” (A Sam Fox Production)

Criado com recurso ao material que então tinha em casa (ARP, EMS Synthi AKS, um sintetizador VCS 3, um orgão Farfisa e percussão), Deserted Palace exibe formas relativamente simples, com arranjos ainda pouco elaborados, explorando sobretudo caminhos para a melodia e aproveitando as características tímbricas dos sons. O disco é muitas vezes apresentado como uma coleção de “música de biblioteca” com peças que poderiam assim ser destinadas a utilização em programas de rádio ou televisão, campanhas de publicidade ou cinema. De resto houve uma prensagem em vinil, ainda em 1973, pela etiqueta norte-americana Synchro-Fox Library Of Recorded Background Music, que omitia inclusivamente a assinatura do autor, apresentando o álbum como “For Television, Radio, Film, Theatre and Documentaries”. Mas na verdade os títulos das faixas (todas instrumentais) acabam por sugerir linhas para uma possível narrativa…

O disco teve edição em França em 1973 e no mesmo ano surgia nos EUA no catálogo da Synchro-Fox Library Of Recorded Background Music, uma editora de música de “biblioteca”. Nunca teve reedições nem em vinil nem em CD. Alguns temas surgiram no alinhamento da compilação Essentials & Rarities (2011).

1973. “Les Granges Brulèes” (Eden Roc)

Filho de Maurice Jarre, mas com vida separada do dia a dia do célebre compositor desde muito cedo, Jean Michel Jarre encarou o mundo da música no cinema como um espaço mais ligado ao pai do que a si, pelo que raramente aceitou desafios de criar bandas sonoras. Uma exceção ganhou forma em inícios dos anos 70, numa altura em que dava passos de afirmação profissional depois da etapa vivida entre o G.R.M (Groupe de Recherches Musicales), e durante a qual mais frequentemente compôs para outras vozes do que para discos em nome próprio.

Filme de Jean Chapot, protagonizado por Alain Delon e Simone Signoret, “Les Granges Brulèes”, este thriller encenado em ambiente rural recebeu uma banda sonora integralmente criada por instrumentos eletrónicos, tendo na sua criação e gravação sido usados um sintetizador VCS3 um orgão Farsifa orgão e três gravadores de fita sincronizados. A música tanto traduz ocasionalmente ecos de visões mais exploratórias com momentos de luminosidade pop (como “Zig Zag”, na verdade a versão instrumental de uma canção criada em 1972 com Samuel Hobo), noutras antecipando opções cénicas a que regressaria mais tarde (como em “Le Car”/“La Chasse Neige”), recorrendo, como de resto é frequente encontrar em trabalhos para cinema, a leit motifs, de um deles emergindo “La Chanson das Grandes Brulèes”, uma peça instrumental com vocalizações da cantora France Vanier, que acabou inclusivamente por conhecer edição no formato de single. A edição em disco da banda sonora deu a Jean Michel Jarre uma primeira ocasião para falar sobre a sua música na televisão.

1976. “Oxygène”

Os anos de trabalho para os discos e as canções dos outros foram permitindo a Jean Michel Jarre não apenas o assegurar da sua sobrevivência mas também um progressivo acumular de equipamento que, por volta de 1976, transformava a cozinha do seu apartamento num estúdio de gravação. Foi ali que começou a criar uma série de novas composições que em conjunto definiam um ciclo coerente, num processo que pouco tempo depois envolveu a presença do engenheiro de som Michael Geiss que teve um papel determinante na programação de elementos que ajudaram a criar a pulsação das composições que ali estavam nascer, denunciando evidentes sinais de evolução para lá do que os anteriores “Deserted Palace” e “Les Granges Brulées” haviam apresentado. Sob uma arquitetura rítmica bem vincada (tal como começara a acontecer em edições recentes dos alemães Tangerine Dream ou Kraftwerk) e uma vontade em explorar não apenas as qualidades cénicas e texturas da música eletrónica, mas também o desenhar de linhas de melodias capazes de piscar o olho aos ensinamentos da pop, “Oxygéne” acabaria por se afirmar como um dos mais influentes discos desta etapa pioneira das electrónicas nos terrenos da música popular.

A capa nasceu de uma pintura de Michel Granger encontrada numa galeria de arte em Paris, tendo o próprio colaborado ativamente com o músico para encontrar a visão final usada no disco. Gravado em casa e misturado num estúdio profissional em Paris, o álbum nasceu sem editora, pelo que só depois de concluído foi apresentado a quem o pudesse lançar. O sim chegou da parte do patrão da Dryfuss, editora para a qual Jarre havia trabalhado (como compositor) nos últimos anos cuja visão otimista apontava possibilidades de sucesso por volta dos cinco milhões de exemplares. Depois de 50 mil primeiros discos vendidos através de um trabalho de proximidade com lojas de equipamentos de alta fidelidade, o sucesso do single “Oxygène 4” (e do seguinte “Oxygène 2”) catapultariam o álbum para uma carreira global que alcançaria números na ordem dos 18 milhões.

1978. “Equinoxe”

O enorme impacte gerado pela edição de “Oxygène” lançou inevitavelmente um clima de expectativa perante o passo seguinte. Sem que a música do álbum de 1976 tenha então sido levada ao palco (apesar de um projeto não concretizado de concerto em Londres), Jean Michel Jarre regressou ao seu estúdio caseiro, desta vez com uma série de ideias mais concretas em mente, projetando as novas composições como se desenhassem o percurso de um dia, do acordar ao deitar. Ao mesmo tempo ecos ainda próximos do cinema de Kubrick e de Fellini passaram entre as referências que, numa evolução direta do som explorado no disco anterior, criando uma narrativa com ciclos de contraste entre sequências ambientais e outras marcaras por uma alma pop e uma mais intensa estrutura rítmica, com ponto final cenicamente marcado pela presença da chuva (numa parte que mais tarde acabaria referida como “Band In The Rain” em compilações e gravações ao vivo).

O álbum começou por gerar a edição de dois singles, “Equinoxe 5” e “Equinoxe 5” (este segundo lançado já em 1979), tendo motivado apresentações ao vivo marcantes, uma primeira na Croisette, em Cannes, uma segunda, perante um milhão de espectadores, na Praça da Concórdia em Paris, num evento que seria transmitido pela televisão e geraria a edição do single gravado ao vivo “Jarre à La Concorde”.

1981. “Les Chants Mangétiques”

A entrada em cena de novos instrumentos abriu possibilidades para a música de Jean Michel Jarre quando, depois de ter assinado um novo episódio de reconhecimento alargado com “Equinoxe” e levado à Praça da Concórdia (Paris) um primeiro espetáculo de grandes dimensões, concentrou atenções no estúdio para criar o passo seguinte. A presença do emergente Fairlight CMI tornou-se peça central no processo que assimilou as possibilidades do sampling, levando à música sons do quotidiano (entre os quais os de um comboio a avançar sobre os carris) que assim acrescentaram uma dimensão cénica diferente às novas composições. 

O álbum apresenta-se dividido em cinco partes, a primeira ocupando toda a face A do vinil. E logo aqui fica clara não só a presença dos samples lançados pelo Fairlight CMI como uma dinâmica rítmica mais musculada que, de resto, e sob uma composição de luminosa alma pop, faria da parte dois do disco um dos êxitos maiores de toda a obra de Jarre. A fechar a parte 5, que acabaria depois conhecida como “The Last Rhumba” sugere um jogo de espelhos com a sequência final do anterior “Equinoxe”, porém desta vez com tempero caribenho. O disco, que apresentava uma foto do rosto do músico na capa, foi editado originalmente como “Les Chants Magnetiques”, expressão que traduzia um jogo de sentidos já que a palavra homófona “champs” permitia significados distintos que, no título internacional “Magnetic Fields” seria perdido. Seriam contudo os títulos em língua inglesa os que fariam de “Magnetic Fields 2” e “Magnetic Fields 4” dois singles de impacte internacional, representando ainda este álbum o primeiro exemplo de música ocidental a ser difundido na rádio chinesa em muitos anos, sendo esse o primeiro passo para uma digressão histórica que o álbum “Les Concerts En Chine” depois iria fixar.

1983. “Music For Supermarkets”

Em janeiro de 1983 Jean Michel Jarre recebeu um desafio lançado por um amigo que estava a preparar uma série de exposições de obras de jovens artistas que, ao invés dos espaços habituais, iriam decorrer em supermercados, havendo no final um leilão no qual todas as peças seriam vendidas. Jarre aceitou, lançando depois um desafio a si mesmo, que seria o de, tal como os artistas expostos, encarar a sua música como uma obra única, igualmente passível de ser leiloada. E assim nasceu o caminho que o levou a “Musique Pour Supermarché”, o sexto álbum de estúdio do músico francês do qual, de facto, só existe uma única cópia, leiloada, a 6 de junho de 1983, arrematado por 69 mil francos (seriam perto de 70 mil euros nos dias de hoje, calculando a evolução da moeda e da inflação).

A música que escutamos neste álbum representa, mais do que um objetivo alcançado, um processo de busca em tempo de transição. Jarre havia equipado o seu estúdio em Croissy com novos instrumentos e tecnologias, estando então interessado em explorar o potencial da manipulação de gravações de material não musical (ecos da chamada música concreta, de certa maneira, portanto) e também as novas possibilidades do sampling, técnicas e ideias que levaria a uma forma mais bem definida no sucessor “Zoolook” (1984). De resto, ideias que ganhariam forma definitiva em “Wooloomoolo” e “Blah Blah Café”, desse álbum de 1984, estavam já aqui a surgir em primeiras versões, o mesmo acontecendo com um fragmento que depois surgiria, com outro desenvolvimento, em “Rendez Vous” (1986). Mas a esmagadora parte da música criada para este álbum de 1983 nasceu e ficou limitada ao alinhamento de um projeto que começou a ganhar forma com gravações de campo captadas em supermercados, usadas como bases “de contexto” para uma música que caracteriza um percurso mais exploratório.

1984. “Zookook”

Jean-Michel Jarre era um músico globalmente famoso, e sem um disco verdadeiramente realmente desafiante há já seis anos quando, em 1984, e depois da experiência invulgar de “Music For Supermarkets” (1983), chegou “Zoolook”. Tal como sucedera com esse disco de transição, do qual só fora prensado um exemplar, mas que a Radio Luxembourg passou na íntegra uma só vez, o novo álbum apresentava então um episódio de exploração de potencialidades de novas máquinas (nomeadamente os samplers e um batalhão de novos teclados), ao mesmo tempo que espelha um desejo do músico em encontrar formas de usar a voz e as línguas do mundo (passando, entre outros, por elementos “samplados” em aborígene, afegão, inuit, francês, holandês, alemão, húngaro, indiano, malaio, tibetano ou sueco). 

Esgotando no tema título e em “Zooloogique” (que chegaram, ambos, a ser editados como singles) um apelo pop semelhante ao de um “Magnetic Fields 2”, “Zoolook” é um álbum diferente na estrutura, propondo ao invés de um grande-todo, uma lógica de obra feita de faixas distintas entre si, unidos, segundo um rumo bem definido, por um conceito comum. As ferramentas de trabalho usadas e a presença protagonista das vozes asseguravam então a ideia de unidade. O disco, que recupera (com algumas alterações), três fragmentos de “Music For Supermarkets”, que foi dos primeiros a ser gravado com tecnologia digital e que conta com nomes como os de Laurie Anderson (voz) e Adrian Blew (guitarras) no elenco, é uma pérola esquecida por vezes até pelo próprio autor que não tem por hábito recuperar estes momentos nos seus alinhamentos ao vivo.

1986. “Rendez Vous”

Foi de um desafio para uma atuação que assinalasse, em Houston, os 150 anos do estado do Texas, que nasceu um novo álbum, o primeiro a ser integralmente criado para ser apresentado num espetáculo ao vivo antes mesmo da sua edição em disco. E foi logo na primeira viagem de trabalho a Houston que, numa visita ao Johnsson Space Center, que Jarre conhece o astronauta Ron McNair, que estava escalado para voar no vaivém Challenger no ano seguinte e que também era músico (saxofonista, mais concretamente). Em paralelo à criação do álbum avançam então os preparativos de m concerto que acaba todavia assombrado pela tragédia que o mundo vê em direto a 28 de janeiro de 1986, com a explosão do vaivém cerca de 75 segundos após a descolagem. O concerto é cancelado, mas o disco “Rendez Vous” acaba por surgir poucos meses depois, incluindo a peça na qual Ron McNair iria intervir em direto do espaço, sendo o disco apresentado como uma homenagem aos sete astronautas.

“Rendez Vous”, dividido em seis partes, inclui três blocos recuperados (e retrabalhados) de criações anteriores, tendo as partes II, III e V origens, respectivamente em duas canções criadas para de Gérard Lenorman (“La Belle et la Bête”, de 1975 e “La Mort du cygne”, de 1977) e num dos segmentos de “Music For Supermarkets”. De novo surge uma abertura, um novo momento com enorme potencial de comunicação pop (“Fourth Rendez Vous”, de facto editado como single) e o final, que ficou conhecido como “Ron’s Piece”, peça com o solo de saxofone destinado a Ron McNair que, em disco, acabou interpretado por Pierre Gossez. A capa voltou a contar com uma criação de Michel Granger, que antes havia colaborado com Jarre em “Oxygène” e “Equinoxe”.

1988. “Revolutions”

A ideia de criar um disco com um projeto de novo concerto como mote tinha já habitado a gravação de “Rendez Vous”, regressando no episódio seguinte, que começou a ganhar forma com o objetivo de apresentar nova música num espetáculo apontado às Docklands, em Londres. Por detrás do disco que seria editado em 1988 como “Revolutions” surgiu um conceito e, ainda, um caminho musical que traduzia sinais dos tempos. O conceito era motivado pela recente morte da sul-africana, Dulcie September, reconhecida pela sua luta contra o regime de apartheid. Foi a figura desta ativista, a quem Jean Michel Jarre dedicou o tema “September”, que abriu o caminho a um álbum que celebrou a ideia das revoluções e, sobretudo, os filhos das revoluções. Em concreto, o disco era dedicado aos filhos da revolução industrial, aos da revolução dos anos 60, aos da era dos computadores, aos filhos dos emigrantes e aos da própria Dulcie September. 

Num tempo em que Peter Gabriel lançava a Real World, David Byrne preparava a entrada em cena da Luaka Bop e Paul Simon era aclamado pelo impacte de “Graceland”, Jean Michel Jarre levava também os sabores da world music a um novo disco. Ecos de várias geografias e culturas chegaram assim ao corpo de composições de um álbum que juntou música árabe e das Caraíbas, uma flauta turca ou um coro do Mali. O alinhamento abre com a suite em três partes “Révolution industrielle” (repleta de cenografia industrial), seguindo-se “London Kid”, uma colaboração com a guitarra de Hank Marvin, dos míticos Shadows. Outra das colaborações pretendidas por Jarre, com o cantor argelino Khaled, não se concretizou por motivos de agenda, pelo que, em “Revolutions”, as vozes que escutamos provém de recolhas gravadas pelo etnomusicólogo Xavier Bellenguer. Esta última canção seria escolhida como single de apresentação, revelando a remistura usada no máxi-single sinais de ligação da música de Jean Michel Jarre aos caminhos que música de dança então estava a trilhar.

1990. “En Attendant Cousteau”

O desejo em homenagear um amigo que muito admirava, sobretudo pelo papel que desempenhara na criação de um discurso sobre a necessidade de preservar a saúde do planeta, estava na mira de Jean Michel Jarre quando procurava o caminho que o poderia levar a um novo álbum. Um recente concerto em Paris da steel band (de Trindade e Tobago) The Amoco Renegades trouxe as pistas que acabariam por conduzir Jarre à materialização das ideias, criando então as três partes de “Calypso”, peça que não só referia assim uma forma musical das Caraíbas como o próprio nome do célebre barco do oceanógrafo Jacques Cousteau, o homenageado. Jarre rumou a Trindade e Tobago onde não só deu forma às três partes de “Calypso” como ali mesmo, nos estúdios Coral Sound, gravou as partes da mesma steel band que tinha passado por França, com presença sobretudo evidente na luminosa sequência de abertura da qual, na forma de um edit, nasceu o single que então acompanhou o lançamento do álbum.

Se as três partes de “Calypso” preencheram a face A do álbum (pensando ainda numa edição prioritária em vinil), ao outro lado Jean Michel Jarre foi buscar uma composição ambiental criada para a exposição “Concert d’Images” em 1989, reduzindo os cerca de 75 minutos a um edit de 22 minutos para a edição em LP, ficando no CD uma versão intermédia, com perto de 47 minutos (a mesma que hoje está disponível nas plataformas de streaming). Esta segunda composição, que sugere a tranquilidade de um ambiente submarino, acabou por dar título ao álbum que assim se apresentou como “En Attendant Cousteau”, na verdade um piscar de olho a “À Espera de Godot”, de Beckett. O álbum esteve até perto do seu lançamento para se chamar “Cousteau At The Beach” e houve até um primeiro promo em cassete impresso com esse título que, todavia, não terá agradado ao homenageado (ao que parece pelo modo como reconhecia graves problemas ambientais em praias pelo globo fora).

1993. “Chronologie”

Um desejo em retomar pistas outrora seguidas na reta final dos anos 70, quer na forma de conceber o alinhamento de um álbum quer na própria sonoridade das composições, habitava já o mapa de ideias de Jean Michel Jarre quando, em 1992 encontrou, na Suíça, as primeiras pistas que depois o levaram até “Chronologies”. Num evento em Zermatt, criado por uma marca de relógios, apresentou duas novas peças que juntavam sons do universo da relojoaria (tiquetaques, ponteiros, mecânicas) a composições que ecoavam ecos dessa etapa da sua carreira. O programa que conduzia as ideias aliava todavia essas marcas do seu próprio passado ao tempo presente. E entre os relógios, estas pontes entre tempos e as palavras inspiradoras encontradas na escrita de Stephen Hawking, assim Jean Michel Jarre encontrou um álbum que, de facto, traduz ecos diretos dos dias de “Oxygéne”, “Equinoxe” e “Les Chants Mangetiques”.

Dividido em oito segmentos, retomando precisamente o modelo de arrumação no espaço das linhas pelas quais deu forma musical a um conceito (desta vez com o “tempo” no epicentro das atenções), “Chronologies” devolveu Jean Michel Jarre aos trilhos mais clássicos da sua escrita, ora sugerindo momentos de elaborado paisagismo ambiental, ora reencontrando o fulgor mais luminoso da pop (escute-se “Chronologies 4”), como de facto o havia feito nesses três álbuns históricos editados entre 1976 e 1981. A presença das guitarras e, sobretudo, a de ritmos assimilados entre ecos da cultura hip hop (na parte 8) são algumas das marcas distintivas de um álbum que traduziu a expressão em Jean Michel Jarre de uma atitude “back to the basics”.

1997. “Oxygène 7-13”

2000. “Metamorphosis”

2001. “Interior Music”

2002. “Sessions 2000”

2003. “Geometry of Love”

2004. “Aero”

2007. “Téo et Tea”

2007. “Oxygène: New Master Recording”

2015. “Electronica 1”

2016. “Electronica 2”

2016. “Oxygène 3”

2018. “Equinoxe Infinity”

2019. “Snapshots From EON”

2020. “Radiphonie Vol 10”

2021. “Amazônia”

2022. “Oxymore”

ÁLBUNS AO VIVO

1982. “Les Concerts en Chine”

Houve primeiro um convite oficial. Depois longas negociações. Até que, a 15 de outubro de 1981, acompanhado por uma comitiva de 70 pessoas (e cerca de 15 toneladas de material), Jean Michel Jarre aterrou em Pequim. Era a primeira vez que um músico pop ocidental visitava e atuava na China. Na verdade a tour chinesa de Jean Michel Jarre envolveu apenas cinco atuações, duas delas em Pequim (a 21 e 22 de outubro) e as três seguintes em Xangai (nos dias 26 a 28 do mesmo mês). A primeira noite foi afetada por problemas técnicos e viveu um alinhamento mais curto, envolvendo partes do álbujns “Oxygène”, “Exquinoxe (8) e “Les Chants Magnétiques” e “Jonques de Pêcheurs au Crépuscule”, tema partilhado entre a banda do músico francês (de quatro elementos) e uma orquestra chinesa. Esta ideia de procurar cruzamentos culturais ou refletir o próprio momento que de vivia levou à estreia em palco, nas noites seguintes, de outros temas inéditos, nomeadamente “Apregiateur”, “Harpe Laser” (criado para uma harpa laser que ali surgia pela primeira vez), “Nuit à Shangai” e “Orient Express”. Salvo a noite de abertura, os temas de “Oxigène” saíram do alinhamento.

O álbum “Les Concerts em Chine”, editado já em 1982, não traduz exatamente uma reprodução de fio a pavio de um dos concertos da tour chinesa. O disco, editado originalmente em formato de álbum duplo, junta de facto gravações captadas ao vivo durante os concertos (muito provavelmente entre a segunda noite em Pequim e, mais certo ainda, na etapa vivida em Xangai). Mas junta-lhes depois um trabalho de sonoplastia que envolve ainda alguns sons captados juntamente com as imagens para um documentário que começou por ser transmitido na televisão e depois chegou a ter edição em VHS em França, Espanha e no Reino Unido. Em Portugal o álbum foi lançado com uma capa com título em português – “Os Concertos na China” – e o impacte foi tal que o disco chegou a alcançar o primeiro lugar na tabela de vendas.

1987. “En Concert Houston/Lyon”

O álbum “Rendez Vous” nasceu com um fim em vista: uma grande atuação ao vivo, em Houston (no Texas), durante a qual deveria ter acontecido um dueto entre a Terra e o espaço, juntando Jean Michel Jarre ao saxofonista (e astronauta) Ronald McNair. O trágico acidente no lançamento do Challenger, em janeiro de 1986, quase fez desaparecer a possibilidade desse mega-concerto que, em memória dos que desaparecerem naquele dia, acabaria por se realizar, usando os edifícios da cidade como cenografia. “En Concert – Houston/Lyon” é o documento não apenas dessa atuação a 5 de abril de 1986, mas também de uma outra que, pouco depois, e por ocasião da visita do Papa João Paulo II à cidade-natal de Jean Michel Jarre, ali foi realizado a 5 de outubro do mesmo ano, ambas com alinhamentos consideravelmente distintos, os dois depois fixados em edições em vídeo (“Jean-Michel Jarre’s Historical Rendez-Vous Houston – A City In Concert” editado ainda em 1986, tendo “Rendez-Vous Lyon: Concert For The Pope” surgido depois, em 1989). 

O álbum que juntou momentos desses dois grandes concertos de 1986 inclui, como o título sugere, momentos de ambas as ocasiões que envolveram a presença, no saxofone, de Kirk Wahlum, que interpretou “Ron’s Piece” (que no álbum era já dedicada ao astronauta para quem havia sido composta). Ainda em 1987 uma edição em CD com o título “Cities In Concert: Houston/Lyon” apresentou um alinhamento alargado face ao lançamento original. Em 2014, com uma nova capa, “Cities In Concert Houston Lyon” conheceu nova edição em CD, com som remasterizado e capa diferente, destacando desta vez a atuação em Houston. Na capa original a frente mostrava uma fotografia tirada durante o concerto em Lyon. O CD de 2014 junta ainda uma breve faixa com a voz de João Paulo II.

1989. “Jarre Live”

O álbum “Revolutions” (1988) foi criado com uma apresentação ao vivo em mente, desde início apontada a um espaço numa zona então semi-abandonada da cidade de Londres: as Docklands. Duas datas, a 8 e 9 de outubro, acolheram um evento de grande escala, na linha de produções anteriores, e uma vez mais adaptado à cenografia natural do local, acolhendo em cada noite cerca de cem mil espectadores, entre os quais os media destacaram a presença de Lady Di. Só a meteorologia não ajudou, sobretudo na segunda noite, durante a qual a água caiu com intensidade. Os momentos foram todavia fixados em suportes áudio e vídeo para a posteridade. Desde logo a BBC transmitiu, em direto, a atuação de dia 8. Na segunda noite o vídeo entrou em cena, sob os comandos do realizador Mike Mansfield.

Documentando parte do alinhamento do espectáculo, o álbum “Jarre Live” surgiu, um ano depois, como terceiro registo ao vivo na discografia de Jean Michel Jarre. O disco capta sobretudo as presenças dos momentos levados a palco a partir do alinhamento de “Revolutions”, destacando ainda o também recente “Rendez Vous”, aqui contando com duas entradas em cena do guitarrista Hank Marvin em “London Kid” (apenas disponível na versão em CD, com alinhamento mais extenso) e “Fourth Rendez Vous” (faz sentido aqui usar o título em inglês). Em “September” (só no CD) o disco capta ainda a participação de um coro do Mali, dirigido por Soli Bamba e com Mireille Pombo como solista. De fora do LP e CD ficaram os temas “Equinoxe 5”, “Ethnicolor”, “Equinoxe 7”, “Third Rendez Vous” e “Souvenir of China”, nenhum deles usado na versão em vídeo (apenas editada em suporte VHS). 

1994. “Hong Kong”

Em maio de 1993 Jean Michel Jarre correu por palcos do Velho Continente numa digressão a que chamou Europe In Concert, naquela que foi a sua segunda tour, sucessora portanto da que levara a Pequim e Xangai em 1981. Jarre andou por terras de França, Suíça, Reino Unido, Bélgica, Alemanha, Hungria e Espanha, somando um total de 15 datas. Pouco depois foi convidado para uma atuação no concerto inaugural de um novo estádio em Honk Kong, ao qual acabaria por levar um alinhamento muito semelhante, sobretudo centrado no recente “Chronologies”, juntando alguns temas já com perfil “clássico” (revisitando momentos de “Oxygéne”, “Equinoxe”, “Les Chants Magnetiques”e “Rendez Vous”, em mood “best of”) e recuperando peças criadas por ocasião da mítica digressão chinesa de 1981. Na hora de fixar os ecos desta digressão europeia o disco acabou por apresentar na capa o nome “Hong Kong”. Mas na verdade o alinhamento deste disco ao vivo tem quase todo ele origem em gravações efetuadas durante a digressão Europe In Concert, incluindo o momento de fulgor maios roqueiro, com solos, que escuta em “Digi Sequencer” e o segmento unplugged (com um pequeno orgão de rua) ao som de “Band In The Rain”. Até mesmo “Souvenir of China” surge aqui com um solo gravado num concerto em La Defebse e a segunda parte de“Fishing Junks At Sunset”, recriada com a orquestra do Chuen Ying Arts Centre of Hong Kong, dirigida por Cheng Chai-man, resulta de uma gravação  registada durante os ensaios, já na cidade. 

1996. “Destination Docklands: The London Concert”

Versão remasterizada do álbum “Jarre Live”, de 1989. Na verdade só a capa muda, já que o disco reproduz exatamente o mesmo alinhamento da versão em CD desse disco ao vivo que capta a memória dos dois concertos realizados em Londres em outubro de 1988. Com este título o disco nunca teve (até hoje) edição em vinil. O título segue aqui (finalmente) a opção tomada, logo em 1989, pela edição do vídeo que fixou parte deste mesmo espectáculo.

1998. “Paris Live ‘Electronic Night’”

2004. “Jarre in China”

2005. “Live From Gdańsk (Koncert w Stoczni)”

2006. “Live Printemps de Bourges 2002”

2021. “Welcome to the Other Side: Concert from Virtual Notre-Dame”

2024. “Versailles 400 Live”

COMPILAÇÕES

1983. “The Essential Jean-Michel Jarre”

1985. “The Essential 1976–1986”

1990. “Les Années Laser”

1991. “Images – The Best of Jean-Michel Jarre”

1997. “Complete Oxygene”

2004. “The Essential”

2011. “Essentials & Rarities”

2011. “Rarities”

2015. “Essential Recollection”

2018. “Planet Jarre: 50 Years of Music”

EDIÇÕES ESPECIAIS LOCAIS

1982. “Synthesis” (Itália)

1983. “Musik aus Zeit und Raum” (Europa Central)

1985. “Licht – Flying Clouds” (Alemanha)

2006. “Sublime Mix” (França)

SINGLES (com edição em suporte físico)

1971. “Le Cage”

1973. “La Chanson Des Granges Brûlées”

1977. “Oxigène 4”

1977. “Oxigène 2”

1978. “Equinoxe 5”

1979. “Equinoxe 4 (Version Inédite)”

1980. “Jarre à la Concorde”

1981. “Les Chants Mangetiques”

1981. “Les Chants Magnétiques 4”

1981. “The Last Rumba”

1982. “Orient Express”

1982. “Souvenir de Chine”

1984. “Zoolook”

1985. “Zoologique”

1986. “Rendez Vous 4”

1987. “Rendez Vous Lyon”

1987. “Rendez Vous Houston”

1988. “Revolutions”

1988. “London Kid” + Hank Marvin

1990. “Oxygène”

1990. “Calypso”

1991. “Zoolook / Oxygène” (remix)

1993. “Chronologie 4”

1993. “Chronologie 2”

1993. “Chronologie 6”

1993. “Chronologie 8”

1994. “Chronologie 6 (live)”

1998. “Rendez-Vous 98” + Apollo 440

1997. “Together Now” + Tetsuya Komuro

1997. “Oxigène 10”

1997. “Oxigène 7”

1997. “Oxigène 8”

1998. “Oxigène in the Ghetto”

1999. “C’Est La Vie” + Natacha Atlas

2000. “Tout Est Bleu”

2002. “Jarre Remix Project 2002”

2007. “Téo & Tea”

2015. “Zero Gravity” + Tangerine Dream

2015. “Conquistador” + Gesalffestein

2016. “What You Want” + Peaches

2016. “Exit” + Edward Snowden

2019. “Equinoxe Infinity Remixes”

VÍDEO

1980. “Place de la Concorde” (VHS)

1989. “The China Concerts” (VHS)

1989. “Rendez-Vous Houston: A City In Concert” (VHS)

1989. “Rendez-Vous Lyon: Concert For The Pope” (VHS)

1989. “Destination Docklands – The London Concert” (VHS)

1991. “Images – The Best of Jean Michel Jarre” (VHS)

1992. “Paris La Defense” (VHS)

1994. “Europe In Concert” (VHS)

1995. “Concert Pour La Tolerance” (VHS)

1997. “Oxygen in Moscow” (DVD)

1998. “Paris Live: Rendez Vous – Electronic Night” (VHS)

2004. “Aero” (DVD)

2004. “Live In Beijing” (DVD)

2005. “Solidarnosc Live” (DVD + CD)

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