Vince Clarke levou anos a encontrar o rumo certo para a sua bússola pop. Foi um dos fundadores dos Depeche Mode, com quem gravou o álbum de estreia “Speak & Spell”, assinado a autoria da esmagadora maioria dos temas do disco, entre os quais o clássico “Just Can’t Get Enough”. Quando o grupo começava a descolar rumo a um estatuto de popularidade maior, Vince bateu com a porta e procurou para si um outro caminho. Com Alison Moyet (na verdade sua conterrânea) criou então os Yazoo, com os quais gravou dois álbuns e um punhado de singles que o confirmaram como figura de proa da emergente cena pop eletrónica. Mas uma vez mais o cenário repetiu-se e, quando o álbum “You and Me Both” chegou às lojas, já o ponto final na vida dos Yazoo era conhecido. Vince juntou-se então ao produto Eric Ratcliffe e ao cantor Feargal Sharkey (vindo dos Undertones), criando o projeto Assembly que, com vida limitada a um single só, gerou mais um êxito substancial ao som de “Never Never” (1984)… Um ano depois, ao lado do escocês Paul Quinn (dos Bourgie Bourgie) gravou mais um single, desta vez não conquistando grande notoriedade para “One Day”… Estaria o toque de Midas (versão pop) a fugir aos seus dedos?

Foi por essa altura que, através de um anuncio no “Melody Maker”, conheceu (entre os candidatos) um tal Andy Bell, admirador da obra de Vince Clarke e que acabou por ser o escolhido para, com ele, criar uma nova dupla. Com o nome Erasure apresentaram-se com um single de estreia (“Who Needs Love Like That”), que não foi além de um discreto número 55 no Reino Unido, resultado todavia melhor do que os alcançados pelos singles seguintes “Heavenly Action” (número 100) e “Oh L’Amour” (85), criando um perfil inesperadamente discreto que não levou o álbum de estreia “Wonderland” (1986) acima do número 71 também na tabela local. Confiantes na criação de uma pop luminosa e festiva, não desistiram perante os resultados do disco de estreia e, em 1986, viam o segundo álbum (“The Circus”) a conquistar atenções pela Europa fora, gerando episódios de sucesso através de canções como “Sometimes”, “It Doesn’t Have To Be” ou “Victim Of Love”. E é já sob este novo estatuto que regressam a estúdio, desta vez acompanhados pela sensibilidade talvez mais mainstream do produtor Stephen Hague. Mal imaginavam que ia ali nascer o disco que os tornaria caso maior na história pop da segunda metade dos anos 80, patamar que manteriam até inícios da década seguinte, pelo menos até à edição de um EP com versões dos Abba que dos Erasure fez peça determinante para o lançamento deu uma etapa de reencontro do mercado discográfico global com a obra em disco do mítico quarteto sueco.

Tal como acontecia desde a estreia deste duo, a nova coleção de canções surgia com a assinatura de ambos os músicos, revelando sinais de clara evolução na continuidade face às linhas pop claras, coloridas e alegres do que haviam mostrado em “Circus”, juntando contudo um trabalho cenográfico mais elaborado, todavia sem beliscar a identidade que, ao cabo de três álbuns, já haviam deixado bem definida. A comunicação do álbum ao qual chamaram “The Innocents” fez-se inicialmente ao som de “Ship Of Fools”, vincando depois vitaminas mais dançáveis no seguinte “Chains of Love”, deixando para o terceiro single o mais inesperado (pela presença das guitarras) “A Little Respect”. Não deixa se ser contudo estranha a política de limitar a extração de singles deste alinhamento a apenas três canções, podendo temas como “Heart of Stone”, “Hallowed Ground” ou “Imagination” respondido a eventuais chamadas para eventuais mais edições a 45 RPM. A opção por um EP de inéditos a caminho do Natal (“Crackers International” talvez responda a esta opção estratégia. 

“The Innocents” guarda ainda em si tesouros como a colaboração de Caron Wheeler (que um ano depois estaria a brilhar ao lado dos Soul II Soul), um piscar de olho pop à música house em “Sixty-Five Thousand” ou, como faixa extra na edição em CD, uma versão do histórico “River Deep Mountain High” que Phil Spector criou para a voz de Tina Turner. Com impacte global,  e elevando a fasquia face ao anterior “Circus”, “The Innocents” abriu a etapa mais inspirada (e com melhores resultados) na obra dos Erasure, que envolveu os seguintes “Wild” (1989) e “Chorus” (1990). 

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