Os cenários de reunião de bandas que escreveram páginas marcantes da história da canção popular cada vez menos equacionam a variável “impossível”. Com os The Smiths sob uma eventual rota de reencontro de facto já não possível em pleno dada a morte de Andy Rourke em 2023, os Talking Heads no patamar do “talvez” após as entrevistas em conjunto que deram recentemente por ocasião dos 40 anos de “Stop Making Sense” e os Abba com álbum novo em 2021, ou seja, após um hiato de 40 anos, a linha da frente deste departamento vai descartando outros nomes mais que em tempos ninguém imaginava de novo no ativo. E assim foi com os Propaganda que, mesmo com uma formação diferente da original (e um nome com ligeira cosmética, apresentando-se como xPropaganda), reavivaram o seu percurso discográfico em 2022 com “The Heart Is Strange”, terceiro álbum do grupo alemão que, juntamente com os The Art Of Noise e Frankie Goes To Hollywood representaram, em meados dos anos 80, o trio de ataque da editora ZTT, de Trevor Horn (e colaboradores). Com “The Heart Is Strange” voltou a casa a voz dos Propaganda de 1984 e 85, que então deu vida a clássicos como “Dr Mabuse”, “Duel” e “P-Machinery” (os singles do álbum “A Secret Wish”).
Com percurso anterior feito a bordo dos Topolinos, Claudia Brücken afastou-se então do grupo, fixando no álbum de remisturas “Wishful Thinking” (também de 1985) o seu episódio de despedida. Juntou-se então a Thomas Leer para criar os Act (que editaram um único álbum, “Laughter, Tears And Rage”, em 1988). Mais adiante, já no século XXI, integrou um outro duo, OnrTwo, desta vez ao lado de Paul Humphries (dos OMD) e um terceiro em parceria com o compositor Andrew Poppy. Mas desde os anos 90, após o fim do ciclo de vida do álbum do projeto Act, a voz de Claudia Brucken, mesmo menos visível do que nos anos 80, tem sobretudo colaborado em discos de outros músicos (como o ex-Kraftwerk Wolfgang Flur) e vindo a criar uma obra em nome próprio que conheceu um primeiro momento em “Love: And A Million Other Things” (1991). Agora, depois do álbum de versões “The Lost and Found” (2012) e de “Where Else” (2014), onde canta Nick Drake entre uma coleção de originais, eis que regressa aos discos em nome próprio.

“Night Mirror”, quarto álbum a solo da cantora, representa mais um episódio no seu relacionamento com o compositor, produtor (e em tempos editor discográfico) John Williams (não confundir com o habitual colaborador de Steven Spielberg), com quem trabalhou já no seu álbum de 2014 e no disco “Out Of Darkness” (2021) do projeto The John Williams Syndicate. Mais dinâmico do que “Where Else”, vincando em alguns momentos ecos das coordenadas mais próximas dos ecos da pop eletrónica dos oitentas (como em “Shadow Dancer” ou “Sound and The Fury”), mas caminhando sobretudo num espaço de elegância classicismo que de facto se ajusta ao timbre e perfil interpretativo da voz de Claudia Brucken. Não está aqui nem a vertigem, as angulosidade e a cenografia grandiosa com que Trevor Horn e Steve Lipson moldaram as canções de “A Secret Wish” para as quais foi também marcante a voz de Claudia Brucken. Mas este, mesmo longe do fulgor dessas canções de há 40 anos, talvez seja mesmo assim o mais interessante dos discos a solo da cantora.
“Night Mirror”, de Claudia Brucken, está disponível em LP, CD e Blu-ray Audio numa edição da Edsel.





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