Lojas de discos idependentes: uma história de resistência

Com uma linguagem de guerrilha o documentário “I Need That Record”, de Brendan Toller, propõe um olhar sobre o panorama das lojas de discos independentes nos EUA. E a atitude é de resistência.

Em meados dos anos 80 um casal, cansado do quotidiano (emprego incluído), resolveu vender o que tinha, carregou o que sobrou num carro e saiu de Miami (Florida). Destino? O Conneticut… Começaram por se instalar em Brookfield, onde abriram uma loja de discos independente. A coisa prosperou e, dois anos e meio depois, mudaram-se para um espaço maior em Danbury. A loja manteve o mesmo nome: Trash American Style… E a coisa correu bem, criando uma comunidade que ali acorria para ver discos, conversar, assistir a atuações ao vivo… Até que, em 2007, a loja vizinha quis expandir-se e o senhorio obrigou a que o casal e a sua grande família de discos, tivessem de abandonar o local…  Este momento, o da morte de uma loja independente, serviu de mote para que Brendan Toller pegasse na sua câmara e, com uma linguagem de guerrilha, contasse não apenas a história da Trash American Style mas das lojas de discos independentes norte-americanas. E assim surgiu, em 2009, I Need That Record, documentário que entretanto correu festivais e mais festivais e tem já edição em DVD.

            O filme começa com um plano que nos faz mergulhar no interior de uma loja de discos. A imagem lembra a capa de Entroducing de DJ Shadow e deixa qualquer apaixonado pelo colecionismo de discos (e pelo vinil em particular) de água na boca. E logo depois tanto ouvimos Chris Frantz (dos Talking Heads) a contar que as lojas de discos (as independentes) sempre lhe pareceram um pouco como as de comics, ou seja, um espaço de encontro e de partilha. O compositor Glenn Branca refere o ato físico de pegar e mexer nas capas, no vinil. Lenny Kaye recorda como foi numa loja de discos que aprofundou a sua relação com Patti Smith. E Thurston Moore (Sonic Youth) confessa que sempre associou as digressões a duas realidades: tocar ao vivo e visitar lojas de discos.

            Este é o ponto de partida para uma viagem através da qual Brendan Toller procura fazer um retrato do estado de saúde do mapa norte-americano de lojas independentes na alvorada do século XXI. Para tal decidiu contextualizar este universo no quadro da história do mercado do disco desde o “boom” do rock’n’roll nos anos 50, passando por histórias do mundo da rádio, a payola, o aparecimento da MTV, as mutações nos comportamentos das grandes editoras, a alvorada do consumo digital, e por aí adiante… Talvez se tenha alongado demasiado neste segmento intermediário que separa o lançamento da sua demanda do mergulho mais profundo entre lojas de discos que o filme mostra mais adiante. Mas há momentos a reter neste “momento” de explicação de como as coisas vieram desde os tempos dos primeiros singles de rock’n’roll até aqui… Como, por exemplo, quando Chris Frantz confessa que, tivessem nascido hoje, os Talking Heads poderia ter sido afastados do catálogo depois de um primeiro disco fracassado nas vendas. “Não há espaço para desenvolver artistas” numa grande editora, diz. E tem razão…

            E depois do contexto, o “caso”. As lojas independentes. E aí estão as narrativas e entrevistas mais suculentas do documentário. Histórias de amor e dedicação a uma paixão que se vivem dos dois lados do balcão. A ideia da loja de discos como um espaço comunitário. E a comparação das diferenças entre as pequenas lojas independentes e as grandes superfícies (que entretanto quase desapareceram) faz com que Noam Chomsky teça uma comparação entre os velhos pequenos supermercados de bairro e os maiores que depois apareceram. Há, de resto, várias vozes em defesa não apenas das questões culturais e identitárias que uma loja de discos pode fazer pela comunidade mas também pelo seu contributo para uma boa saúde do comércio local.

A captação de imagem e de som tem o seu quê de guerrilha e urgência (maneira suave de dizer que podia estar mais bem feito), a voz off podia ser mais cativante e o modelo de montagem que recorre ao jump cut (possivelmente por falta de planos de corte) sugere um discurso próximo do amador. Pode ser intencional. Mas não danifica a ideia que passa. Sobretudo quando, apesar do quadro pouco luminoso que se vivia na primeira década deste século, os primeiros sinais de ressurgimento de um interesse pelo vinil e a força de resistência da dedicação dos lojistas dão a entender que, contra as adversidades, a atitude é de resistência.

“I Need That Record”, de Brendan Toller, está disponível em DVD numa edição inglesa pela MVD Visual. O DVD tem vários extras, entre os quais versões alargadas de entrevistas com Thurston Moore, Glenn Branca, Lenny Kaye (Patti Smith Group), Patterson Hood (Drive-By Truckers) ou Pat Carney (Black Keys).

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