Por onde anda a pop atual? Grimes dá a resposta em “Miss Anthropocene”

Cinco anos depois de “Art Angels” a canadiana Grimes regressa com um álbum tenso e intenso, assombrado nas formas e temas, que nos deixa escutar uma visão tão desafiante como cativante do que pode ser a canção pop no nosso tempo. Texto: Nuno Galopim

Por onde anda hoje a música pop? Se para responder a esta questão formos escutar as canções pop que povoam os espaços de divulgação mais dados a falar do que faz sucesso, acabaremos com a impressão de que, apesar de uma mão-cheia de casos de exceção (os realmente capazes de expressar identidade) a clonagem, afinal, já existe. Porém nunca antes os criadores de música pop tiveram um tão vasto mundo de possibilidades pela sua frente. De facto, as hipóteses de fuga às normas que definem os padrões do gosto mainstream nunca foram tantas e tão capazes de nos levar a novos rumos. A facilidade da comunicação global e o acesso a referências e experiências de vários tempos, lugares e universos criativos, pode abrir caminhos a muitas variáveis. Não no sentido do “cruzamento” de experiências como a world music veiculou, mas sobretudo na capacidade que cada um tem em definir as suas demandas de interesses, não apenas entre a música mas igualmente no campo das imagens, das narrativas e ficções (venham do cinema, dos livros, dos jogos, da banda desenhada, da animação ou de vídeos achados online), retirando de vários mundos os pedaços que, no fim, acabam por definir o “eu” de cada um. Todos somos feitos da soma dos fragmentos de referências e ideias que colhemos…

Grimes é assim um exemplo maior de uma esteta pop do nosso tempo. Dotada daquela inquietude de quem não aceita fazer da sua música uma mera continuação ou versão das ideias dos outros, tem vindo a explorar nos seus discos (e materiais audiovisuais a eles associados) a construção de universos que traduzem um mundo de interesses que é seu, particular, mas que connosco depois partilha. Pelas suas canções passam ecos de personagens e narrativas que tanto podem chegar de assimilações do anime como da construção de universos de fantasia, com seres sobrenaturais com formas que o cinema poderia gostar de materializar… Miss Anthropocene, o seu quinto álbum, surge cinco anos depois do anterior Art Angels e começa logo por nos colocar perante uma figura maior (que dá título ao disco). O nome cruza uma ideia de antropoceno (a era geológica que corresponde à passagem da humanidade pelo planeta) com a de misantropia. Esta figura corresponde à criação (de ficção, claro), de uma deusa que podemos associar às alterações climáticas. Na verdade, o título serve um disco que, apesar do conceito, acaba por não ser exatamente um manifesto “verde”, mas antes um espaço metafórico assombrado no qual há talvez mais abismos abertos pelas vivências pessoais que a cantora canadiana viveu nos últimos cinco anos, do que por uma agenda climática ativista.

Um intervalo de cinco anos entre dois álbuns não será motivo de surpresa em si dados os ritmos dos ciclos que a vida de estrada hoje definem em volta de cada novo disco para muitos artistas. Mas os cinco anos que separam Miss Anthropocene de Art Angels não foram uma planície tranquila na vida de Claire Elise Boucher (o seu nome real). Desde o plano da sua vida privada (e o modo como os media a retrataram) à degradação da sua relação com a editora 4AD (para a qual este deverá ser o seu último disco) o mundo em volta de Grimes viveu convulsões que a própria longa gestação do disco terá acabado de refletir em si mesmo. Todo este quadro vivencial definiu ambientes ao qual se juntaram visões sobre o nosso mundo e o futuro que a humanidade e a tecnologia podem enfrentar… E, uma a uma, surgiram canções que agora estão arrumadas no melhor disco pop dos últimos tempos.

A diversidade de formas e, sobretudo, o modo de prazer algo cinematográfico com que as canções ganham corpo dá a Miss Anthropocene argumentos de fuga não apenas ao panorama da pop atual como reflete sinais de novas demandas na própria música de Grimes. Há um mundo de referências em jogo, que implica a presença de colaboradores, que vão desde o rapper de Tawian 潘PAN a novos valores da música eletrónica como i_o ou Hana. Este é um disco desafiante mas ao mesmo tempo absolutamente desarmante porque, ao invés das visões de uma pop exploratória (não menos interessantes) de uma Björk ou Anohni, as canções são tão acessíveis como surpreendentes. Apesar do tom assombrado do mood que cruza o disco (e dos temas abordados), as canções não escondem um desejo em comunicar. Sem cedências, Grimes mostra aqui como é possível criar um álbum pop contemporâneo, capaz de vincar a personalidade de quem cria e interpreta as canções, firme na condução de ideias, mas capaz de seduzir quem o queira escutar. Se alguém me perguntar, por estes dias, por onde anda a música pop, a minha resposta vai apontar a este novo disco de Grimes.

“Miss Anthropocene”, de Grimes, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da 4AD

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