Há linhas que nos unem

Pedro acaba de editar “Da Linha”, o seu álbum de estreia, disco que nos apresenta uma demonstração clara do porquê de se ter tornado um dos mais interessantes produtores portugueses. Texto: Gonçalo Cota

A Damaia pode parecer muito longe de uma ideia romantizada de Lisboa, a Lisboa que se circunscreve apenas às viagens do elétrico 28 ou às esplanadas nos bairros históricos, onde se possam comer pastéis de nata quentes com vista para o Tejo. Mas, se a viagem correr como planeada, sem atrasos ou qualquer outra circunstância que cause mora, o comboio consegue unir em apenas 11 minutos a histórica estação do Rossio à estação da Damaia. E foi nesta Lisboa, a da periferia, que se acolheram os retornados das ex-colónias – fruto do processo de descolonização pós 25 de abril –, acompanhados, nos anos seguintes, por uma vaga de migração de Angola e Moçambique, da Guiné, São Tomé e Príncipe ou Cabo Verde. Aqui, para lá das somas óbvias de diferentes latitudes, também se fizeram contas à diversidade de vivências e de culturas. E mesclaram-se ritmos e géneros, inscreveram-se novas formas de fazer música e de a dançar, dialogaram a kizomba, o kuduro, a morna, o funaná.

No virar do século, os Buraka Som Sistema foram percursores em incorporar, na música de dança, uma esta visão sociológica menos consensual da cidade: o seu primeiro EP, From Buraka to the World, como o nome sugere, foi impulsionador em mostrar esta nova ideia de lusofonia que por cá se depurava. Uma Lisboa que congrega (e não separa) o seu lado africanizado e irreverente, tendo o kuduro como epicentro criativo. Durante dez anos, Branko, Riot, Kalaf, Conductor e, mais tarde, Blaya cresceram, solidificaram o seu som e confirmaram-se internacionalmente. No verão de 2016, a dissolução do projeto (pelo menos momentaneamente) aconteceu no Globaile, festival com curadoria dos próprios e, desde aí, definiram caminhos individuais.

Pode afirmar-se, com certeza, que PEDRO é um dos herdeiros, não só do legado musical dos Buraka Som Sistema, mas desta visão da cidade de Lisboa – que, como nos canta Dino d’Santiago, do qual é coprodutor, com Branko, é uma “Nova Lisboa”. Frisou em entrevista ao GiRA DiSCOS: ”Acho que tudo isto que estamos a viver musicalmente em Lisboa e também no resto do país é o resultado de todo um caminho que foi feito anteriormente (muito graças a Buraka Som Sistema) que permite que novos artistas como eu e o Pedro Mafama consigamos criar a nossa música e que essa faça sentido em toda esta história que aos poucos estamos a criar”.

Pedro Maurício começou a fazer música assinando as suas produções como Kking Kong. Mas não foi necessário subir ao topo do Empire State Building para ser descoberto por João Barbosa (Branko). E aconteceu por via da plataforma SoundCloud. Branko primeiro convida-o para tocar ao vivo nas Hard Ass Sessions no Lux Frágil e, posteriormente, para juntar-se à editora Enchufada (fundada por Branko e que editou todos os discos de Buraka Som Sistema). Em 2017, deixa para trás o nome Kking Kong e passa a assinar como PEDRO, não tendo parado desde aí: coproduziu com Branko os singles Contigo, de Carlão, Nova Lisboa, de Dino D’Santiago e MPTS. Faz nascer, na transição entre 2017 e 2018, o seu EP Damaia 2.0, mostrando como as formas mais convencionais do kuduro podem ser musculadas com detalhes de música eletrónica, exponenciando o seu lado eletrizante e viril.

Damaia 2.0 é uma homenagem. Nascido e criado na Damaia, sendo “este um fator decisivo porque toda a mistura cultural que existe na zona e ao longo da Linha de Sintra acabou por influenciar o meu crescimento enquanto pessoa e que, por sua vez, acabou por influenciar também a forma como abordo vários estilos de música e como a produzo. Quando cresces numa área onde tanto ouves techno em casa, como funaná e semba na rua, como música pop na escola, acabas por, de forma inconsciente, imaginar cenas bem porreiras e vais querer tentar criá-las”, como nos conta.

O seu primeiro longa-duração chegou há poucos dias: um conjunto verdadeiramente eclético, uma demonstração clara do porquê de, forma mais ou menos tímida, se ter tornado um dos mais interessantes produtores portugueses. Da Linha é kuduro, claro, mas com a capacidade de reclamar influências e lugares do atlas, expandindo-se até ao reggaeton em Para Ti, na vibrante faixa Stuck on You, cantada pelo ganês Brytes, ou entrando em diálogo com a musicalidade profundamente mesclada de Pedro Mafama, como escutamos em Terra Treme. O Brasil não é esquecido: PEDRO convida o duo brasileiro de produtores DKVPZ em Toques, num exercício de partilha de referências, que se diluem num instrumental acalentado e musculado.

A diversidade, como nos conta, “é essencial no sentido em que é sempre importante teres várias conexões com vários pontos do mundo e com as pessoas desses estilos musicais, dessas culturas. Achei mega cool ter um tema com o Xcelência por exemplo, que é um artista de Porto Rico baseado em Los Angeles e que canta exclusivamente reggaeton ou ter um tema com o Pedro Mafama e ambos criarmos algo que não é logo à partida algo que faríamos sozinhos. Acho que é muito importante teres várias línguas e culturas no meu disco e na música que produzo (…)”

E é na capacidade de produzir diversidade que PEDRO encontra seu o cunho autoral: quando avançamos em Da Linha, nada nos soa semelhante ao que escutámos em faixas anteriores. Calores, a segunda de dez faixas, é exuberância instrumental, detalhada e orgânica, demarcando-se de produções mais furiosas escutadas em Damaia 2.0. Faz-se acompanhar, como habitual, por Branko para criar, em Takré, uma eletrónica voluptuosa e sensual. PEDRO, em Da Linha, vem mostrar-nos que há mais linhas que nos unem do que aquelas que nos separam. Há apenas que ter coragem em ultrapassá-las!

“Da Linha”, de Pedro, está disponível em LP e nas plataformas digitais, numa edição da Enchufada

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