Memórias e revelações a propósito de um disco de música eletrónica de Vítor Rua

“Electronic Music 1995-2010” abre janelas sobre visões e explorações que a obra a solo de Vítor Rua foi percorrendo nos universos da música eletrónica. Em conversa com o GiRA DiSCOS Vítor Rua enquadrou a génese desta música e revelou passos seguintes… E um deles envolve música nova de Telectu! Texto: Nuno Galopim

Uma das melhores (re)descobertas que o panorama editorial português nos deu a ouvir neste início de ano transporta-nos, através de uma curadoria, por algumas memórias de criação de música eletrónica que Vítor Rua compôs, gravou e publicou em formatos digitais. Agrupada em suporte de CD, mas disponível também em plataformas digitais, Electronic Music 1995-2010 é ao mesmo tempo um mergulho por um vasto arquivo e, dado o modelo da edição – sobreudo a criação de um disco acompanhado por um artwork que usa caixas pré-usadas e frisa uma noção de materialidade e sustentabilidade – um possível primeiro passo para outros projetos (de reedição e também edição. De resto, ao falar para o GiRA DiSCOS, Vítor Rua deixa uma novidade em primeira mão sobre os Telectu (nada como ler mais abaixo).

Este disco apresenta a Marte Instantânea, uma etiqueta subsidiária da Holuzam e junta num alinhamento comum elementos de Computer Music (1995), Hello, I Am Mister ED (1996), Dance Music (1999) e Telectu Cats (de 2010). Aqui se encontram várias abordagens aos universos (vastos) da música eletrónica que, na verdade, habitam a obra de Vítor Rua desde sempre. Há caminhos que passam pelas heranças do minimalismo e da música repetitiva, outros que exploram outras formas de moldar sugestões com outras dinâmicas, por vezes hipnóticas, sempre deixando claro o gosto por explorar e por saborear, sobretudo, caminhos de liberdade e de busca de identidade (ou de vários trilhos possíveis dentro de uma mesma identidade). Electronic Music 1995-2010 é uma (re)descoberta saborosa. Muito saborosa mesmo. E, mal terminado o alinhamento, deixa em nós a vontade em continuar a procurar o que ainda possa haver entre os mais de cem discos com lançamento digital que o músico foi editando ao longo dos anos e os inéditos em que tem trabalhado nos últimos tempos… Venham mais volumes. Venham novas edições… E para explicar o que foi e o que vai ser, lançámos algumas questões ao Vítor Rua, que prontamente respondeu.

A música aqui reunida recua no tempo até 1995, ou seja, surge em paralelo a trabalhos então desenvolvidos pelos Telectu. Eram explorações que não faziam já sentido no quadro do que eram então as demandas musicais nos Telectu?

Eu fui dos primeiros músicos em Portugal a ter um sintetizador. Tive-o em 1971. Deviam existir apenas uns cinco em todo o País. Deviam ter o José Cid, o Miguel Graça Moura, o Jorge Lima Barreto e o Luís Ruvina, poucos mais. Em todas as Bandas que tive até aos Telectu (Snif, Veterp, Pastorinhos de Fátima, King Fischers Band e GNR), eu tocava ou escrevia para sintetizadores. Fui eu que gravei em primeiros takes as seis pistas de sintetizador do tema Nostradamus do António Variações, por exemplo, ou todos os sintetizadores do LP Álibi da Manuela Moura Guedes. Aliás, pouco antes de ter início os Telectu (tinha eu já comigo dois sintetizadores), estive quase a mudar da guitarra para os sintetizadores (que sempre adorei tocar!). Só não efectuei essa “mudança” porque, entratanto, o Jorge Lima Barreto tocava sintetizadores e eu passei a dedicar-me (nos Telectu) unicamente à guitarra e electrónica. Mas paralelamente aos Telectu, eu sempre continuei a fazer a minha música e a tocar e a gravar em sintetizadores.

Disso é prova a cassete que irá sair este Verão pela “URUBU”, que de um dos lados tem peças minhas a solo para guitarra electrónica e do outro lado tem peças a solo minhas em sintetizadores, ambos de 1984. Também é prova eu ter editados em mais de 30 plataformas digitais, mais de 20 discos para sintetizadores, como “Jupiter 8”, ou “SH101” ou “Vocoder”, ou “iDensity” ou “iStira” ou “Mother 51”, entre muitos outros discos, gravados entre 1984 e 2017.

Assim e respondendo mais concretamente à pergunta, eu sempre continuei a tocar e a gravar em sintetizadores e a compor a minha própria música mesmo já estando nos Telectu. Só que naquela altura, eu dava “prioridade” ao meu trabalho com os Telectu e sabia que quando eu o entendesse – a minha música não é uma música de “modas” ou de “épocas”! – poderia editar estes meus trabalhos. Não era tanto o facto de não se “adequarem” aos Telectu – até porque duas das peças contidas neste CD fazem parte de obras que também entram na discografia dos Telectu -, mas mais, por fazerem parte de um trabalho que eu estava a desenvolver à parte dos Telectu, mas que na altura só era conhecido por alguns músicos e amigos.

Sentes que possa haver aqui heranças das abordagens que os Telectu fizeram aos espaços da música minimal repetitiva?

Há de certeza! Pois como disse, das peças aqui apresentadas neste CD, duas delas também fazem parte do catálogo dos Telectu (outra versão!) e as outras terão a ver com Telectu porque eu era Telectu também.

Ao mesmo tempo nota-se o que parece ser também uma vontade em explorar linguagens mais próximas de caminhos que a música eletrónica desenvolveu, sobretudo no universo de alguma “música de dança” dos anos 90 e depois… Era um universo que seguisses com algum interesse?

Neste caso concreto realmente coincidiu com um período em que o Jorge Lima Barreto estava a escrever um livro sobre o Hip Hop B Boy (de que eu fiz a capa), e durante quase um ano escutamos muita música de Dança, pois o Jorge queria ter referências. Ele escutava muito baixinho esse estilo musical, o que fazia com que se ouvisse quase apenas os “graves” das batida regular, por isso não posso dizer que fiquei “a par” dessa música que se fazia então e muito menos que gostasse dela.

Mas curiosamente, um dia comprei uma groovebox da Roland e comecei a programar beats e os Telectu ainda gravaram e tocaram ao vivo com essas “bases” pré-gravadas: foi nos anos 1990 e tivemos a colaboração do Filipe Mendes (que tinha regressado do Brasil). Chegamos a tocar essas músicas na Festa do Avante com o Público ao rubro. Esse disco dos Telectu está editado online sob o nome de B Boy e é música de Dança. Ou seja, o que eu estava a fazer a solo em casa, acabava – por vezes – de se reflectir no que os Telectu faziam e não o contrário.

Estas peças iam nascendo como? Em casa? Explorando?

Sim, nasciam no estúdio dos Telectu e acontecia quando o Jorge estava a escrever os seus livros e eu ficava a experimentar e a gravar nos sintetizadores. Usava inicialmente os sintetizadores da Korg (anos 1970); depois nos anos 1980 passei para os sintetizadores Roland (Jupiter 6 e 8, Juno 6, JX-3P) e depois para o Nordlead (finais dos anos 1990).

Este disco resulta de uma recolha de material de arquivo. O que te levou a juntar peças deste quadro temporal (1995-2010) sob um teto comum?

Essa escolha foi efectuada pelo José Moura, da Marte Instantânea. Ele é que andou a pesquisar durante meses os meus 168 CD editados online e deles extraiu estes. Quando mos deu a escutar, fiquei impressionado com a coerência e coesão das peças retiradas de outros discos, pois dava a ideia que este era um disco “original” tal a forma de recolha e ordem dos temas. Foi um excelente trabalho da parte dele e pelo qual só tenho a agradecer-lhe.

Editar em disco e não apenas disponibilizar ‘online’ tem a ver com um gosto em materializar a música? Em fixá-la num suporte (com capa, o que lhe dá um corpo visual)?

Eu acredito que as duas possibilidades ainda podem coabitar. Fui dos primeiros a aderir à publicação de música online (como digo, tenho 168 discos editados em mais de 30 plataformas digitais, de vários estilos musicais, e tocando vários instrumentos e com várias formações: do solo à orquestra de câmara), mas continuo a gostar de editar certos discos fisicamente se e só se, acrescentar “algo” à música! Daí o “cuidado” que este CD teve com a capa e aí tenho a agradecer ao Nicolai Sarbib, que fez um maravilhoso trabalho.

Acredito que possa haver mais gravações nos teus arquivos. Pode ser este disco o começo de futuras incursões pelos arquivos?

Espero bem que sim! Sempre foi essa a minha intenção: que a música online fosse uma espécie de “amostra” para que editoras possam escolher o que quiserem para edição em versão física! Tenho além dos 168 discos editados, mais uns 30 prontos a serem editados este ano online (discos realizados entre 2007 e 2020).

Mudaste-te recentemente do centro de Lisboa para fora da cidade. Essa alteração poderá ter alguns reflexos na tua música do presente (da forma ao ritmo de trabalho)?

Teve e de que maneira! Nunca imaginei que o facto de se mudar de casa pudesse ter um tão grande impacto na forma de produzir e na quantidade de produzir música. Vim para as Caldas da Rainha, mas perto da Foz do Arelho e afastado do Centro, sendo que tenho como “vizinha” uma Floresta maravilhosa com esquilos, coelhos, patos e muitos pássaros.

Montei um estúdio na garagem e comecei a experimentar os novos sintetizadores analógicos que entretanto adquiri ao inventor excepcional Paul Tas (holandês que me constrói instrumentos para mim), e estou desde Novembro de 2019 a trabalhar num disco de música electrónica meu (só com sintetizadores analógicos) e outro que será uma novidade e que aqui anuncio em primeira mão: um novo trabalho dos Telectu!

Não me refiro a discos dos Telectu que estão a sair como reedições, nem tão pouco aos discos que estão a sair dos Telectu a interpretarem Telectu, como caso do CD que vai sair agora em Abril intitulado: Telectu plays Telectu Live at Cafe Oto, London, 2019, com a Ilda Teresa Castro nos sintetizadores, Dom DeLouise e metalofónes. Estou-me a referir a um novo trabalho dos Telectu original de 2020!

De referir que a última edição dos Telectu se deu em 2003 com o CD Quartetos editado pela Cleen Feed do Pedro Costa. Quanto ao “ritmo” de trabalho mudou drasticamente: aumentei ainda mais a produção de música pois o “Tempo” aqui, funciona de outra forma do que em Lisboa. Aqui reinventei o Tempo!

Além do meu trabalho a solo, do trabalho com os Telectu, criei ainda o Projecto “The Banksy’s” com a música Ilda Teresa castro, e cujo disco de apresentação será também este ano. Este meu novo projecto é um projecto Pop Minimal Eco (tem nas letras uma componente ecológica & ambientalista).

Também estou a trabalhar noutros projectos Pop, sendo que um, creio que irá ser uma “Bomba”, pois conta com a excelente poesia da Cláudia Lucas Chéu (poesia carregada de teor feminista libertário), e com convidados surpresa. Uma coisa é certa: a Pop em Portugal vai mudar! :))


“Electronic Music 1995-2010” está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Marte Instantânea.

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