Mabe Fratti: Pés sobre a Terra, mas numa música com espaços em volta

O álbum de estreia de Mabe Fratti, compositora nascida na Guatemala a viver na Cidade do México, junta uma ideia de música ambiental feita com eletrónicas, violoncelo e voz a um gosto por criar espaços onde as canções se diluem com as paisagens em volta. Texto: Nuno Galopim

Juntar violoncelo com canto e música eletrónica não é necessariamente uma ideia inédita. E imediatamente podemos dar por nós a pensar em Arthur Russell como um exemplo de perfeita coexistência entre essas três “vozes”… Mabe Fratti pode partilhar com Arthur Russell essas três frentes de exploração para a música. Mas na verdade o que nos propõe esta compositora natural da Guatemala e atualmente a viver na Cidade do México é algo completamente diferente. Ambos partilham, contudo, a vontade de expressar pela música uma pulsão autoral que, de certa forma, os relaciona (a ambos) com os universos nos quais a sua música ganha forma. Em Arthur Russell (1951-1992) cruzavam-se as visões de um explorador com ecos das paisagens ao seu redor (as de uma Nova Iorque que descobria novas músicas nos anos 70 e 80 e, antes mesmo, as marcas das vivências rurais da sua infância). E, Mabe Fratti reconhecemos sobretudo o sentido de liberdade (também com gosto exploratório) de alguém que dialoga com os universos das artes que surgem na comunidade ao seu redor. E pela sua música sentem-se afinidades com os espaços e linguagens das artes visuais e performativas, traduzindo afinal os terrenos de labor e colaboração que ela mesmo tem vindo a desenvolver na cidade que escolheu para ser a sua casa.

Em 2018, quando começou a fixar a sua música em gravações publicadas (inicialmente apenas em suporte digital), editou um EP ao qual chamou Aprendiendo a Hablar. E escutando as gravações que separam esse disco de Pies Sobre La Tierra, que agora assinala a sua estreia no formato de álbum, encontramos de facto uma progressão no trabalho de moldagem da música no sentido de criar um espaço próprio onde não só se afirma uma identidade autoral interessada na criação de soundscapes, texturas, atmosferas, desenhando espaços onde se diluem depois as fronteiras com os espaços da canção. A caminhada onírica que Mabe Fratti nos sugere no alinhamento de Pies Sobre La Tierra tem o sabor de um ciclo narrativo. As marcas de fisicalidade carnal da voz e do vibrar das cordas do violoncelo unem-se aos sons mais difusos lançados pelas eletrónicas. As canções emergem talvez num éter, mas olham de perto o chão. Até que o pisam. E a capa, que mostra um jardim verdejante, mas vazio de gente, parece falar para os nossos dias…

Pies Sobre La Tierra é uma experiência de sedutora e envolvente placidez que podemos juntar a propostas como as que Murcof sugeriu em Martes, Ambrose Field em Being Dufay ou Julianna Barcwick em The Magic Place são discípulos, com outras ferramentas, das visões que em tempos uma Virginia Astley nos lançava ao contemplar os seus jardins em forma de sons… Apesar de circular no ar e da cumplicidade marcante das eletrónicas, Mabe Fratti tem de facto os pés nesta (nossa) Terra. E este disco é uma das experiências mais belas que o ano já nos deu a escutar (ainda por cima, confinados, podemos sonhar aqui com outra imensidão de paisagens)…

Mabe Frati “Pies Sobre La Tierra” está disponível em LP e está disponível nas plataformas digitais numa edição da Unheard of Hope

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