Mancines: raios de (boa) luz para a pop que nasce entre nós

Os Mancines, ou seja, Raquel Ralha, Pedro Renato, Toni Fortuna e Gonçalo Rui, acabam de editar um segundo álbum, pelo qual se cruzam referências que vão do mundo do cinema a memórias da pop portuguesa… Um álbum pop elegante e saboroso, “Mancines II” serve aqui de motivo para uma troca de ideias. Texto: Nuno Galopim

Não sei o que se passou mas muitas vezes sinto que a palavra “pop” se transformou para muitos (não para mim) numa espécie de “palavrão”. Há uns anos, estava eu a passar música no Fontoria, e uma rapariga pede-me: “passa pop!”… Nada contra, claro. Mas a perplexidade instalou-se porque naquele momento eu passava o Go West dos Pet Shop Boys… Bom, pop mais pop não há! Mas a situação expressa a forma como, por vezes, se instalam equívocos (o trabalho que tive há dias a tentar explicar a um jovem jornalista a dimensão “maior” que a palavra pop implica, tentando afastá-lo do constrangimento, ou confinamento como agora se diz, a que a sua geração reduzira a noção do que é pop…). Há quem pense que, hoje em dia, a pop corresponde apenas (ou sobretudo) ao terrenos de uma Lady Gaga ou Ariana Grande. São figuras da pop, naturalmente. Mas tão pop, embora diferente pop, é a que os Pet Shop Boys, Depeche Mode ou Duran Duran continuam a fazer. Ou a que faziam os Japan em Tin Drum ou Momus em Hairstyles of The Devil. A que nos davam os Kraftwerk em The Man Machine. Ou a que saía dos discos de uma Françoise Hardy ou Sandie Shaw nos anos 60… Fechar pop a uma cerca estética de época e forma é miopia que vale a pena  ultrapassar a bem de poder “ver” as coisas com mais olhos (e ouvidos) do que manias. Pop é um conceito maior, recheado de diversidade. Cruza os tempos. Muitas vezes pode até andar de braço dado com formas do rock, da soul, da música eletrónica ou hip hop (como o fizeram por exemplo os PM Dawn ou mais recentemente Lil’ Nas X). Pois é… Pop é um espaço vasto… Depois, os mais dados às nomenclaturas e a arrumar as ideias como o fazia o velho Lineu, até podem criar subgéneros ditados por abordagens estéticas, épocas ou geografias. Mas, e para não esticar demais a coisa, olhemos a pop como um mundo de possibilidades que cruza os tempos e abarca muitos caminhos…

Tudo isto para sublinhar que um dos mais deliciosos discos pop que nasceram entre nós nos últimos tempos vem assinado pelos Mancines. O grupo, com berço coimbrão, traduz na verdade heranças de referências maiores da história da cidade, desde os Belle Chase Hotel (autores de alguma da pop mais gourmet que escutámos por cá em finais dos noventas), aos Tédio Boys, passando pelos Wray Gunn, Azembla’s Quartet ou D30. Aqui se juntam Raquel Ralha, Pedro Renato, Toni Fortuna e Gonçalo Rui. E, com eles, formas, épocas, referências. As canções sugerem uma vasta assimilação de heranças (que vão desde a música para cinema aos terrenos clássicos da canção pop, com pistas que passam por várias tradições europeias), juntam a elegância e o poder sedutor das grandes melodias, e celebram mesmo a história pop nacional ao recriar Fado, um clássico dos Heróis do Mar… Olha, lá está, mais uma referência maior da canção pop… Passar pop? Sim, passemos (ou escutemos) Mancines II. É um disco para juntar a La Toilette des Etoiles dos Belle Chase Hotel, Altar dos The Gift, Lustro dos Clã, Onde O Tempo Faz a Curva dos Rádio Macau, Desalmadamente de Lena d’Água, Le Jeu dos Balla ou o álbum dos Humanos, entre outros mais, na galeria de grandes momentos pop made in Portugal editados em disco desde o ano 2000.

Para assinalar a edição de Mancines II trocámos umas palavras. E quem responde, em nome dos Mancines, é o Pedro Renato.

Cinco anos separam este disco do vosso primeiro álbum. É certo que os ciclos de vida dos discos (gravação / edição / estrada) hoje são hoje mais longos… Mas cinco anos é tempo… Como passou por vós o tempo. O que fizeram até retomar as rédeas a Mancines?

Na verdade, estes cinco anos passaram mesmo bastante rápido, pelo menos no que me diz respeito, uma vez que eu e a Raquel Ralha estivemos grande parte desse tempo bastante próximos a trabalhar noutros discos e projetos. Nem tivemos consciência que haviam passado cinco anos após a edição de Eden`s Inferno.

Se o primeiro álbum captava ecos da memória de uns Belle Chase Hotel, este segundo parece são só mais livre como votado mesmo a surpreender quem possa partir para vós com “pre-conceitos” sobre o que era o passado musical de cada um até aqui. Como encontram este denominador comum e como o descrevem?

Tens razão! O primeiro disco de Mancines é um trabalho que poderá facilmente ser entendido como uma ponte entre os Belle Chase Hotel e este projeto que lhes sucede. E é natural que assim seja, uma vez que grande parte das músicas do primeiro disco de Mancines foram compostas ainda durante o tempo de vida dos BCH, e algumas até com a intenção de serem por eles gravadas, não fosse a morte súbita da banda ter condenado esses temas à gaveta durante alguns anos. De qualquer forma creio que, se essas mesmas canções fossem gravadas hoje, estariam tão distantes do universo de Belle Chase Hotel quanto as deste novo disco.

Há uma leveza pop na composição, mas um cuidado de busca cinematográfica nas formas finais. Faz sentido falar nesta ideia de uma música com fulgor de cinema lá dentro (pela elegância, pelo cuidado nas formas, pela criação de ambientes)?

Sem dúvida! O universo cinematográfico é algo que sempre me marcou enquanto criador desde muito cedo, e creio que irá estar sempre presente no meu trabalho duma forma mais óbvia ou subtil. O que tentei fazer com as músicas no Mancines II foi apenas dar uma camuflagem mais pop, menos negra e dramática a esse universo cinematográfico. A prenda é a mesma; só mudei o embrulho!

O vosso nome vem de uma homenagem a Henry Mancini? O que vos atrai nele?

A escolha do nome Mancines tem obviamente uma relação direta com Henry Mancini, não por ser necessariamente o compositor de bandas sonoras que mais admiramos (embora goste imenso de algumas delas), mas porque queríamos um nome que fosse imediatamente associado ao cinema, através da música, e que ao mesmo tempo nos permitisse usá-lo como um vinculo familiar, que criasse um elo entre nós enquanto banda. (Ex:Ramones,etc). Nesse sentido, Mancines soou-nos muito melhor que Morricones.

Fossem estas canções para um filme, que filme seria? Ou, caso não exista, quem seria o realizador?

Olha, adorava poder dizer-te que seriam músicas para um filme do Roberto Benigni, mas na verdade seria um crime do meu ego. O Benigni está muito bem servido musicalmente, e não precisa destas canções para absolutamente nada

O cinema tem uma relação com a música semelhante ou muito diferente da que as estruturas da pop (telediscos, fotografias e atuações) podem dar às canções?

É uma questão interessante que levantas. Em primeiro lugar, existe logo um distanciamento na função primordial da música, nestes suportes. Num filme, a música é normalmente feita para servir a história e a narrativa. Num videoclipe é exatamente o oposto; a narrativa visual aparece como um complemento ou extensão da canção. No entanto, em cinema, a obediência que a música tem que ter para com a história é muito subjetiva. O peso que a música tem num filme, varia muito de realizador para realizador, de compositor para compositor, etc. A relação que um filme do Tarantino ou dos irmãos Coen tem com a música, é completamente diferente da relação que um filme, por exemplo, do Ricky Gervais tem com ela! Melhor ainda, quando nos anos 60 e 70 o Morricone fazia a banda sonora para um filme de Sérgio Leone ou de outro, já se sabia que esta iria ocupar um lugar muito diferente e um espaço muito maior no enredo, do que se fosse qualquer outro compositor a fazê-la (o mesmo é válido para Fellini vs Rota).

Cantam aqui uma canção de Nino Rota. Como chegaram a ela?

Sempre fui um fã incondicional do trabalho de Nino Rota, e do universo muito particular dele, sempre dividido entre o popular e o erudito e bizarro. Para ser bastante concreto, a primeira vez que ouvi esta música na sua versão cantada, e que me tocou ao ponto de considerar fazer uma versão dela, foi numa pequena caixa/compilação de homenagem a Fellini e Rota, interpretada pela Katyna Ranieri. Uns anos mais tarde o Caetano Veloso editou um disco ao vivo de homenagem também a Fellini e fez uma versão arrepiante que quase me demoveu do meu objetivo de gravá-la, por ser irrepreensível na sua forma!

A outra versão do disco fecha o alinhamento como bónus. Trata-de do Fado dos Heróis do Mar. O que vos atrai na canção e porque e como a decidiram abordar?

Para ser totalmente honesto, quando começámos a gravar o disco, o nosso manager na altura fez alguma pressão connosco no sentido de experimentarmos cantar em português, e uma das formas mais óbvias e cobardes que tínhamos para nos lançarmos timidamente a esse desafio era exatamente gravando uma versão de um tema cantado em português já existente. Embora nunca tenha sido um grande fã de Heróis do Mar, sempre gostei imenso dessa canção, sobretudo pela melodia lindíssima que conduz ao refrão da música. Acho mesmo que foi o mais próximo que a pop portuguesa esteve do fado nos anos 80, sem nele tocar.

Há dois convidados como letristas, o JP Simões e o Samuel Úria. O que trazem as parcerias ao trabalho de uma banda?

A ideia de pedir ao Samuel Úria para escrever a letra para a música “O Poço”, foi exatamente para atingir o mesmo objetivo de cantar em português, pela segunda via mais sensata, além da que já referi em relação à versão de Heróis do Mar. Nem o Toni Fortuna nem a Raquel Ralha estavam na altura confiantes na caneta para escrever uma letra em português, porque não estavam habituados a fazê-lo, e quando pensámos em nomes que poderiam fazê-lo bem, o Samuel foi das primeiras hipóteses que levámos a sério. Felizmente, o Samuel gostou do tema e foi suficientemente gracioso para aceitar a proposta. No caso do JP Simões, a história é um pouco diferente e mais antiga. A música “Spirit Of The Blues” foi uma canção cuja autoria partilhei com o JP, desde muito cedo na vida dos Belle Chase Hotel, mas que nunca chegou a ser gravada, nem para o “Fossanova” nem para o “La Toilette des Étoiles”. A canção foi composta antes da edição de “Fossanova” e talvez estivesse mesmo destinada a este percurso. Por alguma razão, achei que estava na altura certa para trazê-la até à luz da ribalta, e que fazia sentido no alinhamento deste disco.

A dada altura a imprensa musical falou muito de uma “cena de Coimbra”. Sem querer discutir se existiu de facto ou não, o que pensam desses focos de atenção geograficamente apontados a um lugar? Ajudam ou baralha, quem faz música?

Nunca dei particular atenção a essas afirmações sensacionalistas e “pseudo-mitológicas”. Se me perguntares se Coimbra sempre teve muita gente criativa ligada à música, a resposta é obviamente que sim. Há sobretudo uma geração que deu e continua a dar bastantes provas disso, mas falar numa cena de Coimbra faz tanto sentido quanto falar no movimento da Boiça.

Editaram o álbum ainda em tempo de confinamento. Porque não o adiaram?

Pois; seria de esperar que o fizéssemos, mas por vezes essas coisas ultrapassam os próprios artistas, que foi o caso. Mas na verdade, mesmo após e findo o confinamento, não creio que as coisas voltem tão cedo à normalidade, sobretudo para os músicos. Neste momento é uma incógnita se voltaremos sequer a pisar um palco ainda este ano.

E o que pensam poder fazer a bem destas canções nos próximos tempos?

Estamos todos a tentar fazer o máximo com muito pouco. No caso de Mancines vamos tentar aproveitar para trabalhar a nossa presença nas redes sociais, que é uma área que tem sido bastante negligenciada pela banda até ao momento. Vamos tentar fazer alguns videoclips, inclusive de animação, para algumas das músicas deste disco e ir lançando na net. De resto, acho que vamos ter que ir improvisando à medida que vamos avançando.

O que vos preocupa mais, como artistas, no quadro que temos pela frente?

Para uma classe como nós, que vive sobretudo dos palcos, a preocupação maior é exatamente como continuar a viver da música privados da principal fonte de rendimentos. E torna-se uma preocupação acrescida quando nos apercebemos que os palcos não estão para breve.

A terminar, o que fizeram durante as semanas de confinamento? Ouviram discos? Viram filmes?

Eu fiz o mesmo que faço grande parte das vezes em casa; vi filmes, documentários, filmes, documentários, filmes, … (Embora tenha que admitir que quebrei o confinamento todos os dias, mas apenas por uma hora, para alimentar uma trupe enorme de gatos de rua, coisa que faço diariamente em condições normais.)

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