Se ainda havia dúvidas da justiça do Nobel dado a Dylan, então está aqui um disco para resolver o problema

Depois de três promissores cartões de visita, eis que chega com “Rough and Rowdy Ways” a confirmação de que há mais uma obra-prima a juntar à discografia de Bob Dylan. Dez novas canções musical e liricamente arrebatadoras. Como raras vezes um só disco consegue captar. Texto: Nuno Galopim

Apesar da multidão de acontecimentos que deram que falar nos dias de confinamento mais “apertado”, com a saúde pública a chamar naturalmente as atenções, houve um episódio exterior a esse universo que não passou despercebido. Tinha por título Murder Most Fowl e, numa canção de 17 minutos diferente de tudo o que nos tinha mostrado atá aqui, Bob Dylan usava a evocação do assassinato de John F. Kennedy para nos falar, acima de tudo, da América (e do mundo) do presente. Mais do que uma canção, era quase como uma encenação de um texto. Como uma peça de teatro… Entre o falado e o cantado, com a música presente, mas ciente de que fazia ali a cenografia necessária para que as palavras pudessem ressoar… Era a primeira nova canção original que Dylan nos dava a escutar desde que, em 2016, fora (justamente) agraciado com o Prémio Nobel da Literatura. Era também a primeira canção de sua autoria que nos dava a ouvir desde que em 2012 editara o álbum Tempest já que, desde então, a sua discografia juntou três (magníficos) álbuns com versões de canções do songbook americano e seis novos volumes da Bootleg Series. Murder Most Fowl anunciava um novo álbum. E poucos discos ao longo dos tempos terão conhecido um aperitivo tão nutritivo e promissor quanto este.

         Seguiu-se a revelação de I Contain Multitudes, uma balada na qual Dylan cruza referências a nomes como Anne Frank, os Rolling Stones ou… Indiana Jones. A soma dos universos do mundo real e da ficção juntam-se assim para criar uma visão comum do todo que é objeto da observação (afinal um recurso habitual na escrita de Dylan). False Prophet, o terceiro avanço do álbum, revelava depois uma incursão mais “clássica” pelos blues, sendo a música baseada numa gravação de 1954 de Billy ‘The Kid’ Edwards (editada então pela mítica Sun Records). E com três canções, todas diferentes entre si, mas brilhantes exemplos de composição e escrita, partimos para o álbum que, agora, confirma não apenas estarmos perante um disco maior na obra de Dylan mas também um daqueles raros momentos que, mais do que apenas uma coleção de canções, traduzem o seu tempo e o seu lugar com as características de um grande acontecimento cultural. A história faz-se da soma de retratos como este. E Rough and Rowdy Ways não só é um importante retrato para desenhar a história de Dylan mas também a do nosso tempo.

         Key West (Philosopher’s Pirate), que abre com um acordeão – que evoca os dias e climas das Basement Tapes – é como uma road song que segue ao logo da Road 1 (que liga o Maine à Flórida) e deixa um agradecimento a Allen Ginsberg, Gregory Corso e Jack Kerouac. Tal como Dylan eles fixaram pelas palavras as imagens e ideias do seu tempo. São figuras que se juntam aqui às acima evocadas a propósito de I Contain Multitudes, cujo título provém de um verso de um poema de Walt Whitman. E que engrossam a multidão de referências que vincam diversidade a referir tanto Beethoven como Jimmy Reed ou, m Mother of Muses, lembram militares que ajudaram a garantir a vitória aliada sobre as forças do eixo e que, por isso, abriram, como diz Dylan, caminho a um mundo que pode escutar Elvis e, depois, Martin Luther King. Estas referências e ligações, organizadas num conjunto de dez canções de escrita e composição irrepreensíveis, arrumam um olhar de Dylan sobre o mundo em que vivemos no momento em que estamos. É uma escrita diferente da que sugeria leituras mais nítidas (e até mesmo pragmáticas) como as que cantava quando nos dizia que os tempos estavam a mudar e a resposta era soprada pelo vento… Mas nem por isso menos pessoal e política.

         Ao contrário do que Murder Most Fowl poderia sugerir, o alinhamento de Rough and Rowdy Ways revela musicalmente um Dylan firme na identidade de uma obra construída da assimilação de alicerces de uma América profunda e antiga (não é por acaso que a canção que serviu de primeiro avanço do álbum esteja agora colocada no disco 2 da edição em CD e que, na edição em vinil, vá ocupar a face 4 do duplo álbum). Este não é um disco de rutura ou reinvenção, mas antes a sólida afirmação de uma identidade que há muito está definida. Murder Most Fowl é, musicalmente, uma peça única. Mas é a escrita que a junta às demais que fazem de Rough and Rowdy Ways um disco que traduz o que apenas uma carreira com o peso de uma vida pode (e sabe) contar. Este é o Dylan de hoje. Com quase 60 anos de discos e palavras. E com a capacidade para juntar a toda uma obra uma peça nova (e maior) que, sem querer ser uma síntese ou um epílogo, carrega aquele raro peso profundo de um modo de observar, relatar e comentar que só os anos e o domínio da escrita sabem alimentar.

“Rough and Rowdy Ways”, de Bob Dylan, está disponível em 2CD ou nas plataformas digitais numa edição da Sony Music. O lançamento em 2LP está previsto para 17 de julho.

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