Owen Pallett regressa e dá-nos um disco que é como um filme feito com (belíssimas) canções

Com a densidade narrativa e a correspondente criação de caminhos e ambientes, o novo álbum “Island” convida-nos a encerrar os olhos e mergulhar entre palavras, instrumentos e sensações, naquele que pode ser (só o tempo o poderá confirmar) o melhor álbum de Owen Pallett. Texto: Nuno Galopim

No meio de um panorama onde tanta música surge de todos os ângulos possíveis, com uma esmagadora maioria de autores de canções a fazer pouco mais que reutilizar modelos, acolher (e eventualmente assimilar) heranças ou mesmo decalcar fórmulas, são raros os casos em que uma voz se destaca pela firme expressão de uma identidade diferente. Sem querer fazer contas a quantos entre os “diferentes” fazem discos no nosso tempo, a verdade é que em Owen Pallett podemos encontrar um deles. Descobrimo-lo há 15 anos, quando gravava discos sob a designação Final Fantasy e colaborava regularmente com os Arcade Fire ou Hidden Cameras, todos eles seus compatriotas (canadianos). A edição dos álbuns Has A Good Home (2005) e, sobretudo o magnífico He Poos Clouds (disco de 2006 que imaginava a ideia do clássico “ciclo de canções” dos dias de Schubert ou Schumann para um tempo moderno) colocaram-no no mapa dos cantautores do novo século, ficando desde cedo bem claro que a sua “voz” procurava um caminho particular que tinha então na sua relação com o violino (como instrumento principal) e na criação de loops as suas ferramentas primordiais.

Em 2010 passou a gravar com o seu nome, numa altura em que os seus serviços como arranjador de cordas começaram a ser solicitados por tantos como, entre outros, os Pet Shop Boys, Duran Duran, Last Shadow Puppets ou The National. Depois ouvimo-lo no cinema quando, ao lado de Win Butler, assinou a banda sonora de Her, de Spike Jonze (que lhe valeu inclusivamente uma nomeação para o Oscar de Melhor Banda Sonora). E a última vez que o tínhamos encontrado a assinar um disco seu aconteceu em 2015 com In Conflict, onde nos apresenta uma belíssima coleção de canções nas quais, ao juntar uma mais expressiva carga instrumental (electrónicas, baixo e bateria) encontrava um patamar quase pop. A sua forma de compor (que deve muito a um modo de entender uma construção de elementos por camadas de acontecimentos) e uma relação segura com a voz conhecim ali um espaço de maior luminosidade e fulgor rítmico, propondo uma visão pop muito particular que em nada segue tendências, denominadores comuns ou lógicas que não as que o músico decide executar (e que não deixa de lado um saber cenográfico que, dos espaços ambient à sugestão de música orquestral, refletem a solidez do labor do arranjador que, desta vez, trabalhou para si). Era um monumento pela reinvenção da canção…

Esperámos por uma eventual continuação… Mas durante cinco anos houve silêncio. Até que em finais de maio, sem qualquer aparato de comunicação, sem a evidência de um plano de marketing (nem o recurso às ferramentas habitualmente usadas em tempo de colocar em cena um novo disco), eis que discretamente lançou Island (ao mesmo tempo que surgia a sua banda sonora para Battleship Earth). O disco surgiu apenas em suporte digital (não há ainda sinais de planos para edições em CD ou vinil) e não fosse o passar de palavras entre alguns mais atentos, a coisa teria quase continuado o regime de silêncio que por ali alastrava desde 2015… Eficaz ou não (a ver vamos), a opção por este modelo de lançamento pode arriscar deixar num plano discreto aquele que não só parece ser um dos melhores discos de Owen Pallerr (aqui será preciso tempo para um eventual confronto com o já “clássico” He Poos Clouds) como revela claramente um dos melhores momentos que a música nos deu a escutar em 2020.

Tal como em He Poos Clouds o novo disco sugere um ciclo de canções, porém desta vez com uma estrutura formal e até mesmo dramática mais evidente. Cada parte é definida por uma abertura instrumental, só depois surgindo as respetivas canções. E se em In Conflict era em clima pop que tudo acontecia, aqui há um cuidado a coordenar as linhas desenhadas, que ora se manifesta num registo de frágil (e assombrosa) simplicidade ao jeito folksy de um Nick Drake em Transformer, Polar Vortex ou In Darkness ora desenha uma intensidade sinfonista (e aqui poderemos falar ao jeito da tradição de um Scott Walker) em Paragon of Order ou Sound of The Engines. Diferenças na forma que a solidez da composição e o efeito unificador da voz congregam num corpo comum que, assim, sugere um caminho narrativo que acompanha todo o disco (que retoma a figura de Lewis, que se tem cruzado com vários momentos da obra de Owen Pallett). E sim, é daqueles para ouvir de fio a pavio e não às fatias. Apesar dos elementos em cena, e até mesmo da riqueza tímbrica (e do potencial de volume) da orquestra, os arranjos e a mistura nunca afogam nem a voz nem ofuscam os ambientes. Há um cuidado – da escrita à abordagem técnica – que faz de Island um monumento tão intenso quanto nítido. E, como num bom filme (e há muito de linguagem cinematográfica tanto nos fluxos narrativos como nos arranjos para orquestra) tanto encontramos aqui detalhes que só achamos em segundas, terceiras ou quartas audições, como um saber na apresentação de níveis de protagonismo entre voz, palavras, instrumentos e cenografia. Um ciclo de canções para o nosso tempo, Island é um dos grandes discos de 2020. Queria a sorte que a estratégia discreta usada para o seu lançamento não faça desta ilha um terreno distante. Porque merece uma visita (e estadia) de todos os que queiram achar num disco do que apenas uma repetição dos modelos ditados pelas tendências do gosto do momento e suas periferias.

“Island”, de Owen Pallett, está disponível nas plataformas digitais numa edição da Domino

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