Há boa música pop a circular por aí… E este é um belo exemplo

O terceiro álbum dos Fassine é um daqueles discos pop com travo mais próximo dos gostos indie do que das modas do momento… Não é um monumento, mas é bem saboroso. E tem uma versão brilhante de um tema de Paolo Conte… e em italiano! Texto: Nuno Galopim

Com uma ideia equívoca algo disseminada de que a pop é atualmente um espaço esteticamente confinado (quando na verdade continua a ser o mundo maior da canção popular), há que não deixar que essas três letras se transformem num palavrão. Se é verdade que em discos recentes de Beyoncé, Madonna ou Sevdaliza há bons exemplos do que hoje é entendido por música pop, a verdade é que há muito mais ideias e propostas em circulação do que as que chegam aos patamares da comunicação mainstream. E para que o mundo pop de 2020 não seja apenas um espelho das duas, três ou quatro Lipas (ou quantas mais Lipas quiserem) há que referir outros nomes e discos, mesmo que não sejam monumentos maiores da criatividade humana ou peças capazes de mudar o curso da história ou até mesmo álbuns capazes de vir a dar que falar…

         Escutemos por isso os Fassine… Na verdade ao encarar o disco dei por mim a lembrar exemplos recentes como os Lemonade ou Teleman… Bandas pop com costela (ou aroma) indie que nos deram belos discos pop que acabaram ostensivamente arrumados pelo esquecimento… Não será a primeira nem a última vez que acontece… Nenhuns destes discos serão diga-se, a bem da verdade, capazes de gerar um entusiasmo de arqueologia de digger daqui a uns anos, tal como aconteceu este ano com os canadianos Ceramic Hello, que acabaram até por ver reeditado um disco “esquecido” que faz parte da geração pioneira da pop eletrónica do lado de lá do Atlântico (falaremos deles brevemente, fica prometido). Tanto Breakfast (2014) dos Teleman ou Diver (2912) dos Lemonade são belos exemplos de bons discos pop “perdidos” entre a maré de edições que fez a história da música da última década. É pena… E na verdade não creio que diferente venha a ser o destino do terceiro álbum do trio londrino Fassine… Na verdade tudo às vezes pode mudar com uma canção numa campanha publicitária, num genérico de uma série… E o espaço pop de travo mais indie tem sido fértil em casos do género… Mas em vez de ficarmos à espera que um produto contrate uma agência e um criativo possa sugerir uma canção do alinhamento do novo Forge, falemos já dele. Porque pode haver quem o queira escutar mesmo sem a repetição ad nauseam de algumas campanhas (aquelas que depois fazem êxitos na música).

         Forge é já o terceiro álbum dos Fassine e tem tudo para seguir as rotas dos anteriores (ou seja, cativar um nicho e passar a leste das massas). O álbum apresenta contudo melhores argumentos do que nunca para cativar atenções. As canções são fruto de uma escola “clássica” embora atenta ao presente e de uma assimilação de boas referências pop e indie. A voz deixou o tom sussurrante (de tradição francesa) mais presente nos discos anteriores e as canções mostram uma maior amplitude de acontecimentos e cenografias, caminhando desde as texturas ambientais de Migrane ou da trama ambiental de Everyone Is Guilty To Me até à power pop de Bloom. É, contudo, a meio desse espectro que encontramos os momentos mais cativantes de um disco que recupera o prazer da canção pop num quadro narrativo que quer contar histórias (neste caso celebrando heróis muitas vezes esquecidos, como é o caso de Helisto, que nos fala de mulheres que representaram um importante corpo de trabalho nos tempos. Nota final para uma magnífica versão de Max, de Paolo Conte, numa abordagem com ecos da noção de espaço de uns Art of Noise, cantada em italiano e tudo, e contando para a o efeito com a colaboração de Fabrizio Pagni.

“Forge” dos Fassine, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Trapped Animal

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