O cinema como porta para descobrir a música de Jacaszek

Já com vários álbuns editados e com um ainda mais vasto corpo de trabalho criado para o teatro e o cinema, o compositor polaco Michal jacaszek acaba de editar “Music For Film”, álbum no qual reune várias peças que assinou para bandas sonoras. Texto: Nuno Galopim

Há vários artistas com quem nos cruzamos várias vezes sem compromisso maior até aquele momento de “click” que nos faz pensar: é desta vez que compro um disco seu. Assim foi com o compositor polaco Michal jacaszek. Já o tinha escutado ora em discos seus ora em colaborações… Mas foi perante a coleção de peças reunidas em Music For Film que os meros episódios de encontros casuais deram lugar a uma das mais vincadas presenças no meu gira-discos…

                  Jacaszek trabalha essencialmente em terreno eletroacústico e gosta de explorar encontros entre eletrónicas e sons captados no “mundo real”. E é nesses diálogos entre instrumentos acústicos e digitais que emergem composições que, para além dos discos, têm sobretudo surgido em várias colaborações com os universos do teatro e do cinema. E é precisamente daqui que surgem os fragmentos de experiências que distam no tempo entre si, envolvem algumas soluções técnicas distintas, mas definem um clima comum. Acabam assim por sugerir um sentido de unidade que não é senão uma evidência de marcas autorais que passam pela sua música.

                  É talvez fácil e redutor descrever a música aqui reunida como… cinematográfica. Porém essa descrição começa por sugerir não apenas o sentido cenográfico (que sugere espaço e uma tensão que se adivinha com peso narrativo) mas também uma música que nasce com a consciência que não nos pode arrebatar toda a atenção, sob pena de nos roubar ao filme… E é por isso que Music For Film pede novas audições. E o que parecia discreto e mero cenário num primeiro encontro acaba por revelar teias de acontecimentos que afinal habitavam aqueles sons… Novas audições abrem horizontes dentro dos espaços, convidam a uma imersão… E a experiência acaba por me levar a tecer alguma familiaridade com os jogos entre coordenadas de tempo e espaço que Murcof registou nas suas Versailles Sessions… Porém, ao contrário desse disco de 2008, aqui sem ecos da França de Lully… O tempo, na verdade, pode ser aqui uma variável livre. Já o espaço parece sobretudo noturno ou sombrio… Mas sempre humano e reconfortante.

                  Tal como aconteceu em 1991 com Music For Films, uma compilação de peças criadas para cinema da grega Eleni Karaindrou (editada pela ECM), este álbum de Jacaszek servirá agora de ponto de partida para querer não apenas continuar a segui-lo, mas também escutar o que ficou para trás sem a atenção devida (da minha parte). E é sempre tão bom quando encontramos um disco que nos cativa e convida a conhecer melhor a obra de quem o fez.

“Music For Film”, de Jacaszek, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Ghostly International.

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