Uma caixa de (boas) recordações dos tempos em que Amália visitava os palcos de Paris

Do Olympia de 1956 (que gerou um álbum ao vivo) a uma série de gravações inéditas em disco, a caixa “Amália em Paris” acompanha momentos vividos em palco (e em estúdios de rádio) na capital francesa até 1975. É a primeira edição em disco do centenário. Texto: Nuno Galopim

Foram várias as ocasiões em que Amália Rodrigues fez questão de sublinhar o modo como fora Paris quem lhe tinha dado o definitivo passaporte para uma carreira internacional de grande visibilidade. Assim foi, e o momento em que se fez o “clique” teve lugar em 1956, no palco do Olympia. Um ano antes tinha chegado às salas de cinema o filme Les Amants du Tage, de ???, no qual Amália tinha uma participação, cantando a dada altura Barco Negro, canção que gerara um caso evidente entusiasmo além-fronteiras… O Barco Negro lá estava, entre outras mais canções, no alinhamento de um espetáculo que colocava Amália num espaço já com algum destaque. Convém sublinhar que os grandes fluxos de emigração portuguesa para França ocorreriam depois, pelo que aquela mítica sala parisiense estava, naquela noite, com gente… da casa. Franceses. O timbre, a presença, a força da voz e o som da guitarra portuguesa habitaram as palavras de entusiasmo com que, depois, os jornais davam conta de uma descoberta… A da rainha do fado, como lhe chamaram. Na verdade Amália cantava em Paris desde a sua estreia em 1949. E logo nessa ocasião tanto passou pela Casa de Portugal como pelo seleto Chez Carrère (esta vontade em somar públicos foi, de resto, um facto reafirmado em muitas das viagens de regresso à cidade, com passagens pelos palcos que manteve até 1990, quando participou numa gala de mobilização de artistas pela luta contra a sida). Estas e outras memórias parisienses são agora o tutano de uma verdadeira caixa de memórias. Tem por título Amália em Paris e junta, em 5 CD e um booklet, aquele que representa o primeiro lote de incursões pelos arquivos de Amália no ano em que se assinala o seu centenário.      

            Não é surpresa notar que grande parte das comemorações do centenário de Amália estão afastadas para datas a confirmar em 2021. Mesmo assim o “ano Amália” acolheu já, no plano editorial, os livros de Miguel Carvalho e Carminho e esta primeira proposta da Valentim de Carvalho (que esta ano vai ainda lançar um disco com gravações inéditas de ensaios de Amália com Alain Oulman).

            Editada a 23 de julho (a assinalar assim a data “oficial” do centenário), Amália em Paris nasce de uma recolha de gravações de várias atuações de Amália em Paris. A mais antiga corresponde precisamente à passagem pelo Olympia em 1956, da qual foi de resto recolhido material para a edição do álbum ao vivo Amália No Olympia. Entre novas passagens pelo mesmo palco que tinham sido gravadas (em 1967 e 1975) e uma série de outras atuações captadas e transmitidas pela rádio, algumas delas em estúdio (em 1957 e 1964) e nos palcos do Alhambra (1962), A.B.C. (1962), a Maison de La Chimie (em 1964, numa festa para emigrantes portugueses) e Bobino (1965), notamos o modo como conquistou a confiança e admiração de uma cidade, sentidno-se progressivamente a presença de portugueses entre as plateias (ora reagindo ora Amália com eles interagindo). A consciência de que o fado não podia ser o habitante único destes momentos de palco perante plateias diferentes fica bem evidente, surgindo progressivamente mais canções em língua espanhola e francesa (entre as quais a que Aznavour lhe confiou e a de Adamo que tão bem transformou), assim como uma presença cada vez mais intensa do folclore, que assim garantia aos espetáculos fluxos de diferentes patamares de intensidade, alternando melancolia e festa. Nota importante para o rigor do tratamento do som, tendo a edição (coordenada por Frederico Santiago) procurado recuar, sempre que possível, às fitas originais.

            O booklet que acompanha esta impressionante coleção de memórias captadas na capital francesa acrescenta uma detalhada cronologia das suas viagens a Paris, assim como uma narrativa (suportada por vários recortes de imprensa da época) que contextualiza estas gravações, enquadrando-as na história da visivbilidade internacional da obra de Amália e das suas vivências parisienses em particular. E aqui se lembra que, não só Paris foi porta aberta às atenções do mundo, como representou também (e uma vez mais no mítico Olympia) o local do primeiro encontro de Amália com o músico que a ajudaria a mudar o curso da sua carreira e o próprio rosto do fado: Alain Oulman… E neste ponto ficamos à espera do disco dos ensaios… Já que é uma consequência natural do que aqui se recorda.

“Amália em Paris”, de Amália Rodrigues, está disponível numa caixa de 5CD e um booklet e também nas plataformas digitais, numa edição da Valentim de Carvalho.

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