Um retrato de 1980: o “ano zero” da pop eletrónica

“Musik Music Musique – 1980, The Dawn of Synth Pop” é caixa de 3CD com um total de 58 artistas que a Cherry Red acaba de editar. Um retrato do momento em que a canção pop descobriu novas possibilidades através das eletrónicas… em 1980. Texto: Nuno Galopim

Nos finais da década de 70 o mapa das possibilidades para a canção pop tinha novos horizontes pela frente. O esforço de pioneiros da música eletrónica tinha conhecido uma definitiva rota de sedução nos terrenos da música popular sobretudo através de contribuições de uma série de novos músicos e bandas alemãs entre as quais tinham surgido uma série de ideias que agora se preparavam para moldar, de forma ainda mais evidente, a canção pop… O ritmo “motorik” sobretudo cunhado pela batida de Klaus Dinger (dos Neu!), as noções de cenografia e ambiente que tinham ganho visibilidade em discos dos Tangerine Dream ou Klaus Schulze e, acima de tudo, a organização mais precisa das ferramentas eletrónicas e das suas potencialidades que os Kraftwerk progressivamente tinham desenhado entre Autobahn (1974) e o paradigma do álbum pop eletrónico The Man Machine (1978) tinham colocado em cena uma série de ideias e visões que rapidamente seduziram muitos mais músicos. E das heranças deste corpo de visionários tanto devemos apontar descendências diretas na Alemanha como os Cluster ou La Dusseldorf (de cuja música Bowie chegou a dizer que se tratava de uma antecipação do que seria o futuro da pop) ou em outros pólos entre os quais primeiros sinais de novos caminhos para a canção pop se começam a desenhar.

Um dos primeiros êxitos globais criados com um moog, o single Popcorn, na versão dos Hot Butter de 1972, tinha alcançado o número um em países como a Alemanha, França Noruega, Suíça ou Austrália. Mas não tinha subido acima do número cinco no Reino Unido (a tabela de vendas de singles então mais influente)…. Em 1979, contudo, o panorama era diferente. O facto de o acesso aos sintetizadores (e outras máquinas) se ter tornado mais fácil, com preços bem menos exigentes, levara muitos a abraçar as suas possibilidades… E se, por um lado os Buggles cantavam Video Killed The Radio Star, anunciando a chegada ao patamar da visibilidade mainstream de uma outra novidade, o teledisco, por outro a canção pop feita com eletrónicas parecia traduzir igualmente sinais de aproximação a um futuro que se imaginava diferente na década seguinte, que estava quase a bater à porta… Muitos aguardavam por isso, com expectativa, o momento da coroação do primeiro número britânico um para a pop eletrónica… E foi Gary Numan quem o conquistou, com Are Friends Electric?… As promessas começavam a cumprir-se… E a chegada dos 80s, desse futuro ali tão perto, teria na pop eletrónica uma das suas expressões… E dos esforços dos pioneiros dos anos 70 nasceu uma multiplicação de projetos, artistas, bandas e ideias na viragem da década. Uns conquistaram atenções, outros passaram mais longe… Uns venceram a passagem do tempo, outros ficaram pelo caminho. Musik Music Musique – 1980, The Dawn of Synth Pop, uma caixa de 3 CD acabada de editar pela Cherry Red, é uma coleção de retratos dessa explosão de acontecimentos.

Com um total de 58 canções, o panorama que a Cherry Red evita ser um “best of” de quem então se notabilizou. Pelo contrário, o retrato que se faz é o de uma geração de músicos e bandas a experimentar o futuro naquele a que Mat Smith, que assina o texto do booklet, chama o “ano zero” da pop eletrónica (o que pressupõe, com razão, uma visão de “pré-história” sobre os esforços pioneiros até então desenvolvidos. Se é verdade que estariam num horizonte de futuro muito próximo os momentos de glória dos Human League com o álbum Dare! ou dos OMD com Architecture & Morality, curiosamente todos eles de 1981, já esta caixa-retrato de 1980 opta por mostrar. E desses três “colossos” temos aqui, respetivamente, Only After Dark (versão de um clássico de Mick Ronson) e Messages. Também de nomes com sucesso conquistado logo em 1980, como os Spandau Ballet ou Ultravox, a opção desta coleção de memórias é a de recordar temas menos batidos, como Glow e Waiting, respetivamente. Do panorama de uma linha da frente da primeira geração da pop eletrónica britânica encontramos ainda aqui os Buggles (com Astroboy), Japan (Quiet Life), John Foxx (o ex-vocalista dos Ultravox, com No One Driving) Kim Wilde (com Turning In Turning On, o lado B de Kids in America), New Musik (This World Of Water), M (os mesmos de Pop Musik, agora com Official Secrets)  ou os Visage (com Mind of A Toy, o single que se seguiu a Fade To Grey). A “cavalgar” a onda, surgem figuras como Toyah ou Hazel O’Connor. Entre nomes de franjas mais alternativas assinalam-se as presenças de Fad Gadget, Silicon Teens ou Eyeless in Gaza. E da multidão de bandas “esquecidas” vale a pena destacar uns Berlin Blondes (de Galsgow), Landscape (a banda do produtor do álbum de estreia dos Spandau Ballet) ou Science (banda que juntava dois antigos companheiros de Midge Ure nos Slik), entre muitos mais… Phil Lynott (sim, dos Thin Lizzy) está representado com o instrumental Yellow Pearl, que foi depois o tema do genérico do programa da BBC Top Of The Pops na primeira metade da década de 80.

Apesar de uma evidente presença maior de bandas e artistas britânicos, a caixa Musik Music Musique abarca outras frentes de ação, nomeadamente a alemã, de quem fora evidente o esforço de pioneirismo pré-80. E aqui tanto encontramos o projeto Zeus (do produtor Zeus B Held, precisamente com o single que dá título a esta caixa), os La Dusseldorf, Der Plan, D.A.F., Xynn ou Gina X Performance. De França chega, por exemplo, uma contribuição em terreno space rock com os Rockets em Galactica, juntando-se ao alinhamento ainda nomes como os de Nini Raviolette ou Henriette Coulouvrat. Ainda de solo continental europeu temos os belgas SIC e os suíços Yello.

E por esta altura já ficou claro o porquê do título da caixa com a mesma palavra em inglês, francês e alemão…

Do outro lado do Atlântico chega uma referência aos Suicide (nome a juntar ao panorama dos pioneiros ainda nos anos 70), The Residents, e nomes menos vezes recordados como Moebius, Dark Day ou Our Daughter’s Wedding.

Entre os “tesouros” esquecidos há aqui momentos de início de carreira de figuras que depois chamaram atenções noutras experiências futuras. Thomas Dolby, por exemplo, era o teclista dos The Fallout Club, de quem se recorda Failing Years. Mirwais Ahmadzaï, futuro colaborador de Madonna, surge aqui através dos Taxi Girl, banda de referência da pop eletrónica francesa. Lori & The Chameleons, por suz vez, é a memória de um projeto pontual onde então militou Bill Drummond (futuro KLF).

É claro que faltam aqui algumas peças do grande mapa de então. Dos Soft Cell ou Gary Numan (Reino Unido) aos Telex (Bélgica) ou Yellow Magic Orchestra (Japão) há ausências de primeiro plano que se notam logo ao consultar o alinhamento… E não faria mal nenhum ver aqui o Robot da Salada de Frutas, afinal, também uma das primeiras manifestações de pop eletrónica, e com bilhete de identidade a vincar a data de nascimento em… 1980. Mas não há listas definitivas nem compilações temáticas completas. E o certo é, dentro de uma linha conceptual sóbria, bem informada e consequente, Musik Music Musique junta um novo episódio aos panoramas que a Cherry Red tem vindo a apresentar em compilações como Close To The Noise Floor – Formative UK Electronica 1975-1984 (2016), Noise Reduction System – Formative European Electronica 1974-1984 (2017) ou Third Noise Principle – Formative North American Electronica 1975-1984 (2019). Boas histórias as que por aqui se vão contando (e escutando).

Musik Music Musique – 1980, The Dawn of Synth Pop”, compilação com 58 artistas, está disponível numa edição de 3CD pela Cherry Red.

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