Um disco para refletir o modo como o presente assimila o futuro imaginado no passado

Projeto individual da berlinense JJ Weihl, Discovery Zone é nome que entra em cena com um álbum que estabelece pontes entre os tempos e acaba por traduzir ecos (atuais) de memórias de momentos diferentes na história da canção pop eletrónica. Texto: Nuno Galopim

Quarenta anos depois do “ano zero” da canção pop eletrónica (referência a propósito da caixa temática sobre a “colheita de 1980” de que aqui se falou ontem), os ecos dos visionários de então continuam a ser uma fonte de inspiração. E das descendências dos pioneiros da música eletrónica que gerou esse momento de mudança na história da canção pop tanto encontramos os caminhos que nos conduzem às canções muito pessoais de uma Mabe Fratti às que se mostram agora um patamar de visibilidade maior de uma Dua Lipa, havendo todo um vasto leque de possibilidades num horizonte de facto vasto e nada fechado. Com berço em Berlim (a “casa” dos Tangerine Dream na aurora dos anos 70 e, atualmente, uma das mais ativas capitais da música eletrónica) chega um nome: Discovery Zone… E o nome entra em cena com um álbum de estreia que tem tudo para agradar aos que encontram na geração da pop eletrónica de 1980 uma fonte de referências.

O nome Discovery Zone na verdade não é senão um novo projeto a solo de JJ Weihl (Fenster). E procura refletir sobre como o tempo muda as nossas visões sobre o futuro, lembrando por um lado como outrora o projetávamos adiante e, depois, como algumas das ideias abaram transformadas em acontecimentos e objetos mundanos.

O álbum, é construído como um arco narrativo, chegando mesmo a promover a meio do percurso um momento “teatral” de conversa entre um robot e quem o criou. As canções sucedem-se evocando heranças naturais da canção pop eletrónica, do flirt pop com (leve) tempero funk de Dance II aos espaços dreamy com afinidades com a música de uns St Etienne em Fall Apart, com celebração maior em clima electro em Blissfull Morning Interpretation Melody. Remote Control tem o cuidado de não repetir modelos de canção, oferecendo uma montra de ideias como que a construir episódios distintos dentro de uma mesma narrativa. Os “filmes” (ver abaixo), que vincam a relação de JJ Weihl com o cinema, ajudam a dar um corpo material às visões e reflexões lançadas.

Não será um álbum para revolucionar a canção pop eletrónica (como o foram discos de nomes como os The Knife, Arca ou Björk). Mas entre ecos das memórias citadas e o presente que as tornou diálogo corrente, o tom familiar habita revelações que, mesmo assim, não deixam de transportar o sabor da surpresa quando as escutamos pela primeira vez. Um belo disco tranquilo (para contrastar com o mood de 2020).

PS. A capa da edição em vinil inclui um holograma com uma “chave” que acentua a sugestão narrativa desta viagem de (re)descoberta à nossa relação com o futuro.

“Remote Control”, de Discovery Zone, está disponível em LP e nas plataformas digitais numa edição da Mansions and Millions / Cargo.

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