E quando ninguém esperava, os Erasure editam o seu melhor álbum em… 29 anos

Trinta e cinco anos depois de terem editado o seu primeiro single os Erasure editam “Neon”, um álbum que claramente pisca o olho às memórias dos seus melhores dias vividos nos anos 80 e inícios dos 90. Texto: Nuno Galopim

A passagem do tempo tem-nos vindo a habituar a realidades que só os anos podem mudar… A cultura pop, que cresceu com o apelo da força e cor da juventude foi somando à sua história a entrada em cena de novas gerações que mantiveram essa relação bem vida… Ao mesmo tempo a passagem do tempo fez dos heróis pop de outrora músicos veteranos.

Assinalam-se em 2020 os 35 anos sobre o momento em que chegou aos escaparates Who Needs Love Like That, single que estreava então o que se falava como sendo um “novo” projeto de Vince Clarke. Um dos fundadores dos Depeche Mode e principal compositor na sua etapa inicial de vida (fixada nas espiras do álbum de 1981 Speak & Spell), o teclista, que cedo criou uma identidade através não apenas dos sons dos sintetizadores que tocava mas também pelo modo como desenhava canções pop invariavelmente capazes de se nos colar aos ouvidos, optou por seguir outro rumo precisamente quando Just Can’t Get Enough cativava atenções… Encontrou nova parceria na voz poderosa e de alma “soul” de Alison Moyet e, através dos Yazoo, criou dois álbuns e uma mão-cheia de singles que ajudaram a consolidar a presença da música eletrónica no mapa pop da primeira metade dos anos 80. Tal como sucedera com os Depeche Mode, a vida de Vince Clarke a bordo dos Yazoo teve um final precoce, seguindo-se um single one-off numa breve parceria (bem sucedida) com o produtor Eric Ratcliffe e o cantor Feargal Sharkey (vocalista dos Undertones) e, depois um outro single “solitário” com a voz de Paul Quinn, este tendo passado a leste das atenções… O passo seguinte foi um casting em busca de uma nova voz. Andy Bell, que admirava Vince Clarke, preparou-se cantando em casa canções de Alison Moyet e dos Siouxsie & The Banshees. Passou com distinção o teste e, em setembro de 1985 a estreia dos Erasure, o duo que juntava ambos, entrava em cena mas não pareceu devolver a Vince Clarke o toque de Midas dos dias vividos nos Depeche Mode e Yazoo… Seguiu-se o ainda mais invisível Heavenly Action e Oh L’Amour, que cativou França e abriu uma frente de atenção para o grupo na Alemanha… O álbum de estreia, Wonderland (um dos mais injustiçados discos de pop eletrónica dos 80s) não conheceu destino diferente… Tudo mudou quando, em 1986, o single de avanço para o segundo álbum resultou num fenómeno de dimensão global. Sometimes abriu uma porta e, até 1994, o grupo somou momentos de grande visibilidade por todo o lado. The Circus, álbum de 1987, deu-lhes o reconhecimento que falhara ao álbum de estreia. Mas foi entre The Innocents (1988), Wild (1989) e Chorus (1991) que registaram o corpo mais suculento de canções da sua obra. A “fase imperial” como muitas vezes o refere a imprensa musical.

I Say I Say I Say (1994) ainda viveu, por inércia, sob os ecos do sucesso conquistado nos oitentas. Mas depois de Erasure (1995), título que parece sublinhar uma vontade de renascimento – que se traduziu numa abordagem menos açucarada e famboyant à canção pop – iniciou uma etapa que ora não reativou as paixões de outrora, ora chegou mesmo a protagonizar tropeções como o foram o disco de versões de 2003 ou a sessão acústica (inconsequente) de Union Street (2006). Houve depois episódios mais encorajadores – como em parte do alinhamento de Light at The End of The World (2007) – mas o grosso dos lançamentos no século XXI ficam muito aquém das memórias dos melhores dias que o grupo antes viveu. Em 2017 o álbum World Be Gone reacendeu atenções sobretudo pelo modo como o grupo então passava a usar a canção como ferramenta para comentar o estado do mundo, gerando assim o momento de melhor comunicação que a sua música vivia desde meados dos anos 90. Agora, e assumindo a máxima dos Monty Python “and now for something completley diferente”, eis que fazem do sucessor do seu álbum mais político uma proposta de fuga e festa… E não é só pela temática que o novo Neon devolve o grupo a caminhos lançados pelos ecos da sua “fase imperial”.

Apesar das marcas de identidade no som e na escrita, a parceria Vince Clarke / Andy Bell procurou frequentemente desafios diferentes. De resto, ao mesmo tempo que somava êxitos colossais nos tempos de Ship Of Fools, Drama, Blue Savannah ou Chorus, aproveitava o alinhamento dos álbuns para ensaiar cenografias elaboradas e menos evidentes (The Innocents é talvez o disco mais cheio de surpresas nesse sentido). O passar dos anos levou-os a experimentar outros terrenos (incluindo a armadilha acústica da qual saíram a tempo), mas o tempo foi sobretudo atenuando o viço festivo e escapista das canções do seu período de maiores glórias. Ao projetar o que deveria ser Neon decidiram fazer um álbum “como antigamente”, nada que tantos outros não tenham feito, sendo de resto o “back to the basics” uma das mais velhas máximas da cultura pop/rock. E assim foi. Canções com ganchos que se agarram, refrões que se colam e não descolam, voz projetada em tom festivo… Hey Now (I Think I Got A Feeling) e, depois, Nerves of Steel, lançaram pistas promissoras que o alinhamento veio a confirmar, mostrando ser um digno sucessor das memórias da “fase imperial” que os discos posteriores a 1994 nunca voltaram a traduzir. É claro que os tempos mudaram. É claro que os azimutes da modernidade pop estão noutras paragens. É claro que a frente da popularidade pop (pode dizer-se?… acho que sim) mora noutros quadrantes, sublinhando sem surpresa as naturais características de juventude acima referidas. Mas, e melhor até do que (por incrível que pareça) os Pet Shop Boys no seu mais recente Hotspot, os Erasure conseguem fazer de um certo mais-do-mesmo um momento de saboroso reencontro.

Não vamos de todo comparar Neon (pelas canções e pelo contexto) aos três álbuns maiores dos Erasure, nem mesmo aos dois que os precederam. Mas há em Neon mais entusiasmo e sabor do que em qualquer disco dos Erasure desde (inclusivamente) I Say I Say I Say. O disco dificilmente terá vida (e aclamação) longe do núcleo habitual de admiradores do duo e dos que cresceram a ouvir a pop dos oitentas ou nos mais novos que nela encontram um espaço de “descobertas”. Mas há muito que os Erasure não editavam um disco tão cheio de vida… E quando um álbum com este viço surge ao fim de 35 anos de carreira é coisa que vale a pena assinalar.

“Neon”, dos Erasure, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Mute Records.

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