Histórias de Nova Iorque num serão de canções de Suzanne Vega

Gravado ao vivo em março de 2019 no muito selecto bar do Hotel Carlysle, no Upper East Side, o novo disco de Suzanne Vega junta uma série de canções pelas quais passam figuras, vivências e lugares de Nova Iorque. Texto: Nuno Galopim

Entre a jovem estudante de literatura que tocava em clubes de folk do West Village em inícios dos anos 80 e a veterana que há um ano encheu a sala do mítico Café Carlysle não só passou o tempo, mas também a transformação gradual de um talento em ascensão numa autora segura e consagrada, que a dada altura (sobretudo na segunda metade dos oitentas) viveu por uns tempos sob atenções maiores de tudo e de todos… Californiana de berço, mas nova-iorquina desde muito cedo, foi entre a Big Apple que Suzanne Veja encontrou as personagens, as narrativas e os cenários para canções que a inscreveram entre o panteão das maiores “revelações” entre os cantautores surgidos nos 80s quando álbuns seus como Suzanne Vega (1985) e Solitude Standing (1987) geraram êxitos de magnitude planetária. Depois de Days Of Open Hand (1990) o seu perfil mediático pode ter trocado o ruído das luzes por uma maior tranquilidade que lhe permitiu continuar a aprofundar uma relação com a escrita e a composição, tendo desde então surgido muito mais discos que, mesmo sem o mesmo calibre de intensidade na comunicação, não deixaram de juntar peças a uma obra que continua em construção. Ao atuar no Carlysle, um espaço selecto e caro, com dress code e lugares sentados à mesa, casa com uma história de relação com músicos de jazz e vozes consagradas dos palcos do teatro, Suzanne Vega não deixa de traduzir, ao escolher lavar a disco a gravação de uma noite ali vivida, um certo destino gourmet que as suas canções foram tomando.

O programa apresentado no Carlysle em março de 2019 corria, sem uma preocupação cronológica, por vários momentos da sua obra, recolhendo canções pelas quais se cruzam histórias de Nova Iorque. A narrativa temática – muitas vezes cruzada com intervenções nas quais Suzanne Vega localiza no tempo e espaço os lugares ou histórias cantadas (por exemplo, o clássico Tom’s Diner tem como coordenadas geográficas o cruzamento da Rua 112 com a Broadway) – desenha uma galeria de retratos, um pouco como o pode fazer uma exposição. A dada altura entra em cena uma versão de Walk on The Wild Side, de Lou Reed e, com essa canção, uma história pessoal de descoberta não apenas da música e poesia de Lou Reed (talvez o maior poeta da música que retrata vivências da cidade), mas o modo como o concerto em que o viu pela primeira vez mudou a sua forma de encarar o que era a escrita de canções.

An Evening of New York Songs and Stories – conceito que deu origem a uma digressão – junta ainda ao “guião” feito de canções uma série de argumentos favoráveis que se manifestam nos arranjos para guitarra, baixo e teclas (e sem percussão) que conferem a este corpo de canções uma identidade conjunta. O trabalho de arranjos ora evoca raízes folk ora vinca climas jazzy (caros ao espaço onde se viva aquele serão) ora mostram uma construção mais elaborada capaz contudo de conviver com os recursos levados ao palco naquela noite. É pouco provável que este disco vá cativar atenções maiores fora do conjunto de seguidores que se mantém atentos a Suzanne Vega. Mas vale a pena escutar. E convenhamos que ouvir o disco sai bem mais barato do que um lugar numa mesa do Carlysle…

An Evening of New York Songs and Stories”, de Suzanne Vega, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Cooking Vinyl

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