O desencantamento de Sufjan Stevens perante a ameaça de derrocada do sonho americano

Depois de nos ter revelado “America” em julho, Sufjan Stevens acaba de lançar “The Ascencion” um disco no qual retoma as eletrónicas mas que tem sobretudo no seu âmago uma série de crónicas de descrença perante o presente e futuro da América. Texto: Nuno Galopim

Se na noite passada Sufjan Stevens se sentou em frente a um televisor para ver o primeiro debate “presidencial” entre Joe Biden e Donald Trump certamente acabou por sentir quão profundamente certeiro é o retrato de um estado de alma que fixou em America, a longa canção que encerra o alinhamento do seu novo álbum e que assinala, numa visão de grande fôlego, um olhar desiludido sobre um sonho que parece estar a desabar. Em Carrie and Lowell, o disco de 2015 que precede The Ascension no seu percurso discográfico de álbuns a solo feitos de novas canções, sentimos também ali dor e saudade. Mas as causas eram diferentes, mais pessoais (o disco era focado na perda da mãe). Lançado em julho, America abria outra frente que à melancolia juntava um tom de desencanto, uma perda de crença, a mágoa perante a progressiva desagregação de um ideal coletivo que outrora fazia o sonho americano que parece cada vez mais distante.

         Em tempos Sufjan Stevens tinha falado (e cada vez mais creio que era um engodo para jornalista escrever) de um suposto plano de criação de um álbum dedicado a cada um dos estados dos EUA… Michigan (o seu terceiro álbum, editado em 2003), sugeria um ponto de partida focado no estado onde o músico nasceu (em 1975). Dois discos (e dois anos) depois o colossal Illinois (que o colocou no centro das atenções) acrescentava outra galeria de retratos e narrativas… E foi então que surgiu essa ideia de uma “coleção”, da qual um filme (e uma banda sonora) sobre uma auto-estrada que cruza Nova Iorque (The BQE, de 2009), poderia ser um intermezzo… Mas a verdade é que depois não mais a música de Sufjan Stevens procurou esses destinos narrativos, ensaiando antes desafios estéticos (da complexidade formal de The Age of Adz à abordagem folk de Carrie & Lowell), experimentando colaborações (e daí nasceram vários discos) e conhecendo um episódio de exposição mediática maior quando subiu ao palco do Kodak Theatre, em plena noite de Óscares, para apresentar Mystery of Love, canção por si criada para o filme Chama-me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino, que estava então entre os nomeados numa cas categorias habitualmente mais “surdas” das estatuetas douradas que celebram o cinema de Hollwood (naturalmente não venceu).

         Quer isto dizer que o percurso de Sufjan Stevens passou a valorizar mais a sua face plástica do que as ideias e reflexões que podem habitar as canções? E que deixou o mundo americano num plano secundário das suas observações? Nada disso… E se nos depoimentos profundamente pessoais de Carrie and Lowell aceitou partilhar memórias e sensações, num disco como o sete polegadas Love Yourself / With My Whole Heart, editado durante o “pride month” de 2019 deixou claro, sem ser estridente, que a sua música pode ser voz das causas que defende. America, em julho deste ano, vincava mais ainda o olhar do homem sobre o mundo ao seu redor. Canção política? Sim, talvez… E perante o cenário americano que se tem desenhado à nossa frente ao longo dos últimos anos, a voz de Sufjan Stevens acrescenta agora o modo como a sua personalidade e crença se relacionam com o espaço que tem ao seu redor.

         A noção de espaço é, além do clima social e político, outro fator importante no talhar das formas que agora encontramos em The Ascension. Obrigado (por razões que têm a ver com o anterior arrendamento de um lugar) a mudar-se a si e ao seu estúdio, Sufjan Stevens empacotou tudo, fez as malas e não se limitou a sair de Brooklyn. Saiu da cidade, afastou-se (não muito, mas o suficiente)… E a música que começou a criar ganhou os contornos dos instrumentos que podia ter consigo, já que todos os demais estavam em caixas, à espera da nova casa. E daí a valorização das eletrónicas como não apenas uma decisão estética mas, ao mesmo tempo, manifestação de uma disponibilidade funcional.

         The Ascencion não é um disco de digestão tão imediata quanto o foram álbuns como Illinois ou Carrie & Lowell. De certa forma retoma lógicas de trabalho no plano da composição e arranjos explorados não apenas em The Age of Adz como também no EP e álbum lançados via Sisyphus, projeto que Sufjan Stevens partilhou com Son Lux e Serengheti. Mas depois de uma série de recentes colaborações, algumas para lá da fronteira do espaço da canção – via Planetarium (com Bryce Dessner, Nico Muhly e James MacAlistari), The Decalogue (com Timo Andres) ou Aporia (com o padrasto Lowell Barnes) – The Ascencion representa finalmente o passo adiante de Carrie & Lowell. Desafiante, mesmo desencantado, Sufjan Stevens reafirma que, apesar de lidar mal com mediatismo e exposição, é uma das vozes mais firmes e criativas da canção americana do nosso tempo. E se o sonho americano está a ruir, nele encontramos uma voz a escutar em tempo de retratar e refletir sobre o que está a acontecer. E isso é o que se escuta entre o alinhamento de The Ascension.

“The Ascension”, de Sufjan Stevens, está para já disponível nas plataformas digitais. Dia 2 de outubro surgirá uma edição em CD e 2LP, via Asthmatic Kitty Records.

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