Um novo álbum, uma pandemia e um repensar dos planos… Assim é a vida dos Norton em 2020

Os Norton tinham um disco pronto em janeiro e uma agenda de estrada pela frente… O ano trocou-lhes as voltas. Mas “Heavy Light” ganhou vida no verão… E do repensar dos planos está a nascer a vida para o disco que coloca fim a seis anos de silêncio. Entrevista de Nuno Galopim

Foto: Arlindo Camacho

Esta história começou há 17 anos em Castelo Branco. Rodolfo Matos, o Pedro Afonso, o Leonel Soares e Manuel Simões vivem hoje em cidades diferentes mas é a força das ligações que certamente vinham de antes e se fortaleceram entre canções, estúdios e palcos, como Norton, que os mantém juntos. Estiveram ausentes durante seis anos. Foi o seu silêncio (discográfico) mais longo de sempre. Silêncio que terminou este ano com a edição de um quinto álbum que nasce assim num ano diferente, entre outras contingências e desafios. Heavy Light é um disco diferente, se bem que fiel a uma identidade indie que não os abandonou. As eletrónicas, que tinham animado a sua música sobretudo nos discos de remisturas, ganham aqui corpo de maior protagonismo, agora partilhando. Trocámos umas palavras para fazer contas ao tempo que passou e nos ajudar a escutar o que guardam e contam as histórias das novas canções. O Manuel Simões foi quem falou.

Passaram-se seis anos desde que tinham lançado o álbum ao qual chamaram Norton. Nunca um hiato de seis anos tinha separado discos vossos. Os ritmos de criação e edição é certo que mudaram nos últimos anos… Este é agora o vosso ritmo? Como geriram este tempo e o que ditou ser esta a hora de apresentar novas canções?

Tudo aconteceu desta maneira, a este ritmo, por uma série de circunstâncias que definiram muito o resultado final. Começámos a trabalhar neste disco em 2016, depois de termos andado na estrada a tocar o LP homónimo. Entretanto, essa altura também coincide com uma série de mudanças a nível pessoal e com os quatro terem começado a viver em cidades diferentes. Isso acabou por nos ligar de uma outra maneira e fez com que transformássemos a nossa forma de compor. A cada trabalho, reaprendemos a dar vida às canções, e o “Heavy Light” retrata um método novo: a trabalhar em casa e a trocar ficheiros por e-mail, por exemplo. E, depois, a colocar essas ideias em prática juntos, na sala de ensaios.

Os sintetizadores conquistaram espaço na vossa música… O que estimulou esta opção criativa?

Os sintetizadores são uma paixão antiga. Diria que, a par da música electrónica, são um dos nossos motores de arranque, em 2002. Gostamos muito de sintetizadores, quer pelo som, quer pelo aspecto, e temos vindo a coleccioná-los na nossa sala desde então. É estimulante adicionar roupagens aos temas com eles. Em estúdio, gostamos sempre de dedicar alguns dias a fazer experiências com sintetizadores.

Aos dois primeiros álbuns de estúdio juntaram discos com remisturas que lançaram as canções para outros destinos… Essa relação mais evidente com a música de dança acabou por não ser assimilada por canções vossas em episódios seguintes. Essas remisturas eram meros pontos de vista de outros sobre a vossa música?

Sim, sem dúvida. E foi muito interessante ouvir novas interpretações das nossas canções. Essa altura é também muito marcada por várias bandas indie rock a serem remisturadas por artistas e DJs ligados à música electrónica. O facto de termos começado a frequentar clubes e discotecas, onde dançámos a música de que gostávamos, também contribuiu. Ficámos com vontade de que acontecesse o mesmo connosco e de que os Norton se fizessem ouvir na pista de dança. Além de que esses álbuns serviram ainda para criar uma série de contactos com outros artistas, cá e lá fora. Foi importante por isso também.

Deixaram de criar esses discos de remisturas. É uma ideia definitivamente posta de parte?

Definitivamente, não. Tivemos alguns casos pontuais, como os singles dos dois álbuns anteriores a “Heavy Light”, que foram remisturados por Cut Slack e por Cavaliers of Fun, e gostávamos de continuar a fazê-lo.

As experiências fora de Portugal (usaram imagens da ida ao Japão no teledisco de “Passengers”) mudaram alguma coisa na vossa maneira de entender a música como uma ferramenta de comunicação?

Essas experiências foram, acima de tudo, essenciais para perceber de que forma as pessoas respondem à música em qualquer parte. A música é um veículo muito importante para nos ligarmos com quem nos ouve e para comunicar mensagens. Temos vindo a aprender como a transmitir melhor. Tem sido um bom exercício e, a cada álbum, temos vincado isso. A comunicação, que se quer cada vez mais transversal, sem fronteiras, é um dos impulsos para continuarmos a fazer música juntos.

Os discos que vamos ouvindo, os concertos a que vamos assistindo, acabam por operar mudanças naturais na nossa identidade individual… Mas como se manifestam esses sinais numa banda que é a soma de várias personalidades?

Somos todos grandes consumidores de discos e de concertos. O que fomos absorvendo, ao longo deste tempo todo, também define o que é a nossa música e o que são algumas das nossas opções estéticas, tanto na composição, na gravação ou no palco. Quando estamos a compor, acumulamos essas vivências ao entrar numa simbiose, por vezes, caótica entre os quatro, mas que, no fim, pode resultar numa nova canção ou em muitas ideias.

Como chegam a um título como “Heavy Light”?

As sementes deste título nasceram durante uma conversa na sala de ensaios, enquanto trabalhávamos nos novos temas. Falámos sobre o valor que se dá às coisas, ao objecto físico, hoje em dia. Colocar um disco a tocar, apreciar e folhear o seu artwork, ler um livro são rituais que sentimos estarem a perder-se num mundo cada vez mais digital e acelerado. Pouco depois, o Rodolfo partilhou connosco uma imagem com um pequeno texto, de uma ilustradora espanhola: “Daqui a alguns anos vamos sentir falta de que as coisas pesem. O peso das coisas. O peso é valioso e estamos a acabar com ele.” Essas palavras tocaram-nos muito e, entre trocas de mensagens, chegámos a “Heavy Light”. Assentava na perfeição com as histórias que o Pedro estava a contar nas letras das canções. O título tornou-se, de imediato, o fio condutor para as que apareceram depois. E uma das curiosidades são as várias interpretações que nos iam surgindo para o nome, consoante as canções que íamos completando. Ainda hoje isso acontece. O disco transmite uma atmosfera luminosa e a esperança por um planeta que preserve o afecto e o tacto.

Onde vivem todos atualmente? Aquela ideia do berço em Castelo Branco ainda vos marca ou é já só um episódio passado da vossa própria narrativa?

Eu vivo nas Caldas da Rainha, o Rodolfo em Lisboa, o Pedro em Castelo Branco e o Leonel em Aveiro. No entanto, Castelo Branco continua a ser o berço e não queremos, de todo, negar isso. Continuamos a ensaiar e a compor na mesma sala de ensaios desde que começámos. É o nosso “playground”.

Olhando para um ano como 2020 apetece-vos mais retratá-lo na música ou usar, antes, as canções para dele tentar escapar?

A arte é a melhor ferramenta para escapar a qualquer pandemia. Quando estreámos o “Heavy Light” ao vivo, em Julho, tanto nós como o público, conseguimos esquecer a realidade social que domina o mundo por quase duas horas. Só prova, mais uma vez, que o poder de uma canção é enorme.

Como se dá vida a um disco num ano como este que estamos a viver?

Tem sido desafiante. Não estávamos à espera disto. O disco estava terminado desde o final do ano passado, os test press do vinil chegaram em Janeiro, o espectáculo estava preparado para seguir para a estrada. A pandemia deixou-nos sem chão e tivemos que replanear tudo. O lançamento foi adiado para Julho porque, para nós, não fazia sentido esperar mais. Temos discutido bastante sobre como fazer com que este disco não passe ileso em 2020. Mas é ao vivo que, apesar das limitações, o queremos mais defender.

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