Os caminhos a solo de Michael Rother, quando os Neu! ficaram mais distantes na sua memória

Apesar de uma reunião em meados dos anos 80, os Neu! são já uma memória distante na discografia de Michael Rother posterior a 1982 que a caixa “Solo II” recupera, juntando ainda ao alinhamento um novo disco de originais lançado já este ano. Texto: Nuno Galopim

A viragem dos anos 70 para os 80 implicou uma mudança de atitude para muitos dos visionários que antes tinham imaginado o futuro da música como uma aventura com as eletrónicas como ferramentas fulcrais na construção de novas formas. O futuro tinha chegado e o presente procurava assimilar o que outrora parecia transportar uma carga de desafio futurista… Os Kraftwerk, que tinham definido em The Man Machine (1978) o paradigma para uma ideia do que poderia ser um álbum de canções pop feitas com eletrónicas, voltavam a desafiar o tempo imaginando, em Computer World (1981) sinais de um mundo no qual a máquina outrora apenas acessível a alguns se tornava uma peça do quotidiano de tudo e todos (convenhamos que tinham razão). Mais focados nas formas do que nos conteúdos, outros dois contemporâneos (e conterrâneos) que tinham passado pelos Kraftwerk nos seus primeiros tempos e criado logo depois, através dos Neu!, uma das forças maiores do krautrock (talhando por exemplo a noção de batida motorik, coisa mais falada na imprensa que entre os músicos), estavam igualmente a viver mudanças de rumo.

Klaus Dinger, o baterista dos Neu!, integrava os La Dusseldorf, banda muitas vezes menos referida mas determinante na construção de sugestões de caminhos para uma nova visão da canção pop. Já o guitarrista Michael Rother, que também passara pelo início da aventura dos Kraftwerk e que em meados dos 70 integrara o coletivo Harmonia (com Hans-Joachim Rodelius e Dieter Moebius, dos Cluster), editava discos a solo desde 1977. Michael Rother começara por explorar terrenos diretamente nascidos das heranças dos Neu! até que, no álbum Fernwarme (1982) deu sinais de curiosidade por uma linguagem mais liberta da arquitetura rítmica e interessada em explorar a melodia, recorrendo de forma cada vez mais notória, à presença de novos teclados eletrónicos (e das linguagens, em mutação, das tendências de produção). Recordada numa primeira caixa (de título Solo), lançada no ano passado, juntando então os álbuns Flammende Herzen (1977), Sterntaler (1978), Katzenmuzik (1979) e o já referido Fernwarme, incluindo ainda excertos das bandas sonoras de The Robbers e Houston, a etapa inicial da obra de Michael Rother em nome próprio traduziu um caminho de lenta demanda por rotas que o pudessem levar para além do que era a região demarcada de influência do que criara a bordo dos Neu! (que se juntariam ainda para um novo disco em 1986). Agora Solo II conta o resto da história, transportando-nos desde as experiências de uma linguagem instrumental mais lírica e cinematográfica que começou a trilhar no sucessor de Fernwarme, avançando no tempo até ao novo Dreaming, lançado há poucas semanas e curiosamente incluído nesta caixa.

Editado em 1983, Lust materializava com outra nitidez o que antes se indiciara como possível novo rumo. O tom mais ligeiro de uma fotografia que destacava, com uma claridade como nunca antes, o rosto do músico, vincava sinais de mudança que, depois a música, confirmava em pleno. O caráter mais metronómico e marcado da arquitetura rítmica de discos anteriores dava lugar a uma proposta mais ambiental (não confundir com as texturas da ambient music) e focada na construção de pequenos momentos capazes de moldar a evolução de linhas de melodia, tal e qual uma canção o poderia fazer. Mais próximo (com as devidas muitas diferenças) das demandas pop que animavam as explorações de um Jean Michel Jarre do que dos caminhos que estávamos mais habituados a encontrar entre os pioneiros do krautrock, a música de Michael Rother reinventava-se com outra leveza… Talvez complicada de digerir aos que gostam de música de digestão mais difícil. Mas decididamente interessante na construção de novas possibilidades para uma visão eletrónica da música pop instrumental.

No disco seguinte Süssherz und Tiefenschärfe, lançado dois anos depois de Lust, o que parecia um momento de revelação e de mudança de rumo ganha forma num mergulho ainda mais evidente por uma vontade em trabalhar a construção de uma música ambiental feita com eletrónicas, suavizando o que na sua origem poderia haver de mais maquinal, procurando antes, com as mesmas máquinas, buscar um sentido mais lírico e humano para um novo episódio. As estruturas rítmicas não desaparecem, mas cedem o clima a um caminhar menos intenso e anguloso, até mesmo quando, em Tiefenschärfe (a peça central do álbum), as batidas se mostram bem longe da calmaria ‘ambient’. O desenho dos ambientes está aqui ora entregue a um labor mais cenográfico e a uma procura de rotas e destinos para a melodia (estes mais evidentes noutras faixas do disco). No tema de abertura, Süssherz, a guitarra soa com maior protagonismo, embora iludindo quem julgasse que tinha pela frente um disco pensado a seis cordas. Nada disso, logo depois as eletrónicas dominam o cenário.

Lançado em 1987 Traumreisen acentuou as transformações gradualmente projetadas nos dois discos anteriores e revela um mundo de paisagens eletrónicas já bem distante da matriz com alma ‘motorik’ das memórias vividas nos Neu! da década de 70. O rumo da música a solo de Michael Rother era igualmente mais luminoso e plácido do que aquele que tinha marcado o reencontro com Klaus Dinger vivido entre 1985 e 86 (do qual nos chegaram gravações, anos mais tarde, em Neu’ 86). Sem descuidar o gosto por definir uma estrutura rítmica que assegura as linhas que sustentam a arquitetura das composições, Michael Rother conduzia os caminhos da sua demanda rumo a uma noção mais lírica de uma música ambiental que não se queria apenas diluir no fundo das atenções. Daí a presença de vários planos de intervenção, sugerindo frequentemente elementos que assumem o desenho de uma melodia (ora pela guitarra ora por via das eletrónicas) em instrumentais que quase recriavam o paladar de discretas canções (como se escuta por exemplo em Lucky Stars ou no bem açucarado Gloria, com uma guitarra ni limiar do azeite tolerável). Já Schwarze Augen joga num patamar meramente sugestivo, parecendo todo o tema preparar o caminho para a libertação de um fraseado melódico mais pop que acaba por nunca acontecer.

Três anos depois de Radio (1993), uma compilação que juntou sobretudo material dos álbuns anteriores e algumas gravações criadas no seu estúdio caseiro entre 1988 e 93, Esperanza representou o primeiro álbum de Michael Rother em nove anos e seria assim o único disco de estúdio com material novo que editaria nos anos 90. Técnica e criativamente as maiores diferenças com a sua obra anterior devem-se ao facto de, em vez de trabalhar sozinho, Michael Rother ter aqui chamado várias colaborações. Uma delas centrou-se na presença de alguém que o ajudasse a lidar com nova tecnologia que instalara no seu estúdio. Outra ganhou forma numa parceria com Jens Harke, que não só escreveu a letra de Weil Schnee und Eis como fez desse tema o primeiro tema vocal (se bem que falado e não cantado) na obra a solo de Michael Rother. Samples vocais surgem depois em Wolkenvelt, explorando aqui o som e não necessariamente palavras… A música de Esperanza afasta-se contudo do lirismo cenográfico eletrónico dos discos da segunda metade dos anos 90 para avançar por terrenos com alguma afinidade com o trance mais ambiental (porém sem subir por aí além nas bpm) e, acima de tudo, traduzindo uma ideia de chill out que não esconde ecos dos modelos que os Enigma (projeto igualmente nascido na Alemanha dos 90s) transformaram num caso de sucesso. Michael Rother, contudo, não piscava aqui olhares nem ao canto gregoriano nem a demais exotismos. Esperanza, mesmo assim, é de toda a sua obra revisitara nesta caixa, o elo mais fraco…

Passaram-se novamente nove anos entre Esperanza e a edição de um novo disco, que surgiu já depois da viragem do século. E o que Remember (The Great Adventure) nos mostrou em 2005 foi que aquilo que Michael Rother encarara como discretas experiências no seu único álbum editado nos anos 90 deu lugar a uma nova lógica de trabalho: e não só a sua música deixava de nascer de experiências solitárias como avançava claramente pelos territórios da canção. Musicalmente o disco traduzia uma evolução na continuidade face ao rumo encetado na segunda metade dos anos 80, afirmando-se aqui um terreno cenograficamente tranquilo, ritmicamente bem definido mas nunca insistente, caminhando agora entre ecos das visões chill out que tinham feito escola nos anos 90 (houve comparações feitas com William Orbit, o que não é de todo descabido). Em estúdio Michael Rother contou com a colaboração de vários músicos (de novas gerações), entre os quais Andi Toma dos Mouse on Mars ou o produtor de tecno Jake Mandell. E chamou depois para dar forma às canções as vozes do veterano Herbert Gronemeyer e de Sophie Williams, esta tendo criado em He Said uma das pérolas pop deste alinhamento. O disco é luminoso, fresco, coisa de verão. De resto, mesmo não sendo trabalho de grande eloquência nos domínios do design, a capa traduz o clima da música que aqui encontramos. Uma das consequências deste álbum, vale a pena acrescentar, é o facto de ter (finalmente) convencido o músico a deixar o espaço do estúdio para apresentar o seu trabalho em concertos ao vivo.

Se Remember (The Great Adventure) revelara entusiasmantes novos caminhos para a música de Michael Rother, a verdade é que o tempo que se seguiu afastou-o dos terrenos da edição de música em nome próprio, tendo o músico colocado a sua obra discográfica num modo de “pausa”. Isto não implicou naturalmente o silêncio, já que ao longo dos 15 anos que separam esse álbum do disco lançado este ano, Michael Rother focou atenções na criação de bandas sonoras, tendo certamente dado o aval, em 2019, para o lançamento de uma primeira caixa antológica que então surgiu com o título Solo. Porém, e como nos revela um dos raros textos que encontramos na caixa Solo II, foi o tempo de confinamento vivido na primavera que o levou a retomar alguns esboços de ideias (muitos deles dos tempos das sessões de Remember (The Great Adventure) e criar um primeiro novo disco em nome próprio após este longo hiato. Dreaming retoma muito do que estava em jogo no álbum de 2005, do mood às próprias opções instrumentais e de produção, voltando a juntar à música a presença da guitarra, que ali tinha ficado de fora da equação final. E chama novamente as presenças das duas vozes, assinando assim uma continuação que faz de Dreaming algo que poderíamos entender como a segunda parte de um díptico sobre uma visão pop suave nascida dos caminhos instrumentais antes trilhados por um dos criadores centrais daquilo a que se convencionou chamar krautrock

Mais do que o destino presente da demanda pessoal de Michael Rother até aqui, Dreaming traduz ainda, e logo no título, uma sugestão daquela que não só é uma das principais fontes de motivação e destino cenográfico e ambiental das visões que tem criado na forma de música: o sonho. De resto, basta recuar no tempo para lembrar como já tinha antes explicitado verbalmente esta mesma ideia ao chamar Traumreisen a um dos seus discos… As duas caixas, complementares, definem um trajeto, apresentam (ou recordam) uma obra e deixam clara a solidez de um trajeto tranquilo e bem estruturado. Aos seis álbuns de estúdio aqui reunidos a caixa junta ainda um sétimo CD de “Bonus Tracks” no qual encontramos algumas remisturas, composições não incluídas nestes discos e temas de um álbum que o músico chegou a apresentar a algumas editoras nos anos 90 para então receber um redondo não (algumas das faixas do disco recusado apareceram já, entretanto, como temas bónus em algumas reedições). Pena o tom low-cost do acompanhamento informativo, que se limita a um desdobrável com dois (belos) textos, um de Karl Bartos, outro de Tom Pinnock. Não era má ideia haver mais espaço para contar a história deste discos numa caixa que os recolhe em casa comum…

“Solo II” de Miachel Rother, está disponível em caixas de 7CD, numa edição da Groeland Records

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