E 30 anos depois, Cabrita aventura-se em nome próprio (e sempre bem acompanhado)

No ano em que assinala os 30 anos da sua atividade profissional na música, João Cabrita edita um primeiro disco a solo que toma o saxofone como timoneiro mas que chama a bordo uma bela tripulação de colaboradores. Em novembro chega o vinil… Texto: Nuno Galopim

Foto: Ana Viotti

Há já 30 anos que vemos e ouvimos João Cabrita nos palcos e nos discos. Das memórias de aventuras a bordo dos Sitiados a vivências mais recentes em projetos como Cacique 97 e Cais Sodré Funk Connection, assim como invariavelmente ao lado de Paulo Furtado quando veste a pele do Legendary Tigerman, a obra é vasta, passou por muitos projetos, muitos discos, muitas colaborações. E depois de três décadas entre discos de bandas ou em gravações dos outros, eis que chegou a sua vez de assinar em nome próprio. Mas logo num primeiro encontro notamos que Cabrita (assim se chama o álbum que acaba de lançar pela Omnichord Records) não é um episódio de fuga ou rutura, mas antes da mais tranquila e natural continuidade. Porque se por um lado, e obviamente tomando o saxofone (na verdade mais do que um) como “voz” protagonista, abre sem esforço o leque a espaços e géneros diversos (tal como tem feito ao longo de todo o seu percurso), por outro não deixa de envolver aqui uma série de amigos, reconstruindo uma vez mais uma noção de “família” de músicos como sempre viveu estes momentos de criação e partilha. Cabrita é um álbum cativante (e só não vou usar a palavra contagiante porque em 2020 outros significados menos aprazíveis tomaram de assalto esta palavra). A cada tema somos convidados a rotas para novos destinos. E da variedade de caminhos (e de colaborações) acaba espantosamente por surgir uma coerência estrutural que tudo une: chama-se personalidade. É uma experiência que procura somar para criar sempre algo que pode ir para além da nascente das ideias. Comunga sem perder o comando do leme. Mas, como ele mesmo explica nas palavras que trocou comigo, usou neste projeto aquilo que tinha “aprendido para trás” nas suas muitas outras experiências em palco e em estúdio. Nota-se… E essa aprendizagem, trinta anos depois, dá-lhe um sólido disco de estreia em nome próprio… Venham mais. E, para já, chegados a novembro, que chegue o vinil que junta a estes temas as sessões que gravou durante o período de confinamento que vivemos na primavera. Para arquivar na pasta das boas estreias de 2020, mas no departamento “até que enfim”… Ora leiam a seguir as perguntas e respostas que trocámos…

Há quanto tempo imaginavas a possibilidade de criar um disco em teu nome e porque só agora aconteceu?

Na verdade, e como nos últimos 15 anos tenho tido praticamente carta branca nos arranjos de sopros que tenho feito para outros projetos, e como comecei a compor nos Cacique 97 e nos Cais Sodré Funk Connection, não senti  muito a necessidade de fazer um disco meu. Mesmo neste caso comecei por compor diariamente no inverno de 2018, por ter uma agenda vazia de espectáculos. Inventei um template  de quarteto de saxofones com secção rítmica e deitei mãos à obra. Só ao fim de uns dez temas e com  a entrada dos co-compositores é que senti que havia um corpo de trabalho a apontar para um possível disco. E como em 2019 faria 30 anos de carreira, já tinha pretexto.

Tens discos a solo de músicos ligados a bandas que te entusiasmem particularmente? E algum deles fomentou alguma vez a ideia de poder um dia fazer o mesmo?

Há vários exemplos. Dos Japan saíu o David Sylvian, que admiro muitíssimo, dos A-ha saíram os projetos do guitarrista e do teclista… Há uma naturalidade neste movimento, de facto. Não sei se por no início das carreiras ser mais fácil partilhar o esforço (por vezes descomunal) para ganhar visibilidade e pôr as coisas a andar e depois já haver portas abertas… De facto usei para este projecto tudo o que aprendi para trás.

Lidar com o protagonismo que um disco a solo implica é certamente diferente de estar a tocar integrado num grupo. Que diferenças maiores já sentiste nesta experiência

A exposição no palco e a comunicação com o público. Felizmente fui fazendo a transição suave desde os Sitiados até ao Legendary Tigerman, onde partilho a frente com o Paulo Furtado. Isso ajudou muito!

Apesar de ser um disco “a solo” é um álbum feito de partilhas e colaborações. Chamaste aqui nomes ligados a percursos teus atuais e anteriores e não só… Porque convocaste toda esta família?

Sempre achei que a música tem este lado incrível de os resultados serem muitas vezes superiores à soma das partes envolvidas. Quando acontece ao vivo, por vezes apenas por momentos, sentes-te mesmo a levitar levado pelo som. Em estúdio  alcanças esse estado de outra maneira, por exemplo ao acabar um take e ouvires algo que nunca pensaste ser capaz de fazer antes. Tudo isto vem dos estímulos das colaborações. Posso garantir-te que todas as colaborações, da mais pequenina à mais presente elevaram os temas em muito, fosse à cabeça ou por me fazerem reagir depois da sua entrada. Todos estes amigos são pessoas incrivelmente talentosas e foram escolhidos em função dos temas. Fosse outra a música, seriam provavelmente outros convidados.

Há vozes no disco, mas apenas pontuais. Trabalhar instrumentais era mais uma forma de te afastares de muitos dos outros percursos em bandas ou com outros músicos? 

De facto quis desde o início centrar as composições no instrumento que me dá menos dores de cabeça: o sax. A voz da Selma no We Andrea surgiu porque a certo ponto senti que havia algo de devocional a querer aparecer no tema, daí o coro gospel no final. No Never Gonna Give It Up tive de ceder. Tinha demasiados amigos cantores para deixar de fora. Então fiz a letra e gravei-os todos como se de um coro se tratasse. Gosto muito de coros, o seu poder vem da união e da generosidade com que os intervenientes abdicam do protagonismo para criar um corpo colectivo. No fundo é o espírito das colaborações do disco

Os universos do jazz e do funk são naturais referências para um saxofonista… Mas neste álbum juntas ainda mais caminhos? Como definiste os terrenos a explorar no disco?

Foi acontecendo naturalmente. O primeiro tema que fiz foi um afrobeat. O segundo, o farai, um rocksteady reggae. Só depois me libertei das formas e saíu o Whatever Blues. Os ambientes mais rock surgiram pouco depois. Não quis ficar limitado estilisticamente, já que tenho tocado em vários registos ao longo do tempo. O difícil foi escolher estes 10 dos 21 temas que compus. Mas mesmo assim acho que consegui dar uma certa coerência ao disco..

De que discos com o saxofone bem evidente mais gostas?

Don’t Try this at Home, do Michael Brecker, Destiny’s song do Courtney Pine, Cure for pain dos Morphine e Trust in the lifeforce of the deep Mystery dos the comet is coming

Tens algum saxofonista de eleição?

Michael Brecker e o Cannonball Adderley

Juntarias o saxofone a algum disco que o não tenha?…

Agora que já sou mais crescido acho que já me aguentava num disco do David Sylvian

Já compraste discos para escutar em particular o papel do saxofonista?

Talvez os do Brecker, e os dos Morphine, mas no geral é a composição o que mais me atrai. 

Vai haver edição em vinil e CD? São importantes para ti os formatos físicos? Tens relação especial com algum?

Sim! O CD neste momento pode ser comprado em joaocabrita.bandacamp.com. A partir de 6 de novembro teremos um duplo vinil, com um disco bónus com as Quarantine Sessions, que fui gravando ao longo do confinamento. A minha relação com o vinil é quase mística. Vai desde o cheiro até ao grafismo todo. É o meu formato de eleição.

Como vais trabalhar a divulgação de um disco como este num tempo como aquele em que vivemos neste contexto de saúde pública que implicam restrições?

Para já estamos a apostar numa presença forte nas redes sociais. Quanto a apresentações ao vivo, estamos a estudar (eu, com a Omnichord Records e os Produtores Associados) a melhor maneira de ultrapassar esta fase bem negra para a indústria dos espectáculos em geral.

Como vais conseguir gerir uma agenda que implica também o trabalho, pelo menos, com os Cais do Sodré Funk Connection e Legendary Tiger Man. E quem sabe se mais…

Com muita dificuldade, criatividade e ética de trabalho!!! Na verdade gosto de ter a minha agenda bem organizada. Ainda não sucedeu uma sobreposição, mas acontecendo opto sempre pela solução que sirva melhor os projectos envolvidos.

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