Róisín Murphy e a sua imparável máquina de dança

Com raízes mais antigas num máxi-single editado em 2012, o novo álbum de Róisín Murphy deixa de lado a ideia da canção mais arrumada para as estações de rádio e toma a pista de dança como ideia central para moldar as novas propostas. Texto: Nuno Galopim

O novo álbum de Róisín Murphy parece nascer de algo que nem sempre parece saber conduzir um percurso discográfico: a arte da espera (e com a espera, o tempo que o desenvolvimento de uma ideia pode envolver). Apesar de nunca ter saído de cena, a visibilidade da antiga voz dos Moloko (cuja obra em álbum foi recentemente reeditada) tem sido intermitente. Não necessariamente por falta de discos editados (se olharmos para a sua obra desde que iniciou o seu percurso a solo em 2005 só não editou música em 2006 e 2017). Mas, mesmo sendo uma das vozes mais recomendáveis da sua geração, nem sempre os seus discos arrebataram atenções maiores (e não que alguma vez tenha tropeçado em discos “menores”). E se os álbuns Hairless Toys (2015) e Take Her Up To Monto (2016) cativaram opiniões críticas e geraram momentos de comunicação, já muitos dos máxis que foi editando desde o belo Overpowered (2007) tiveram mais impacte junto dos seus mais atentos seguidores do que num patamar mais amplo a que esta música poderia (e deveria) ter chegado. Prioridades mais de quem divulga do que “culpas” da música, é certo. Mas a verdade é que nos momentos de talvez menor mediatismo o mundo passou ao lado de alguns momentos brilhantes, como o foi por exemplo Mi Senti, o fabuloso EP de versões de clássicos italianos editado em 2014 e que hoje, na sua prensagem em vinil pode custar mais de 250 euros…

Igual destino a esse EP cantado em italiano, tanto na escala dos preços do vinil de coleção, como na perceção pública da música, poderia estar votado a Simulation e Jealousy, máxis lançados, respetivamente em 2012 e 2015, como fruto de colaborações com o velho colaborador Richard Barratt (também conhecido como DJ Parrot) e que até aqui pareciam fadados a ser memórias a 45 rotações para pistas de dança nas mãos de DJs que eventualmente os tivessem escutado na altura. Mas em 2019 Róisín e Barratt lançaram mais um máxi isolado: Incapable… Seguiram-se Narcisus ainda em 2019 e, já em 2020, Murphy’s Law e Something More… Por todos eles passava uma relação mais próxima com uma lógica de visão longa pensada para evoluir na pista de dança em detrimento do formato da canção mais “arrumada” que dominara os álbuns anteriores. A house (logo bem evidente em Simulation e emerge novamente em Incapable) ditava aqui parte das regras, mas não fechava as portas a outras frentes, de assimilações bem distintas de heranças do disco em Jealousy ou Narciusus a um clima de tranquilidade para fim de noite em Something More. Mais do que as opções de género é da ideia que transcende o formato da canção pop para rádio que nasce assim Róisín Machine, disco que começa por juntar esses seis máxis que acrescentam ainda mais cores que vão do festim em We Got Together a um reencontro com pistas electro (que tinham caracterizado o álbum de 2007) em Kingdom of Ends, conduzindo-nos a canção rumo a um eventual clímax de euforia que acaba por nunca acontecer. Haja surpresas, pois.

Coerente e empolgante de fio a pavio, Róisín Machine é possivelmente o melhor disco de Róisín Murphy a solo, a colocar por isso perto do belo Overpowered e ao lado dos feitos maiores registados nos dois primeiros álbuns dos Moloko. Capta a pulsão do ritmo que caracteriza uma boa proposta para a pista de dança conseguindo, como o fizeram já álbums tão diferentes como Le Freak dos Chic ou Homework dos Daft Punk, galgar terrenos diferentes, unindo a noite e o dia, sabendo além disso celebrar heranças e raízes sem que nunca se convoque um sentido de nostalgia. Nem mesmo num ano em que as pistas de dança não habitaram as nossas noites. Que o disco tinha sete (ou mais) vidas já sabíamos. Mas pelos vistos algumas das suas descendências naturais, entre elas a house, parecem não ter motivos para as vermos como coisa do passado. Discos como este reafirmam, de resto, a sua vitalidade.

“Roisin Machine”, de Roisin Murphy, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Skint Record Limited

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