Amália Rodrigues “Amália Chante Le Portugal” (1966)

O gosto em cruzar tradições populares com outras músicas caracterizou alguma da produção discográfica que deu maior visibilidade ao universo das músicas do mundo nos anos 80 e 90. Na década de 60 Amália experimentou uma visão algo semelhante. Texto: Nuno Galopim

Este texto é o sexto de uma série abordagens a álbuns da música portuguesa que ou estão ainda guardados apenas na memória do vinil. ou não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo. Todos eles, contudo, são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. Este foi o primeiro álbum de abordagem a canções do folclore português (e o primeiro dos dois que gravou com orquestra). Curiosamente o LP saiu lá fora nesse formato antes de ser lançado cá dentro…

Tal como a colaboração de Ry Cooder com Ali Farka Touré em Talking Timbuktu, os cruzamentos das linguagens vocais do qwaali paquistanês por Nusrat Fateh Ali Khan com as visões do canadiano Michel Brook em Night Song, ou as abordagens de Ofra Haza a cantares do Iémen (entre os quais nasceria o seu êxito global In’ Min Alu), também os discos que Amália Rodrigues dedicou ao folclore português são experiências que, fosse então usada a expressão, teriam sido encaradas como exemplos (de excelência) nos campos da world music. Na verdade, nos anos 60 e 70 (quando Amália grava e edita três álbuns integralmente feitos de abordagens a recolhas do folclore português), eram mais comuns, nas esferas das músicas do mundo, as edições de discos que traduzissem ecos diretos de gravações de campo nas mais variadas geografias nascendo aí um importante acervo que foi então levado a disco pela editora Le Chant du Monde ou, entre nós, as míticas edições com capa coberta por serapilheira das gravações reunidas por Michael Giacometti e Fernando Lopes Graça, na série Antologia da Música Regional Portuguesa editada pelos Arquivos Sonoros Portugueses. Ao selecionar cantares de várias regiões e tradições, entregando-os a arranjos para orquestra (nos dois primeiros álbuns) ou para viola e guitarra (no terceiro), somando depois a carga interpretativa da sua voz (que cunhou a identidade destas abordagens), Amália estava, de certa maneira, e antes do que muitos outros fariam (sobretudo nos nos 80 e 90), a ajudar a “inventar” uma noção de diálogo de tempos e culturas (aqui as rurais e urbanas de uma mesma geografia linguística) que acabaria por ser marca vincada no coração da… world music de que se falaria mais adiante. No fundo uma continuação natural dos gostos pelo exercício da curiosidade sobre tempos e lugares que já tinha passado pelas músicas de tantos compositores que levaram as músicas do campo às salas de concerto desde o século XIX.

O gosto de Amália pelo folclore era-lhe conhecido e, podemos dizer, natural. Afinal era filha de uma família beirã e, no documentário de Bruno de Almeida, chega mesmo a dizer que o folclore da Beira e o do Alentejo são os melhores de cantar. Quando, em 1965, ganhou forma um primeiro conjunto de abordagens ao folclore para fixar num só disco (se bem que entre nós as gravações tenham surgido originalmente em três EP antes de serem reunidas num mesmo LP), as Beiras e o Alentejo lá estão representadas a região do Douro, tendo nestas sessões sido igualmente cantado o Algarve (se bem que a versão então gravada de Tia Anica de Loulé se tivesse mantido inédita até uma recente edição em CD que juntou o repertório folclórico de Amália).

Antes de gravar foi preciso definir o que cantar. E aí o repertório chegou de várias fontes, desde gravações apresentadas por Hugo Ribeiro (o mítico técnico de som dos estúdios da Valentim de Carvalho, que tinha já registado ali sessões com ranchos folclóricos) a edições históricas como foi o caso de Cantigas de Portugal, de Alexandre Rey Colaço, um disco de canto e piano editado em 1922.

Para dar forma às canções – e vale a pena notar que este disco surge três anos depois do álbum a que habitualmente chamamos “Busto” no qual a música de Alain Oulman levou Amália a caminhos musicalmente mais desafiantes – foram chamados os maestros Jorge Costa Pinto e Joaquim Luís Gomes, que assinaram as orquestrações e asseguraram a direção da orquestra. O disco juntou imediatamente frentes de comunicação à própria construção dos alinhamentos das atuações ao vivo. Algumas destas canções ganharam um lugar importante no seu repertório de palco e algumas, como Tirana ou Malhão de Cinfães, chegariam mesmo a conhecer novos arranjos e novas gravações.

Se em Portugal estas gravações ganharam forma em três EP lançados em 1967 – cada qual com o título Folclore, juntando respetivamente a indicação do número do volume em causa: Folclore 1, Folclore 2 e Folclore 3 – o corpo maior foi logo em 1966 apresentado em França num LP com o título Amália Chante Le Portugal. O mesmo alinhamento teve ainda edição em Itália (como Folklore Portoghese) e no Reino Unido (como Folk Songs of Portugal) antes de, em 1973, ter finalmente conhecido edição num LP para o mercado português, com o título Amália Rodrigues Canta Portugal. Curiosamente por essa altura tinham já surgido os discos Amália Canta Portugal 2 (gravado em finais dos sessentas e lançado em 1971) e Amália Canta Portugal III (1972). O impacte internacional do álbum de 1966 levou Amália a apresentar-se em palco, com orquestra, em Nova Iorque (no Lincoln Center) e Los Angeles (aqui no Hollywood Bowl), sob direção do maestro André Kostelanetz.

“Amália Chante Le Portugal”, editado em França em 1966 pela Columbia estreou em suporte de LP o conjunto de de gravações que teriam edição portuguesa em três EP editados em 1967. A edição deste alinhamento num LP em Portugal faz-se em 1973 sob o título “Amália Canta Portugal”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.