David Bowie “The Man Who Sold The World” (1970)

“The Man Who Sold The World”, terceiro álbum de David Bowie, teve na verdade uma presença original relativamente discreta. Com o tempo foi sendo redescoberto revelando um tempo de tumultos pessoais e de incertezas no rumo a seguir. Texto: Nuno Galopim

Editado a 4 de outubro de 1970, The Man Who Sold The World tem resistido aos anos, sobretudo pela forma como foi apontado como determinante influência por nomes como Boy George ou Kurt Cobain, este último tendo assinado, com os Nirvana, uma soberba versão do seu tema-título, que ficou registada no álbum Unplugged in NY dos Nirvana, editado já depois da sua morte, em 1994. Já agora, vale a pena lembrar que há mais versões interessantes desta canção, outra delas gravada em 1982 por Midge Ure, numa das suas primeiras experiências a solo. E outra ainda, pela inglesa Lulu (uma das quatro vencedoras na Eurovisão em 1969), gravada em 1974.

Sucessor de David Bowie (1967), que tinha apontado a azimutes de uma certa teatralidade barroca que em nada se comparava com o que se escutava em terreno pop por aqueles dias e de Space Oddity (1969) cujo tema-título dera finalmente ao músico o seu primeiro êxito, The Man Who Sold The World não consegue contudo definir através do seu alinhamento um espaço tão focado como acontecere nesses outros dois álbuns. É até um disco esteticamente desfocado, mais feito de força na intensidade nas palavras, o que talvez se deva a ecos de um quotidiano que recentemente assistira ao seu casamento com Angie, uma rutura com o manager Ken Pitt e, talvez mais marcante ainda, a presença de ecos da doença psiquiátrica do irmão Terry (a cuja memória dedicaria largos anos depois o tema Jump, They Say). Há paranóis, assombração, alucinações e misticismo entre as canções de The Man Who Sold The World. 

Musicalmente, o disco traduz a presença de uma nova banda que claramente levou Bowie para terrenos bem diferente dos que, inspirado pelos ares da folk, tinham moldado o caminho que o levara a Space Oddity. The Man Who Sold The World traduz o protagonismo do guitarrista Mick Rock, então visivelmente encantado pelo som dos Cream. E como resultado desse encantamento aqui acaba por nascer um dos mais “pesados” dos discos de Bowie, denunciando até em certos momentos (como em Running Gun Blues ou She Shook Me Cold) alguma discreta curiosidade pela emergente estética heavy, particularmente os Led Zeppelin, caminho que o álbum seguinte interromperia súbita e assertivamente. Mas este é também um disco de contrastes. E se nesses momentos espreita caminhos que pouco marcariam quer o seu percusro posterior quer os seus seguidores, já  After All parece definir primeiras as bases de uma estética fúnebre, lúgubre, que seria herdada e assimilada, dez anos depois, pela emergente sub-cultura gótica.

Apesar de alguns belos momentos, como o são o tema título (hoje reconhecido como um clássico) ou The Superman (uma das pérolas esquecidas de Bowie), The Man Who Sold The World  foi, apesar da intensidade da eletricidade, um álbum relativamente discreto e sem particular descendência na obra do próprio Bowie. Não deixa de ser curioso como acabou, todavia, por marcar tantos dos seus descendentes. E bem pode agradecer à versão dos Nirvana o processo de (re)descoberta que levou muitos a um reencontro com estas canções nos últimos 25 anos.

Na verdade, e até à dimensão de redescoberta lançada depois do Unplugged dos Nirvana, o “caso” mais célebre envolvendo este disco deveu-se à ousada opção de Bowie pela criação de uma capa “caseira” na qual se apresentou fotografado num sofá da sua casa (a mítica Haddon Hall), envergando um vestido, opção que assim superou a utilização de um cartoon que, inicialmente Bowie tinha encomendado…

Uma nova mistura das canções deste disco, com o título The Metrobolist (que foi título de trabalho antes do álbum ser editado como The Man Who Sold The World ), deverá ser editada na sexta-feira. O tal cartoon posto de lado em 1970 dará agora imagem à capa de The Metrobolist.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.