De um novo mergulho entre o arquivo de Patrick Cowley emerge uma coleção… de versões

Temas de Donna Summer, dos Temptations ou uma citação de um clássico de Herbie Hancock surgem entre a coleção de gravações inéditas registadas entre 1975 e 1977 que agora encontramos em “Some Funkettes”, um novo disco de Patrick Cowley. Texto: Nuno Galopim

Os últimos anos deram nova vida à memória da obra de Patrick Cowley, um dos “pais” do hi-nrg e uma das figuras-chave, senão mesmo o protagonista, da banda sonora para a cena noturna eletrónica que há 40 anos florescia na cidade de São Francisco (Califórnia). Lindstrom, Prins Thomas e outros heróis de uma nova geração de cultores do space disco estão entre os responsáveis por esta redescoberta que assim levou a uma nova geração de melómanos os discos que lançou em nome próprio, reativando igualmente interesse pelos trabalhos de colaboração que então assinou com Sylvester, entre os quais o clássico Do You Wanna Funk.

Patrick Cowley foi um dos mais importantes pioneiros na construção de uma relação entre as eletrónicas e as pistas de dança, com presença sobretudo determinante na definição de descendências do disco que emergiram então entre Nova Iorque e, sobretudo, São Francisco, em finais dos anos 70 e inícios dos 80, ganhando então a designação de hi-nrg. Autor de algumas pérolas maiores da música de dança desse tempo, muitas delas na voz de Sylvester (com quem colaborou ativamente), criou também uma obra a solo, que se revelou nos álbuns Magatron Man (1981), Menergy (1981) e Mind Warp (1982), este último já criado numa etapa avançada da doença (seria, em finais de 82, uma das primeiras vítimas de sida entre o mundo da música).

Algo esquecido durante anos a fio, Patrick Cowley ganhou um merecido estatuto de referência quando, além de citado por nomes como os Pet Shop Boys ou New Order, os cultores do space disco  (em particular Lindstrom) o redescobriram depois da viragem do século. O reencontro com a sua obra começou por se fazer em reedições, às quais se começaram a juntar, depois, compilações de material inédito. Foi o caso, em 2009, de Catholic, álbum que juntou gravações de arquivo registadas na segunda metade dos anos 70, juntamente com Jorge Socarras. Ali se revelava um álbum surpreendente, algo afastado dos destinos para a pista de dança da demais obra gravada por Patrick Cowley, revelando antes um interessante espaço de pioneirismo na pop eletrónica norte-americana, em canções de travo pós-punk nascidas em finais da década de 70, em concreto registadas entre 1976 e 1979.

School Daze, revelado em 2013, abria depois um novo baú de descobertas de arquivo, a partir de então reveladas através do catálogo da Dark Entries. Na verdade, esse álbum nasceu da localização, nos armazéns de uma produtora de cinema porno gay, de fitas com a música que Patrick Cowley tinha criado para utilização em filmes desse estúdio de Los Angeles. Contactado em 1981 para criar música para estes filmes, Cowley juntou fitas de gravações suas, algumas dos seus dias de estudante universitário.

Em 2016 e 2017 chegaram, respetivamente, Muscle Up e Afternooners, mais dois volumes de material inédito que Patrick Cowley tinha reunido para responder ao pedido de John Coletti, o dono dos Fox Studios, para as bandas sonoras dos filmes porno que então lançava. Ao contrário do que sucedera em School Daze e Muscle Up, em Afternooners foram reunidas fitas gravadas entre 1979 e 1982, ou seja, contemporâneas do período em que Patrick Cowley criou os discos que definiram a identidade do hi-nrg. E, de resto, há entre as faixas de Aftrernooners algumas demos e primeiras ideias de temas que levou a disco, nomeadamente ao alinhamento de Mind Warp. E assim ficou fechado o capítulo que ligou música de Patrick Cowley ao cinema porno. Mas a história da redescoberta da sua música não ficou por aí…

Seguiu-se, em 2019, Mechanical Fantasy Box, álbum (um LP duplo) que juntou uma série de gravações efetuadas entre 1973 e 1980. Porém, ao invés das que surgiram em School Daze ou Muscle Up, revelavam-se aqui sobretudo demandas exploratórios de um músico em claro modo de imersão nas possibilidades das ferramentas eletrónicas e dos instrumentos disponíveis em estúdio. Muita da música que escutamos em Mechanical Fantasy Box sugere mais uma noção de viagem cósmica (e vivia-se um tempo de importantes conquistas da astronáutica) do que preocupações pragmáticas com vista a fins mais específicos.

A história continua agora com Some Funkettes, um álbum que toma como “conceito” uma recolha de versões de temas de outros autores que Patrick Cowley gravou entre 1975 e 1977 e até aqui todas elas ainda inéditas. Do alinhamento destaca-se inevitavelmente uma abordagem bem pessoal a I Feel Love de Donna Summer, canção para a qual Patrick Cowley chegou depois a criar uma remistura com cerca de 15 minutos de duração que então marcou forte presença na club scene. Mas há mais evocações dignas de atenção num alinhamento que abre com Do It Anyway You Wanna, um clássico disco dos People’s Choice, seguindo-se uma leitura longa e exploratória de Papa Was a Rolling Stone dos Temptations (tema ao qual Patrick Cowley chama Papa Wuzza Rollinston). Em Spiked Punch cita o clássico Chameleon de Herbie Hancock, havendo no alinhamento espaço para uma versão dub desta mesma composição. Dynomite, tema funk de 1975 do projeto Bazuka, do produtor Tony Camillo. O disco junta ainda versões vocais de Papa Wuzza Rollingston e Do It Anyway You Wanna, arrumando este conjunto de memórias sob uma capa que nasce de uma colagem que tem como peça central uma foto de Patrick Cowley com 24 anos, diferente do look mais frequentemente recordado em artworks de outros discos seus.

“Some Funkettes”, de Patrick Cowley, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Dark Entries.

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