“Soul” é como um bálsamo para a alma a fechar um ano que todos queremos que acabe

Estreado apenas na plataforma de ‘streaming’ da Disney o novo filme do realizador Peter Docter junta a 2020 uma série de factos e valores que dele fazem um momento a reter quando o futuro olhar para a história do ano difícil que todos vivemos. Texto: Nuno Galopim

Um dos melhores filmes de 2020 chegou naquela hora em que o ano está a fazer contas a si mesmo e a preparar o caminho para passar o testemunho a 2021 (e esta, na verdade, será talvez a passagem de ano mais desejada de muitos de nós). Inicialmente previsto para ter estreado no início do verão, foi adiado para novembro, ainda passou por festivais de cinema mas acabou destinado a uma estreia por streaming, salvo em países que não têm a plataforma Disney +. Soul, de Pete Docter, o mesmo autor de títulos marcantes da Pixar como o foram Monstros e Companhia (2001), Up – Altamente (2009) e Divertida Mente (2015) é, antes de tudo mais, mais um exemplo de como uma série de conceitos vivenciais e filosóficos podem encontrar personagens e narrativas capazes de comunicar a diversos públicos, revelando vários possíveis níveis de leitura (o velho efeito dos 8 aos 88 do Tintin mora claramente aqui). Depois é mais um exemplo de como em volta dos filmes de animação da Pixar (e da Disney em geral) a música continua a ser um valor que transcende o mero efeito de papel de parede. De resto, aqui desempenha mesmo um papel central na própria trama e na caracterização das personagens. E, vale a pena sublinhar ainda que, em Soul, a Pixar apresenta o seu primeiro elenco capaz de retratar os corpos, imagens e vivências (sociais e culturais) da comunidade afro-americana. Um facto importante no ano em que questões de luta pela igualdade estiveram bem visíveis na agenda dos acontecimentos.

Em traços largos [e atenção que há um leve spoiler neste parágrafo], o filme apresenta-nos a figura de um homem que toda a vida sonhou com uma carreira como pianista de jazz mas a quem a sobrevivência exigiu um quotidiano como professor de música. Uma oportunidade para atuar na banda de uma grande figura do jazz chega no mesmo dia em que um azar o confronta com um fim inesperado… E no limbo entre a vida e o que poderá chegar depois conhece, por acaso, uma “alma” a quem nem mesmo Copérnico ou Aristóteles conseguiram encontrar a “chama” que desse sentido à sua existência e que, por isso, nunca foi enviada para… viver… E daqui em diante não conto mais… A trama coloca-nos inicialmente perante o confronto entre a resignação de um quotidiano de sobrevivência e a teimosia da fé num sonho. E acaba por nos dar a todos uma lição de vida que, mesmo sem responder às clássicas grandes questões da existência, não deixa de sublinhar a dádiva que representa estar vivo.

Tal como em Divertida Mente, Peter Docter estabelece em Soul dois patamares de existência para as personagens do filme, a cada um correspondendo linhas, formas, cores e até consciências distintas sobre as realidades vividas no outro mundo. Dotando-nos de uma capacidade de distanciamento que nos coloca num ponto de vista que observa os dois mundos, acompanhamos o dia de Joe Gardner que começou com uma esperança de futuro mais perto do seu sonho de sempre, mas que acabou transformado numa sucessão de acontecimentos e revelações que nunca imaginara. E estou a ter todo o cuidado para não revelar nada demais sobre a narrativa além do que lancei mais acima…

A equipa que desenvolveu a narrativa, figuras e demais imagens procurou traduzir, sobretudo nas sequências passadas em Nova Iorque, o maior realismo possível (o que ajuda até a estabelecer um contraste com o outro plano em que a história também decorre). E para alcançar esse rigor foram escutados músicos como Herbie Hancock, Quincy Jones ou Questlove.

Sobre a música há que referir que, tal como os universos (ou planos) em que evolui a trama, também aqui houve uma separação de linguagens e de formas. Trent Reznor e Atticus Ross assinam o score instrumental que se relaciona com os espaços de transição entre a vida e o que pode estar mais adiante. Trata-se aqui de mais um brilhante exemplo de composição de música eletrónica, dominada por moods ambientais, planante, reconfortante, e capaz de deixar as formas em aberto… Por seu lado, a etapa terrena da história (que decorre nas ruas de Nova Iorque), muito vincada pelos sonhos do protagonista (chegando mesmo a envolver um ensaio com a banda da saxofonista que o chama a uma audição), coube a Jon Batiste, um músico veterano que tocou já ao lado de Stevie Wonder, Prince ou Mavis Staples, trabalha com o National Jazz Museum em Nova Iorque e integra a banda que acompanha o programa de Stephen Colbert na televisão americana. Coube a Jon Batiste assinar também It’s Alright que, na voz de Celeste, escutamos quando chegam os créditos finais. Complementares, mas distintas, as duas faces da banda sonora conheceram edições discográficas em separado nas edições apresentadas em vinil. Já a versão disponível nas plataformas digitais junta ambas as contribuições, arrumando-as sequencialmente tal e qual as encontramos à medida que o filme evolui.

         Soul é, além de tudo isto, também um filme que fixa em si a história de 2020. Não apenas pelo facto de ter conhecido um modelo de estreia diferente (e resta saber como, depois de passada a pandemia, o que mudará nos hábitos de consumo de cinema). Mas também porque foi concluído já num período em que todas as nossas vidas estavam a sofrer alterações nos hábitos do quotidiano, incluindo os de trabalho. Certo é que, a fechar um ano tão difícil como o foi 2020, um filme tão humano e redentor é como bálsamo que já tardava. E é mesmo um dos melhores filmes do ano.

“Soul”, de Pete Docter, está disponível na plataforma Disney +

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