Faltam histórias (e surpresas) à celebração dos 40 anos dos Spandau Ballet

Na hora de celebrar os seus 40 anos os Spandau Ballet juntaram memórias em 3CD e 2LP, mas deixaram de fora a possibilidade de acrescentar uma narrativa com textos e imagens. E assim, apesar de um inédito, a coisa fica a saber a mais do mesmo. Texto: Nuno Galopim

A história remonta aos finais dos anos 70, inicialmente sob outras designações, tendo o nome Spandau Ballet surgido já perto da viragem para os oitentas. Naturais de Londres, tornaram-se frequentadores habituais do Blitz e outros espaços onde se inventava o que iam ser os anos oitenta. Eletrónicas, descendências do disco e do funk e sonhos de um futuro que parecia morar na linha do horizonte lançavam os alicerces para as ideias que, depois, se vestiram a rigor segundo o mood sugerido pelo clima new romantic que vira o grupo a ganhar forma. Várias editoras bateram-se pela sua assinatura, tendo a Chrysalis conseguindo chegar a um acordo que logo os levou a estúdio, de lá saindo num ápice, o single To Cut a Long Story Short canção que em 1980, juntamente com Vienna dos Ultravox e Fade to Grey dos Visage tornava então visível (e com apetite mainstream) o que até então fora a aventura localizada e noturna do fenómeno que new romantic. Os Spandau Ballet afirmam-se assim, inicialmente, como uma das bandas de proa do movimento do qual, tal como os Duran Duran, se começam a afastar em finais de 1981, ainda em tempo de vibrante expressão global. Dessa etapa inicial a jóia da coroa é o magnífico Journeys To Glory (1980), não só um dos discos maiores do movimento new romantic mas um dos grandes álbuns pop do inícios dos anos oitentas. Produzido por Richard James Burgess (que então era a alma dos Landscape), o disco vinca, sob a voz forte e clara de Tony Hadley, a linguagem pop angulosa de To Cut a Long Story Short numa sequência de canções que ajudaram a definir o som do movimento que os lança. Clássicos como The FreezeReformation ou Toys (onde as guitarras ganham inesperada visibilidade maior, segundo evocando uma admiração por Bowie) são episódios de um álbum que marcou o seu tempo e gerou descendência. Um ano depois, em Diamond, o grupo ensaia uma derivação da mesma linguagem angulosa através da assimilação mais direta de matrizes white funk, marcando através de temas como Chant #1 ou Paint Me Down a afirmação de nova etapa.

            A viragem chega em 1983 quando, com novos produtores, o grupo que anos antes era ousado e diferente surgia reinventado como banda confortável e moldada aos caminhos do gosto menos dado a questionar o status quoTrue (1983), dominado por baladas feitas de pompa e sofisticação e o posterior Parade (1984), transportam os Spandau Ballet a um patamar diferente daquele em que haviam nascido.

A fama maior não sobreviveu, contudo, ao passar da época 1983/84 e, quando em 1986 editam Through The Barricades, além de estarem transformados num coletivo musicalmente inconsequente, as vendas de discos indiciaram sinais de um recuo que se acentuaria até à separação, que chegou depois de Heart Like a Sky (1989). Fez-se um silêncio e o tempo transformou a carga das memórias dos êxitos dos anos 80 numa fonte de nostalgia, que de revelou evidente quando o grupo regressou em 2009 para regressar à estrada, editando ao mesmo tempo Once More, disco onde regravavam temas antigos e juntavam dois inéditos. A história fez-se, desde então, de mais revisões de memórias, com novas colheitas de inéditos que foram chegando na hora da edição de antologias, como sucedeu em 2014 com Steal e This Is The Love ou, agora, com uma versão de The Boxer (original da dupla Simon & Garfunkel) que surge no alinhamento de 40 Years – The Greatest Hits.

Mais interessante (e representativa) na versão em 3CD do que na apresentada em vinil duplo (que faz uma seleção de parte dos temas editados em single), a nova compilação na verdade pouco junta ao que outras antes já mostraram. E até a foto usada na capa vem da mesma sessão da que em 1991 foi usada em The Best of Spandau Ballet. A versão em CD arruma cronologicamente as memórias e valoriza justificadamente os dois primeiros álbuns. O CD 1 junta 18 canções de 1980 a 1984, não se limitando aos singles. O CD 2 vai de 1984 ao presente… (mas neste lote a carga nutritiva é menor). Já o CD apresenta uma seleção de versões máxi. Conclusão: no plano do repertório já houve antologias mais cativantes dos Spandau Ballet… Mas a dieta de informação no booklet é atroz. Nem um texto… Há uma ficha técnica das 45 faixas dos três CD e mais uma foto de meados dos 80s que ocupa duas páginas… Para celebrar 40 anos convenhamos que, mesmo com o mesmo alinhamento, uma história bem contada, imagens, capas, etc, ajudavam a fazer uma peça digna de um número tão redondo. É claro que houve já uma série de reedições (com extras) em 2010… Mas não se arranjavam mais uns tesouros de arquivo, como os que em 2002 surgiram no triplo CD Reformation? Não há maquetes, gravações ao vivo, takes alternativos, que justificassem um CD de extras? E, volto a insistir, um booklet melhor? É que a memória dos Spandau Ballet, sobretudo tendo em conta as colheitas de 1980 a 1983, merecia melhor evocação na hora de chegar aos “entas”…

“40 Years – The Greatest Hits”, dos Spandau Ballet, está disponível em 2LP, 3CD e nas plataformas digirais numa edição da Parlophone/Warner

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