Assinalando o 45º aniversário da edição de “Station to Station”, uma nova prensagem em vinil vermelho ou vinil branco é motivo para um novo reencontro com um disco marcante na carreira de David Bowie. Texto: Nuno Galopim

Editado em janeiro de 1976 Station to Station foi importante momento de transição na obra de David Bowie, estabelecendo um caminho entre os espaços escutados na música negra norte-americana explorados em 1975 em Young Americans (mas também já evidente no disco ao vivo David Live, de 1974, registado em Filadélfia) e uma nova identidade “europeia” que conheceria expressão maior na trilogia Low / Heroes / Lodger que se lhe seguiria entre 1977 e 79. O facto de representar uma etapa de transição não nos impede contudo de ali reconhecermos um dos melhores dos discos de Bowie.
Todavia, mais que uma etapa no desenvolvimento do esteta musical, Station to Station é a tradução em disco de uma das mais sombrias temporadas na vida de David Bowie. Com nova morada em Los Angeles, numa casa onde raramente se abriam cortinas, pouca luz iluminando uma decoração feita de motivos inspirados no antigo Egito, Bowie entregava-se, rezam as mitologias, a uma dieta de pimentos verdes e vermelhos, cocaína e sumo de laranja.
A saída acabaria por ser encontrada pouco depois nas páginas das Berlin Stories de Christopher Isherwood e com importante nova etapa de vida encetada pouco depois na cidade que inspirara essas histórias de outros dias e que o deixou ser um quase anónimo entre tantos outros dos seus habitantes.
Ao mesmo tempo que ia criando estas novas canções aceitou, durante 12 semanas, o exigente papel protagonista em The Man Who Fell to Earth, de Nicholas Roeg (uma foto tirada num dos décors filme acabaria por dar capa a Station to Station)… E data ainda deste período a famosa entrevista ao Sunday Times na qual anuncia um divórcio do rock… Na verdade, naquele tempo um dos discos que o mais inspira é Autobahn, dos Kraftwerk. E pouco depois, já em preparação da digressão a que chamaria Isolar, toma Discreet Music, de Brian Eno, como um dos seus novos polos de referência (de resto nascerá de um encontro entre os dois músicos, no concerto final da série em Wembley em Maio de 1976, um entendimento em torno de uma conversa sobre Discreet Music o ponto de partida para uma colaboração que começaria a ganhar forma pouco depois, em Low).
O sucesso de Young Americans e o fim da ligação ao manager Tony DeFries sugeriram um sentido de liberdade que, literalmente, Bowie transformou em música. Juntando nova equipa de músicos, em sessões que chegaram a durar mais de 24 horas, sob intensa demanda de perfeccionismo serviram canções que emergiam, entre as já referidas metas musicais e um sentido de alienação que transportava para a sua escrita traços evidentes da personagem que vestira no filme de Nicholas Roeg.
O disco é assim uma fresta possível sobre o retrato de uma alma atormentada entre reflexões sobre o oculto, o cristianismo, o mundo moderno. E serviu a criação de nova figura, o Thin White Duke, cuja aparência e comportamentos em tudo eram manifestações das ideias (de ficção) expressas nas canções. O teatro, uma vez mais, ao serviço da obra. O homem, naturalmente, expressão inevitável de si mesma.
Os primeiros sinais de um novo espaço de revolução que se confirmaria em Station to Station chegaram na forma de um single que hoje é reconhecido como um dos clássicos maiores de Bowie e uma peça fulcral na definição de ideias que moldariam muita da pop de inícios dos anos 90. Composto em 1975, ainda sob evidentes marcas de um relacionamento com a música soul e a cultura R&B que havia dominado o álbum Young Americans, Golden Years é um espaço de clara transição dessa etapa para um terreno onde a influência dos Kraftwerk e a emergência das sonoridades electrónicas teria expressão mais clara na obra de Bowie que surgiria pouco depois. O single, que usou no lado B Can You Hear Me, uma canção do alinhamento do álbum de 1975, representou novo momento de grande visibilidade para Bowie. E ficou célebre a atuação no mítico programa Soul Train, onde se diz que terá bebido a mais para o momento em que ali interpretou esta sua canção.
Se Golden Years tinha assinalado um espaço de transição entre o primeiro flirt de Bowie com os espaços do R&B (aos quais regressaria em Let’s Dance e Black Tie White Noise), o segundo single extraído de Station To Station revelava um aprofundar da sua relação com mecânicas da música de dança já distantes das que havia ensaiado em tempo de euforia glam rock. Assimilando ecos da cultura disco, mas sem perder sinais de um relacionamento com as genéticas do rock’n’roll (sobretudo evidentes na presença do piano), TVC 15 é um tema que ajuda a fazer de Station to Station um disco no qual Bowie parte das suas mais recentes experiências americanas para rumar à exploração de novas ideias com geografia europeia. A canção, que partiu de uma experiência alucinatória de Iggy Pop que imaginava alguém a mergulhar no espaço de um ecrã de televisão (antecipando talvez ideias que ganhariam forma visual no Videodrome [1983] de David Cronenberg), é mesmo assim, e do alinhamento do álbum de 76, o seu mais evidente polo americano.
Em finais de 1981, para promover a edição da antologia ChangesTwoBowie, a RCA regressou ao alinhamento do álbum de 1976 Station To Station e editou, no formato de single a canção Wild Is The Wind. Assinada por Dimitri Tiomkin (um dos grandes compositores ao serviço da história do cinema) e Ned Washington, e originalmente cantada por Johnny Mathis na banda sonora do filme homónimo de George Cuckor, a canção tem em Bowie uma versão notável.
Enquanto em territórios europeus era editado Wild Is the Wind, nos Estados Unidos um terceiro single surgia do alinhamento do álbum Station To Station. As escolhas recaiam agora sobre Stay, canção que juntava uma guitarra e uma secção rítmica herdadas da sua vivência com formas do R&B, sob uma presença de sintetizadores como cenário. Com World on A Wing no lado B, o single passou todavia longe das atenções.