Eurovisão 2017… Foi a minha primeira vez…

Por incrível que pareça, nunca antes tinha ido “de facto” a uma Eurovisão. Acompanhava o festival desde os três anos de idade, tendo nesse ano (de 1971) pedido aos meus pais que me comprassem o single com a canção de mais tinha gostado. De resto, já contei essa história aqui. Mantive-me espectador atento, passei uma etapa de desinteresse ali em finais dos oitentas, até que a meio dos noventas comecei a apostar numa coleção de discos relacionados com a Eurovisão. Os singles dos diversos países, ano após ano. E as compilações que tinham surgido, umas juntando as canções de um só ano, outras contando a história eurovisiva de cada país. Este arranque da coleção corresponde a uma etapa em que, como jornalista, começo a fazer uma cobertura (à distância) mais atenta para o DN, onde então trabalhava e coincide também com um momento em que, ao lançar as bases da OGAE Portugal (um clube de fãs) dei por mim a contactar com colecionadores e conhecedores a fundo da coisa, cada um de seu país. E a fazer uma revista em papel que chegou a ter quatro edições enquanto estive a bordo. Antes mesmo da Internet, uma rede de cartas trocadas, cassetes partilhadas e discos para cá e discos para lá faziam da Eurovisão um mundo que vivia assim para além das semanas dos ensaios e do programa de televisão (ainda não havia semifinais por aqueles tempos).

Em 1998 mudei de casa a dias do festival – aquele que deu vitória a Dana International – e a minha prioridade era mesmo ter o cabo ligado para poder ver a transmissão e um telefone para votar (ainda eram raros os telemóveis). A televisão estava de facto ligada ao cabo na noite do festival. Mas a companhia dos telefones não fora tão rápida… E na hora da janela de votação lá saí de casa a correr, mais o meu amigo Manuel, até ao telefone público mais próximo. E estava ocupado. E, com a lata de um catraio, pedi ao senhor para desligar porque “precisava” de votar na Eurovisão, que logo ele poderia retomar a sua chamada… E não é que assim foi?

Como qualquer dono de um par de ouvidos ligados a um cérebro, vivi a primeira década eurovisiva do século XXI com mixed feelings. Por um lado, era refrescante o evidente rejuvenescimento em curso do look do formato, agora com o fulgor dos fãs (e suas bandeiras) em frente ao palco, acabando com aquelas velhas e aborrecidas plateias sonolentas com smoking, vestidos de noite e palmas em dieta de entusiasmo. Mas depois de uma década com interessantes aberturas de frentes a novos sons e geografias, a música estava longe de traduzir os melhores tempos do concurso. Convenhamos que a coisa melhorou com a criação do sistema de votação 50/50, repartindo as decisões entre o televoto e júris profissionais locais. E depois de 2009 as ementas anuais mostraram novamente mais diversidade e até mesmo algumas grandes canções. Alemanha 2010 e 2011. Estónia 2011. Suécia 2012. Hungria e Holanda 2013. E a coisa continuou, com ainda melhores resultados sobretudo em 2015 e 2016… E foi em 2016, ano em que Portugal não participou, que um telefonema da RTP me colocou pela primeira vez um novo desafio. Comentar o Festival da Eurovisão? Claro que sim! E depois de a ter escutado ao telefone, conheci a Carla Bugalho na sede da RTP na véspera da final de 2016. O chamado jury show (o segundo dos três ensaios gerais) não só corresponde ao momento em que os júris votam, como é gravado pelos comentadores de cada país como backup. Partilhei a cabine com a Carla (que assegurava a produção) e o Hélder Reis, que completava comigo o par de comentadores. E a coisa correu bem.

Por essa altura estava em curso o processo de remodelação do Festival da Canção (e essa é história para contar noutra ocasião). Pelo que quando em 2017 a delegação partiu para Kiev, fê-lo já com o vencedor de uma edição da seleção local desenhada sob novos moldes. E se em 2016 tinha feito os comentários à distância, agora ia viver pela primeira vez, ao vivo e em direto, o que era afinal uma Eurovisão. Tinham-me avisado que, uma vez indo, nunca mais de queria deixar de ir… E é verdade. Por incrível que seja o programa de televisão, a amplitude maior dos mundos que se cruzam nas cidades que acolhem uma Eurovisão é coisa incomparável. E acho que todos percebemos isso em 2018… Mas naquele sábado em que viajei para Kiev ainda ninguém imaginava o desfecho que a coisa ia ter.

Viajei com uma última “tranche” da delegação e lá chegámos ao hotel, que ficava a uma meia hora do centro da cidade e a cerca 40 minutos do centro de congressos que acolhia a arena, o enorme press center e demais estruturas exigidas para uma produção destas dimensões. Mas antes de entrar “ao serviço” houve tempo para um passeio pelo centro da cidade, num percurso que permitia conhecer exemplos de street art em Kiev (um Vihls inclusive). E tirando esse passeio, e uma volta pelo Eurovision Village e um almoço ali perto, na verdade não deu para ver muito mais…

O domingo anterior à final corresponde por um lado ao encerrar do ciclo de ensaios parcelares de cada uma das canções, dos apresentadores e dos acts não competitivos, e assinala a abertura oficial da grande semana eurovisiva com um desfile de passadeira (até então sempre vermelha) e uma festa de acolhimento a todas as delegações. A passadeira vermelha é essencialmente uma plataforma para meios de comunicação e para fãs e estendia-se em frente à fachada do belíssimo Palácio Mariyinsky, um belo exemplo de arquitetura barroca na capital ucraniana. Estavam ali representadas as principais estações de televisão europeias e as delegações desfilavam uma a uma… Mas havia um problema. Estávamos lá todos menos… o Salvador Sobral, que viajara de Lisboa nesse mesmo dia, já tinha aterrado em Kiev e vinha a caminho… Mas nunca mais chegava… As delegações desfilam por ordem alfabética e deixámos passar a nossa vez… A última a desfilar é a delegação anfitriã… O Salvador não chegava… E os ucranianos desfilaram… Depois os apresentadores…  No início da passadeira já só estávamos eu e José Carlos Malato (que ia partilhar comigo a cabine dos comentadores), a Joana Martins (que estava a fazer a cobertura para as redes sociais), o Miguel Pimenta e o João Paulo Silva (que captavam imagens para a RTP), o Gonçalo Madail, a Luísa Sobral e a Carla Bugalho, a Chefe de Delegação…

A verdade é que ninguém da imprensa internacional arredava pé. Apesar de nunca ter ido a uma Eurovisão, sabia que não estávamos muito habituados a viver aquela experiência sob aquele fulgor… A uma semana da final a canção portuguesa estava já em ascensão clara nas bolsas de apostas (ia então em segundo lugar, a aproximar-se da favorita italiana), como era evidente a expectativa pela chegada de Salvador Sobral, já que até ali, e num regime de exceção, os primeiros ensaios de Amar Pelos Dois tinham sido feitos pela irmã, Luísa, autora da canção.

– Mas ele vem mesmo?, perguntavam…

– Sim, sim, está mesmo a chegar, respondíamos com um dos ouvidos num telemóvel que escutava a voluntária que vinha no mesmo carro do representante português.

Estava de facto a chegar… Mas mesmo assim houve twist de última hora. O motorista enganou-se e deixou Salvador Sobral no fim da passadeira… E, tranquilo, fez o trajeto em sentido contrário, passando junto às costas dos jornalistas das televisões de Espanha, Reino Undo, Arménia, Azerbaijão, Estónia, Ucrânia, Suécia, Polónia, entre outras mais, que não tiravam os olhos da passadeira… à espera que ele passasse… Foi de filme. A coisa lá aconteceu e a dose de entrevistas e fotografias que se seguiu foi tudo menos de dieta.

No fim da passadeira um carro aguardava-nos para nos levar para a festa, que ia ter lugar no espaço que acolhia o Euroclub. Estavam por lá as delegações, os respetivos cantores, muitos fãs e jornalistas. A cantora Alma, francesa, celebrava a vitória de Emmanuel Macron no momento em que eram reveladas as primeiras projeções de voto. Câmaras e microfones iam visitando os intérpretes concorrentes… Pelos altifalantes iam saindo as canções daquele ano. E quando ouviam a sua, os respetivos representantes agiam cada qual à sua maneira.

Se o domingo foi dia de festa, a segunda-feira da delegação portuguesa em Kiev viveu precisamente o oposto. Depois de uma semana de ensaios técnicos assegurados no palco por Luísa Sobral, era chegada a vez de ser o seu irmão a entrar em cena. E à noite, no segundo ensaio corrido (o jury show), já com uma multidão de fãs na sala, a assistir, foi arrebatador, gerando a maior salva de aplausos no momento que antecede o início da canção, acompanhada depois com aquele silêncio com que se brindam aqueles que nos pedem que os escutemos com atenção. E no fim, irromperam novos aplausos ainda mais denunciadores de que a comunicação acontecera… E, curiosamente, com a única das canções a concurso naquela semifinal que não se apresentava em língua inglesa.

Para os comentadores foi dia de ter uma reunião com os companheiros de trabalho das restantes estações de televisão aqui representadas e escutar o primeiro briefing que explica questões técnicas, detalhas sobre o programa e ensina (com a ajuda de elementos de cada delegação) a dizer corretamente os nomes dos artistas e das suas canções. E depois conhecer a cabine. Uma espécie de T-Zero, com lugar para apenas os comentadores, uma bancada com a consola, os headphones, espaço para a papelada, umas garrafas de água e uns cafés, a cabine ficava a uns valentes metros do chão, sobre andaimes… Víamos o palco principal à nossa frente. Mas o Palco B, aquele onde Salvador Sobral cantava, ficava tapado por uma coluna… E assim, durante os ensaios e programas, saíamos à vez, ora eu ora o Malato, para ao menos vermos o nosso cantor à nossa frente. Correu bem.

A cabine de comentários da RTP

Jamala, a cantora ucraniana que venceu a edição de 2016 com 1944 fez questão de esperar junto do camarim, no final do ensaio da tarde, para cumprimentar pessoalmente Salvador Sobral e destacar as qualidades artísticas do músico e da canção. Vários concorrentes deste ano fizeram o mesmo… E ainda antes de terem começado os ensaios corridos, e através das redes sociais, a canção tinha já sido elogiada por antigos vencedores como Alexander Rybak (Noruega, 2009) ou Conchita Wurst (Áustria, 2014).

De Portugal chegavam notícias de que quase não se falava de outra coisa. Faltava já menos de uma hora para o início da primeira semifinal e, em Kiev, cada um dos elementos da comitiva preparava-se para rumar ao seu respetivo lugar. E foi então que, de passagem em frente ao camarim sueco encontrei o vencedor de 2015 Måns Zelmerlöw, que naquele ano era comentador para a televisão do seu país. E logo ali ele mesmo sublinhou as qualidades raras da canção portuguesa, desejando a melhor sorte, mas dizendo desde logo que acreditava que a qualificação para a final iria acontecer.

– Fica tranquilo, assegurava-me…

Umas três horas depois voltámo-nos a cruzar no mesmo local. Os dois satisfeitos, naturalmente. E ele com aquele sorriso que nos sugere a expressão: “eu tinha dito…”. Pois é, acertou…

E, já agora, vale a pena lembrar que, mal terminou a emissão, ao sairmos das cabines, logo os comentadores nossos vizinhos – os gregos, o bielorusso, os belgas, entre outros mais – correram à nossa porta para celebrar com entusiasmo uma canção que todos eles tinham já elogiado antes… O fenómeno, de facto, cruza aqui as fronteiras. E, tal e qual a canção dos irmãos Sobral o sugere, a música comunica e emociona, mesmo se não soubermos a língua na qual as palavras são cantadas.

Foi em festa que vivemos os momentos seguintes. Chegámos tarde ao hotel. Mas nem por isso a manhã foi de sono longo. Havia um almoço com os euro fãs portugueses em Kiev (e atenção que são muitos!) organizado pela OGAE Portugal. A delegação esteve presente, salvo Salvador Sobral, que tirou o dia para descansar depois de tão intensa agenda de entrevistas, ensaios e emoções vivida entre domingo e terça-feira. Tínhamos acordado nesse dia com a boa notícia de que a canção portuguesa tinha ultrapassado a italiana na mais importante sondagem dos sites dedicados à Eurovisão… Nas bolsas de apostas sentia-se uma perda de avanço da canção italiana face à portuguesa, embora Occidentali’s Karma, de Francesco Gabbani, ainda se mantivesse como a mais clara favorita à vitória. Com o avançar das horas chegaram boas notícias das audiências obtidas pela transmissão da semifinal na televisão portuguesa. E no momento da atuação de Salvador Sobral estavam um milhão e 200 mil pessoas a ver o programa (sendo que a audiência total do programa representou a melhor para um Festival da Eurovisão desde 2012). Naturalmente também nos chegaram a Kiev os ecos do entusiasmo à la Seleção Nacional que o festival estava a gerar em Portugal… Assim como íamos sabendo do modo como, em outros países, esse encantamento também era já bem claro. Na revista Monocle, por exemplo, a notícia sobre o Festival da Eurovisão chamava atenção dos leitores para apenas uma das canções. Imaginem qual… Pois é, acertaram… E o também britânico The Guardian a apontava numa peça em que se analisava o passado recente do Reino Unido neste certame… Na rádio islandesa Amar Pelos Dois passava com insistência… E a coisa não ficava por aí…

A tarde foi de trabalho intenso para quem disputava a segunda final e preparava também a sua transmissão televisiva. Rumámos ao grande pavilhão onde há, além da arena que acolhe o espetáculo, uma enorme zona de imprensa (que inclui a grande sala das conferências de imprensa), uma outra para fãs com acreditação e, claro, toda a área de trabalho das delegações, a chamada Delegation Bubble.

O Press Center

O dia foi de descanso para grande parte da delegação portuguesa porque cabia desta vez ao segundo grupo de 18 canções, mais duas das “big five” (França e Alemanha) e ainda aos anfitriões (Ucrânia) a presença na segunda semifinal. Para muitos foi uma ocasião para conhecer um pouco mais da cidade. E também de receber visitas. Entre elas esteve Paulo Fonseca, treinador do Shakhtar Donetsk que, juntamente com alguns jogadores, fizeram questão de aparecer no hotel para dar o seu apoio à canção portuguesa. Não faltam também fãs de muitas nacionalidades a tentar tirar uma foto e obter um autógrafo. E um grupo de fãs espanhóis fez questão de nos dizer que eles, como muitos compatriotas seus, naquele ano eram portugueses (eurovisivamente falando, claro).

Na arena o dia de quinta viveu-se de forma semelhante ao de terça-feira, embora com o sofrimento então entregue a 18 outras delegações. De tarde encontrei-me com Nathan Trent (Áustria) no bar da zona dos camarins e com ele conversei sobre como começa a haver várias canções que tentam romper o modelo mais formatado que tem imposto os paradigmas nos últimos anos, ora pela via da pop eletrónica mainstream ou pelo registo da balada de produção imponente. E a pop com travo R&B da sua canção, juntamente com as propostas que nos chegam com a folk da canção bielorussa ou o cruzamento de ecos de tradições locais com contemporaneidade da canção da Hungria, era, sinais de que havia novas ideias em campo. Todas foram apuradas.

Houve depois dados interessantes a colher entre as casas de apostas. E, ao terem acertado em ambas as semifinais em nove das dez apuradas (com uma taxa de precisão na ordem dos 90%), revelavam-se um dos mais interessantes indicadores a ter em conta na hora de avaliar as possibilidades para as 26 canções concorrentes na final. E na manhã de sexta-feira os números mantinham o favoritismo para a canção italiana, com a portuguesa em segundo e ainda em rota de aproximação, surgindo a búlgara logo a seguir, em terceiro lugar. A performance de Kristian Kostov (Bulgária) na segunda semifinal podia reaproximá-lo dos dois primeiros de quem se tinha distanciado nos últimos dias. Em quarto lugar, recuperando dos deslizes da semana anterior, surgia a Bélgica. Seguiam-se a Suécia e a Roménia (esta já sob claro impacte da segunda semifinal), descendo o Reino Unido para sétimo. Croácia, Arménia e França completavam o Top 10 das canções que tinham mais probabilidades de acabar no topo da classificação. Ninguém estava a reparar na Moldávia, que terminaria a final em terceiro lugar… Ou seja… as bolsas de apostas não são infalíveis.

O dia da final começou com o nosso hotel invadido por mensagens de boa sorte, sobretudo deixadas pela delegação da Eslovénia, também ali instalada. Eram balões, eram fitinhas, eram folhas com mensagens… Era uma festa!

Com a final na linha do horizonte o favoritismo começava a desviar-se de Itália para Portugal… Entre os voluntários na delegation bubble ou nas zonas de trabalho dos comentadores desejavam boa sorte, apontando a canção portuguesa como favorita… Iria mesmo acontecer… Dos três prémios Marcel Bezençon, dois deles – Arístico e Composição – foram atribuídos à canção portuguesa, cabendo apenas o prémio votado pela imprensa à canção italiana. E antes da final fomos, tal como os restantes comentadores de países com maior favoritismo, avisados de um procedimento a fazer caso ganhássemos… Um de nós continuaria na cabine e o outro desceria para junto do palco para fazer, mal terminasse o programa, uma primeira entrevista com o vencedor para ser apresentada em direto na respetiva televisão nacional… E depois de eu dizer “já ganhámos” mal vejo a Bulgária a receber o televoto, ao que o Malato respondia, sem acreditar “péra…péra… péra”, com os próprios irmãos Sobral a não perceberem logo que a vitória era sua, de facto acabei sozinho a fechar o comentário na emissão da RTP… Era um 13 de maio diferente. Com festa lá e cá… E um dia depois, no aeroporto, um mar de gente recebia a delegação como acontece quando portugueses vencem grandes eventos desportivos. Foi bonita a festa.

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