As aventuras de Bowie na vertigem dos anos 90

Desafiante e sempre em regime de mutação. Assim foi o percurso discográfico de Bowie na década de 90, que agora surge revisitada na caixa “Brilliant Adventures (1992-2000)” que agora surge juntando 18 LP em vinil ou 11 discos na versão em CD. Texto: Nuno Galopim

Depois de uma pausa de três anos, durante a qual outras edições especiais escutaram em detalhe sobretudo o período entre 1968 e 1970, eis que reencontramos a série das “caixas” de “época” que, desde 2015, têm vindo a arrumar a obra discográfica oficial desde 1969, juntando frequentemente registos inéditos, ora na forma de concertos ao vivo ora em novas abordagens às misturas e até mesmo arranjos de álbuns de estúdio, acrescentando ainda, através da série de compilações “ReCall” uma multidão de faixas (edits, lados B, raridades) que originalmente tinham surgido em singles, máxis, bandas sonoras ou outros discos. Deixando para outra oportunidade (assim espero) a etapa na qual Bowie diluiu o protagonismo entre os Tin Machine, ou seja, entre 1989 e 1991 (não nos devendo esquecer que nessa mesma fase esteve na estrada com a Sound + Vision. Tour que nos visitou), à caixa de 2018 “Loving The Alien”, que escutara a etapa de visibilidade mainstream conquistada nos anos 80, segue-se assim “Brilliant Adventure”, que documenta o período entre 1992 e o ano 2000.

A primeira conclusão que se tira ao escutar, de fio a pavio, os álbuns de estúdio que aqui reencontramos, o registo de um concerto captado no ano 2000 e o mítico “Toy”, álbum “perdido” que finalmente vê a luz do dia, é que não é de todo justo, ao descrever o percurso de Bowie, afirmar que a sua fase mais desafiante e criativa foi vivida nos anos 70. É verdade que esses foram tempos de verdadeira vertigem criativa, deixando-nos um legado de clássicos e visões que marcaram a história e mudaram o futuro. Mas o Bowie dos anos 90 revelou novamente esse fulgor desafiante, como que em busca de algum tempo “perdido” que eventualmente terá vivido na ressaca imediata do sucesso global de “Let’s Dance”. 

E é precisamente onde “Let’s Dance” o deixara que começa esta fase do percurso, voltando a chamar Nile Rodgers para criar “Black The White Noite” (1993) o terceiro elemento do seu tríptico plastic soul (o primeiro terá sido “Young Americans”, de 1975). Com um prólogo em “Real Cool World” (aqui integrado no volume 5 de “ReCall”), Bowie e Nile Rodgers criam aqui novas visões às quais não são estranhas marcas do presente, dos ecos do casamento com Iman aos motins de 1992 nas ruas de Los Angeles. 

Esse foi o ponto de partida para uma década de 90 recheada de outras aventuras, que logo a seguir juntaram à discografia de Bowie as visões desafiantes que criou para a banda sonora de “The Bhudda of Suburbia” (1993), o reencontro com Brian Eno no sublime “1.Oustide” (1995), que é talvez a sua obra-prima dos anos 90, o espaço de reflexão sobre novas matrizes rítmicas (sobretudo assimilando o dum’n’bass) em “Earthling” (1997) e depois o episódio de autorevisitação (acentuado pela pietà que ele mesmo protagoniza na foto da contracapa) de “hours…” (1999). 

A estes álbuns a caixa junta “BBC Radio Theatre, London, June 27, 2000”, um concerto originalmente editado como CD extra de “Bowie at The Beeb” e no qual se constata a rodagem plena de uma das melhores bandas de palco no percurso de Bowie. “ReCall” cumpre uma vez mais o papel de ilustrar o que mais aconteceu neste percurso para além dos álbuns editados, surgindo aqui a belíssima versão de “A Foggy Day In London Town” que originalmente surgiu no disco dedicado a Gershwin na série de lançamentos da Red + Hot Organization e que conta com orquestração de Angelo Badalamenti.

O maior tesouro desta caixa é contudo “Toy”, o álbum que Bowie gravou depois de “hours…” e no qual procurara novas abordagens a canções da primeira etapa da sua carreira, a maioria delas anteriores a “Space Oddity”. Trata-se de uma manobra de infusão de vitalidade sobre um repertório em grande parte algo então esquecido e que, face às gravações originais, em muitos dos casos junta marcas de identidade mais vincadas que nem sempre moraram nos discos de Bowie nos anos 60 (exceção para o álbum de estreia e segundo, de 1969, que nos revelaria “Space Oddity”). Mas de “Toy” falaremos mais em detalhe em janeiro, quando chegar uma edição especial que ao alinhamento do álbum (agora incluído nesta caixa) acrescentará mais gravações dessas mesmas sessões. Resta aqui lembrar que a Virgin Records recusou editar “Toy” em 2000. Bowie bateu com a porta e criou a sua própria editora, a ISO Records, com a qual editou, um ano depois, “Heathen”. “Toy” ficava então na gaveta… Mas 21 anos depois eis que finalmente se junta à discografia “oficial” de Bowie. 

“Brilliant Adventure” é uma caixa de 18 LP ou 11 CD, assim como nas plataformas digitais, numa edição da Parlophone.

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