À descoberta da pop eletrónica que nascia na antiga Jugoslávia nos anos 80

Depois de uma antologia que nos mostrou ecos do funk, ‘disco’ e jazz que nascia nos territórios da Jugoslávia nos anos 70, eis que entra em cena o primeiro volume de “Electronic Jugoton” que escuta a deliciosa pop eletrónica que ali se fazia nos anos 80. Texto: Nuno Galopim

Não fosse a Eurovisão e, possivelmente, não teria contactado com música pop dos países da antiga Jugoslávia antes de me terem chegado às mãos compilações que, nos últimos tempos, reuniram e deram a escutar discos que ali nasceram nos anos 70 e 80. Lançado em 2020, Jugoton Funk vol. 1: A decade of Non-Aligned beats, soul, disco and jazz 1969-1979 abriu frestas sobre memórias que documentavam como o disco, o funk e descendências da soul e do jazz ali ganharam forma na década de 70… É certo que, pela coleção de pistas entretanto recolhidas via Eurovisão, já tinha tomado contacto com outras expressões locais de exemplos de diálogo com formas e géneros que ali chegavam como ecos da cultura ocidental e, vincando identidade (sobretudo pelo poder da língua), lançavam episódios de (boa) surpresa. Foi o caso dos brilhantes Korni Grupa, de certa forma filiados em terreno progressivo, que representaram a Jugoslávia em 1973 com Moja Genereacija. Foi igualmente via Eurovisão que a Jusgoslávia gerou um dos seus maiores êxitos “pop” com dimensão internacional quando, em 1983, Danijel Popović Levou Džuli ao quarto lugar no concurso, todavia com um senão logo a seguir: a maioria das edições internacionais (incluindo a portuguesa) optaram por levar ao 45 rotações a versão cantada em inglês… Julie. Nah, o azeite não era o mesmo…

Foi preciso esperar até agora para, finalmente, escutar outras dimensões pop (não representadas via Eurovisão) que surgiram nos espaços que em tempos correspondiam à Jugoslávia. Electronic Jugoton Vol 1 – Synthetic Music From Yugoslavia 1980 – 1989 é uma deliciosa máquina do tempo… E garante episódios de descoberta que nos fazem pensar, antes de tudo mais, o que seria um equivalente “export” que reunisse canções de uns Da Vinci, Ópera Nova, Frodo, Projeto Azul ou Heróis do Mar para o mundo escutar a pop eletrónica que entre nós nascia na mesma altura…

Mas regressemos à antiga Jugoslávia (que, como deverão saber, se fragmentou entretanto em várias nações independentes). Através desta antologia sublinha-se a forma como o regime de Tito tinha promovido uma abertura à cultura ocidental invulgarmente atípica no quadro do antigo bloco de leste. A música representou precisamente uma das expressões dessa abertura (mais cultural que noutras dimensões políticas), contando a história da música popular iugoslava episódios de abertura ao rock’n’roll nos anos 50, à pop nos 60, ao punk e new wave nos 70, e, claro, a pop eletrónica nos 80. E é aí que entra em cena esta antologia, que, tomando o nume de uma antiga editora (e também ferramenta de divulgação e promoção local) junta agora não só singles que então fizeram história mas também episódios mais experimentais e menos conhecidos que ajudam a contar a grande aventura da assimilação das electrónicas e de novas linguagens de produção na pop iugoslava de então.

Com cidades como Belgrado (hoje na Sérvia), Zagreb (Croácia) ou Liubliana (Eslovénia) como pólos mais ativos, uma nova pop iugoslava emergiu na alvorada dos anos 80 em sintonia com os caminhos que por aquela altura surgiam entre bandas de pop eletrónica (por toda a Europa), não esquecendo ainda as importantes contribuições para este mesmo espaço do movimento new romantic. Estão aqui nomes como, entre outros, Oliver Mandić (que transgrediu normas identitárias ainda antes de Boy George), os Dorian Grey (banda de sensibilidade art pop com vida entre 1982 e 86), os mais minimalistas D’Boys (ler The Boys) ou a dupla Denis & Denis, um dos casos de maior sucesso da pop local de então. A eles juntam-se outros, como Beograd, Data (evidentes descendentes dos Depeche Mode de primeira geração), U-Scripku (que lembram o tom mais épico de uns Classic Nouveaux), Du Du A-Romance (que à pop electrónica juntam uma dimensão rítmica assimilada a partir do funk) ou The Master Sctatch Band (atentos às evoluções do electro).

Deliciosa viagem de descoberta, com notas sobre cada uma das bandas e artistas, Electronic Jugoton Vol 1 – Synthetic Music From Yugoslavia 1980 – 1989 garante tudo menos o ar enjoado das senhoras que vemos na capa. 

Oliver Mandić
Denis & Denis
D’Boys

A compilação “Electronic Jugoton Vol 1 – Synthetic Music From Yugoslavia 1980 – 1989” está disponível em 2LP, 2CD e nas plataformas de streaming numa edição da Everland Music.

Podem escutar todas as canções aqui:

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