Gorillaz “Cracker Island”

Ao oitavo álbum, “Cracker Island”, onde surgem nomes como os de Stevie Nicks, Beck, Thundercat, Bad Bunny ou os Tame Impala, os Gorillaz apresentam o seu melhor disco desde a dupla de títulos que abriu a sua discografia no início do milénio. Texto: Nuno Galopim

A aventura começou a ganhar forma pública em 2001 (mas na verdade as ideias tinham começado a surgir em finais dos anos 90). Os Blur tinham arrumado a etapa “13” (um dos melhores discos da sua obra) e, em tempo de pausa, cada qual seguia então um caminho distinto. Graham Coxon gravava a solo. Alex James escrevia. E Damon Albarn juntava-se ao desenhador Jamie Hewlett para dar corpo a uma ideia desafiante de construção de uma banda com outros elementos que não os de sempre. Seriam desenhos e não músicos a dar-lhe rosto, cada um dos elementos surgindo com uma narrativa pessoal e características definidas, sendo os ambientes ao seu redor o reflexo da sua personalidade e do momento em que vivem. A música, por sua vez, abria horizontes além dos espaços onde, até então, habitara grande parte da obra dos Blur… E quando em 2001 entrou em cena o álbum de estreia Gorillaz este revelava uma visão pop muito do seu tempo, numa ideia de vistas largas, atenta à contribuição de outras linguagens, do dub ao hip hop

Seguiram-se “Demon Days” (2005), acentuando o trabalho com electrónicas e gosto pelo detalhe, e “Plastic Beach” (2010) sob maior atenção ainda pela forma da canção, com episódio extra (algo menor) em “The Fall” (também em 2010). Acabam? Nem por isso?… Por várias vezes um cenário de fim de linha surgiu no horizonte, Damon passou por outras aventuras (dos The Good The Bad and The Queen a reuniões dos próprios Blur), mas a história dos Gorillaz acabou sempre por continuar, somando inclusivamente experiências laterais como o foram o álbum de remisturas dub “Laika Come Home” (2002) ou a ópera “Monkey: Journey To The West” (estreada em 2007). A partir de 2017 os álbuns alargaram o seu palco a inúmeras colaborações, assim surgindo “Humanz” (2017), “The Now Now” (2018) e “Song Machine, Season One: Strange Timez” (2022), álbuns aos quais se junta “Cracker Island”, talvez o seu melhor disco desde o par inicial de álbuns nos primeiros anos de vida do milénio.

A principal diferença entre “Cracker Island” e o trio de álbuns que os Gorillaz lançaram entre 2017 e 2020 é o modo como foram encaradas as colaborações externas, tanto em volume como no respetivo protagonismo. Mesmo com um lote de nomes ilustres, que vão de Stevie Nicks ou Beck, de Adeleye Omotayo a Thundercat, dos Tame Impala a Bad Bunny, a presença de todos eles está agora enquadrada num todo que tem uma mais coesa ideia de rumo definida pelo próprio núcleo de trabalho constituído por Damon Albarn, Greg Kurstin e o baterista e percussionista Remi Kabaka Jr, que aqui nos sugerem uma visão pop para os nossos tempos. Nasce assim um álbum que, sem desvalorizar os colaboradores, opta por integrar todos eles num espaço mais próximo das demandas atuais de Damon Albarn e do seu principal colaborador nos Gorillaz (Kurstin), definindo um alinhamento com um sentido de coesão assim mais evidente, mesmo se apontando ocasionalmente o alinhamento a azimutes mais distantes. A este maior controlo das rotas e destinos da música corresponde uma aparente vontade em regressar a um modelo menos exploratório, que se manifesta em canções que, na verdade, e em vários momentos, evocam até mais de perto memórias de uns Blur do que das assimilações das culturas hip hop ou dub que pasasaram já por vários episódios da história dos próprios Gorillaz que, visualmente, continuam também a viver um processo de evolução, traduzindo agora as formas (sobretudo nos vídeos) uma opção pela sugestão de tridimensionalidade nas formas e uma cada vez mais elaborada construção dos cenários. 

“Cracker Island”, dos Gorillaz, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Parlophone.

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