Numa história partilhada que recua aos anos 80, a colaboração entre o compositor Joe Hisaichi e o criador de filmes como “A Princesa Mononoke”, “A Viagem de Chihiro” ou “O Castelo Andante” é revisitada em disco pela Royal Philharmonic Orchestra. Texto: Nuno Galopim

Não será particularmente imaginativo começar por lembrar a força dos laços que muitas vezes se desenham entre realizadores de cinema e compositores que com eles desenvolvem um relacionamento que, com o passar dos anos, desenham uma obra comum e partilhada. Apesar de não serem relações de exclusividade, as várias parcerias entre Steven Spielberg e John Williams, David Lynch e Angelo Badalamenti, Alfred Hitchcock e Bernard Herrman, Federico Fellini e Nino Rota, Tim Burton e Danny Elfman ou, entre tantos mais, Erol Morris e Philip Glass, vincaram de facto o poder de afirmação de uma identidade criativa que por vezes transcende o espaço dos filmes e ganha depois uma vida própria em discos e nas salas de concertos. E este cenário é o que já está acontecer precisamente entre os filmes de Hayao Miyazaki, grande mestre da animação japonesa e o compositor Joe Hisaichi, que acaba de lançar, pela Deutsche Grammophon, uma coleção de gravações de peças compostas para filmes dos estúdios Ghibli (de Miyazaki), nascidas de sessões de trabalho entre o compositor japonês e a Royal Philharmonic Orchestra.
Formado em inícios dos anos 70, com particular foco em instrumentos como o violino e os metais, Mamoru Fujisawa (o seu nome realI) cedo começou a aliar ao seu trabalho na música o seu gosto pelo cinema. Ainda nos anos 70 já o viramos a assinar música para filmes de anime, ao mesmo tempo que ia alargando o seu espectro de interesses ao descobrir o jazz, a emergência de uma nova geração de músicos japoneses exploradores das electrónicas (em particular o trio que se apresentava como Yellow Magic Orchestra) e, acima de tudo, os minimalistas, num alargamento de horizontes que, um pouco mais adiante, juntou a este leque uma outra referência contemporânea: Quincy Jones. É neste quadro de encantamentos que conhece, nos anos 80, um novo talento então a despontar na animação japonesa. E do primeiro trabalho ao lado de Hayao Miyazaki – em “Nausicaä do Vale do Vento” (1984) – surge uma ligação que, em conjunto, os encontrará numa sucessão de títulos entre os quais os hoje já clássicos “O Castelo No Céu” (1985), “O Meu Vizinho Totoro” (1986), “Porco Rosso – O Pouquinho Voador” (1992), “A Princesa Mononoke” (1997), “A Viagem de Chihiro” (2001), “O Castelo Andante” (2004), “Ponyo à Beira Mar” (2008) ou “Asas do Vento” (2013), com novo encontro entretanto marcado em “Kimitachi wa dô ikiru ka”, a exibir dentro de poucas semanas no Festival de Toronto.
“A Symphonic Celebration” é um percurso selecionado entre excertos da música que, entre 1984 e 2013 Jose Hisaichi criou para acompanhar as imagens, personagens e narrativas do cinema de Miyazaki. A herança de uma formação clássica surge aqui como base de trabalho para todo um edifício feito de uma música orquestral na qual não são surpresa as ocasionais contaminações dos muitos mundos que, ao longo do seu percurso, o compositor japonês foi descobrindo e assimilando. O álbum, que numa das edições em CD acrescenta um segundo disco com temas extra, representa uma edição cuidada que faz questão não só em apresentar condignamente (no booklet) o percurso de vida e obra do compositor mas também contextualiza a obra aqui revisitada, com uma pequena apresentação de cada um dos filmes dos quais há momentos musicais neste alinhamento. A capa segue o modelo “clássico” da editora, usando contudo uma paisagem desenhada por Miyazaki como fotografia principal. Está, como agora se diz, na narrativa, portanto.
“A Symphonic Celebration”, de Joe Hisaichi, com a Royal Philharmonic Orchestra, está disponível em CD, 2CD (com extras) e nas plataformas digitais numa edição da Deutsche Grammophon.





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