Não é que seja por questões de idadismo ou por vapores de nostalgia, mas quando temos em palco uma banda a caminho de completar 50 anos de vida ininterrupta (vale a pena lembrar que surgiram em Birmingham em 1978) não é difícil acabarmos a estabelecer comparações. E entre contemporâneos essas comparações são, apesar das diferenças, possíveis com nomes como os Depeche Mode (embora estes estejam agora reduzidos a um duo), os Simple Minds (que da formação inicial retém apenas dois elementos), os The Cure (apesar das longas pausas recentes) ou, de facto ainda “intactos”, os U2. Mas as comparações são coisa que faz sentido apenas no foro da cronologia. Porque estamos entre realidades distintas. Se os Simple Minds nunca “incomodaram” pela dimensão do estatuto (apenas gigante em meados dos oitentas), se os U2 ganharam cedo invulgar (e merecida) transversalidade (reforçada pelas ousadias dos anos 90) e se os Depeche Mode conquistaram gradualmente uma (justificada) dimensão planetária que hoje os reconhece, os Duran Duran começaram por enfrentar a “suspeita” de quem neles não via senão uma banda “de vídeo” ou um fenómeno meramente juvenil. Quis o passar do tempo que a visão fosse mudando, quer por elogios de ícones “indie” como Courtney Love (das Hole) ou Billy Corgan (dos Smashing Pumpkins), quer por novas gerações de críticos e divulgadores que os passaram a encarar de outros modos. E o certo é que, em 2026, o estado de aclamação de uma arena lisboeta cheia para os ver lhes deu de volta os aplausos de respeito de quem (mesmo tendo criado vídeos incríveis) na verdade nos deixou sobretudo um legado de grandes canções, muitas delas solidamente inscritas na nossa memória coletiva (como se viu pelo coro generalizado).

À presente digressão chamaram “Free To Love Tour”, naturalmente dado ser esse o título do mais recente lançamento (um single co-assinado pelo velho e recorrente parceiro Nile Rodgers). Mas na verdade a coisa é mais “dylanesca”… No sentido em que, sobretudo desde a All You Need Is Now Tour (2011-2012), passando pela The Paper Gods Tour (2015-2020) e a Future Past Tour (2022-2024), o que está em palco é quase o equivalente a uma “never ending tour” (daí a referência a Dylan), com um alinhamento cravejado de “greatest hits”, aos quais se juntam canções do álbum mais recente e eventuais surpresas. Desta vez, na sua quarta passagem (ao vivo) por Lisboa, o que aconteceu além dos êxitos (sobretudo dos oitentas, com um piscar de olho ao “Wedding Álbum” e a “Thank You” e ainda a “Astronaut”), foram visitas às visões com travo a Halloween de “Danse Macabre” (em concreto “Evil Woman”, “Psycho Killer” ou a nova leitura de “Lonely In Your Nightmare”, cruzada com “Superfreak”), ao inevitável “Free To Love”, com um breve lote de (boas) surpresas numa citação a “Only In Dreams” (de “Paper Gods”), a recuperação do belo e melancólico “Winter Marches On” (de “Notorious) e de “I Don’t Want Your Love” (de “Big Thing”) e uma ainda não gravada versão de “Heads Will Roll” (original dos Yeah Yeah Yeahs) que tinha conhecido estreia ao vivo dias antes no concerto de Halloween na O2 Arena, em Londres.

Com um aparato simples, entregando a um ecrã e às luzes os jogos de cenografia, uma banda que hoje domina o palco entregou duas horas de otimismo pop, sem deixar de notar (na hora de tocar “Ordinary World”) habitamos hoje um mundo que está a viver tempos difíceis. Sem deixar de fazer a festa, apesar desta observação política (ma non troppo), caminharam por entre clássicos, com a plateia a responder (sobretudo num “Save a Prayer” que deu à sala os dois primeiros refrães para cantar). Não foi preciso convocar artes para além das que uma noite de grandes canções pedem. Temas como “Is There Something I Should Know?”, “The Wild Boys”, “A View To A Kill”, “Hungry Like The Wolf”, “Notorious”, “Planet Earth”, “Girls On Film”, “Rio”, “The Reflex”, “Come Undone” ou os já citados “Save a Prayer” e “Ordinary World” são doces suficientes para uma boa barrigada de confeitaria da melhor pop. A versão de “White Lines” (que regularmente tocam em palco desde meados dos anos 90) é sempre um ponto alto. “(Reach Up for the) Sunrise” (da colheita de 2004) ganhou lugar como referência da etapa pós-reunião. E perante as “novas” e as “supresas”, a plateia (e as bancadas) não abandonaram o mood.

Não se pede mais a quem caminha para os 50 anos de palcos. Foi um reencontro pleno de memórias, mas sem querer enganar o tempo que passou, com o clima de Halloween (que decorre do álbum “Danse Macabre” de 2023) a filtrar vapores de nostalgia que poderiam ter dominado o clima da coisa. Banda em forma. Grafismos (claramente da idade IA) a responder às necessidades. E a confirmação de que estas são canções que ganharam um lugar nas nossas vidas. E, assim, lá pelas onze e meia, uma multidão satisfeita voltou para casa.

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