Philip Glass “Symphony No. 12 – Lodger”

Depois de duas sinfonias baseadas nos álbuns de 1977 Low e Heroes, Philip Glass concluiu finalmente uma ideia, já antiga, de completar a sua abordagem à chamada “trilogia berlinense” de David Bowie, com uma nova obra centrada no álbum Lodger. Texto: Nuno Galopim

Philip Glass tinha já mais de um quarto de século de obra reconhecida na composição quando, pela primeira vez, foi convidado a pensar em algo que até aí estava ausente do seu corpo de trabalho: uma sinfonia. Estávamos em 1992 e convém lembrar que, depois de toda uma etapa formadora de uma linguagem – de que ficaram peças maiores como Music In 12 Parts, Music in Similar Motion ou o próprio Einstein on The Beach – a sua música evoluíra em busca de novos patamares instrumentais e formas, aos poucos tendo juntado às electrónicas e a peças pensadas para o seu ensemble a dimensão maior da música orquestral, acabando a experimentar também espaços da música de câmara e até mesmo uma relação muito particular com o piano.

Dizia-lhe então o maestro Dennis Russel Davies (que se transformaria num dos seus maiores colaboradores) que não ia deixar que Glass fosse um “daqueles compositores de ópera que nunca fizeram uma sinfonia”. A encomenda surgiu da parte da Brooklyn Philharmonic Orchestra, e levou Glass a procurar um caminho desafiante para a sua música orquestral. E encontrou o mote num álbum histórico de David Bowie: Low, um disco (de 1977) que teve Brian Eno entre os colaboradores, encontrando ali Glass métodos de pensamento semelhantes aos que reconhecia em vanguardas da composição daquele tempo.

Originalmente apresentada como Low Symphony, é uma obra em três andamentos, cada qual baseado num tema do álbum (um deles, na verdade, editado como extra numa reedição de 1991 de Bowie). O material musical de Bowie e Eno é claro ponto de partida, mas é da visão de Glass que emerge uma abordagem orquestral que acabaria por abrir horizontes a uma série de novas experiências que depois realizou em experiências sinfónicas subsequentes.

Low foi assim, em 1991, o ponto de partida para a primeira experiência sinfónica de Philip Glass, nascendo a Low Symphony (que hoje é mais frequentemente referida como a sua Sinfonia Nº 1). Bowie e Brian Eno acolheram com entusiasmo o projeto e foram inclusivamente fotografados para, juntamente com Philip Glass, figurarem na capa do álbum com a primeira gravação da obra. Cinco anos depois nasceria uma sinfonia baseada em Heroes, a quarta do compositor, esta criada como uma nova colaboração com a coreógrafa Twyla Tharp. Philip Glass regressava ao universo discográfico da mesma etapa na obra de David Bowie, partido então de seis momentos do álbum Heroes (que, tal como Low, data de 1977) para, sob um pensamento semelhante, criar a Heroes Symphony, que teve uma primeira gravação em disco pela American Composers Orchestra em 1997 (na Point Music), uma vez mais sob direção do maestro Dennis Russel Davies.

Mas se Low e Heroes sugeriam, com Lodger (de 1979) um corpo que acabou reconhecido como uma “trilogia”, a Glass faltava então uma peça para, também ele, dar como concluída esta abordagem à música de David Bowie. Até que, longos anos depois, finalmente anunciou a Lodger Symphony, que chegou a ser discutida com o próprio Bowie e acabou por ser encomendada pela Los Angeles Philharmonic Orchestra e a Dresden Philharmonic Orchestra, tendo conhecido estreia mundial em Los Angeles, em 2019, assinalando os 40 anos sobre a edição do álbum que a inspira. Coube a John Adams dirigir a estreia, contando a sua apresentação com uma presença muito especial: a de Angelique Kidjo. Voz que, agora, surge igualmente na primeira gravação desta sinfonia, que escutamos numa interpretação da Filarmonie Brno, sob a inevitável direção de Dennis Russel Davies.

Ao invés das duas anteriores abordagens a Low e Heroes, a nova incursão pela obra de Bowie procura pistas não no material musical, mas nas palavras (do próprio Bowie e de Brian Eno, como de resto a capa do disco deixa logo evidente). E é a partir das letras de sete das canções do álbum, entre as quais African Night Flight, Boys Keep Swinging ou Yassassin, que Philip Glass procura caminhos para uma música que garante à sua Sinfonia Nº 12 (a sua designação oficial) uma rota diferente sob uma identidfade comum. A abordagem é inesperada por vezes, sobretudo nas linhas vocais que não procuram seguir o que conhecemos no álbum de Bowie, mas sim um caminho que partiu da visão de Glass, refletindo igualmente esta obra sobre percursos possíveis para a música vocal na obra de um compositor que teve já no seu percurso alguns ciclos de canções e inúmeras óperas.

As três sinfonias, que agora definem a trilogia outrora incompleta, juntam à obra do compositor norte-americano novos episódios num processo de diálogo entre as esferas da música pop e as da música erudita, que há muito tem em Philip Glass um dos seus mais ecléticos representantes. Basta que nos recordemos de como em Songs From Liquid Days chamou as contribuições de nomes como os de David Byrne, Paul Simon, Suzanne Vega, Laurie Anderson (que consigo colaborou também na ópera The Civil Wars) ou Linda Rondstat, nas colaborações em terreno pop com os Polyrock, Marisa Monte, Mick Jagger ou Pierce Turner e até em desafios nas áreas nas novas invenções electrónicas com Aphex Twin ou S-Express, não devendo ficar de fora deste retrato Book of Longing, ciclo de canções criado com Leonard Cohen ou recentes atuações para voz e piano com Patti Smith. Philip Glass derrubara muros bem antes de Berlim o ter feito. Deu exemplos e indicou caminhos que novas gerações de compositores agora seguem. Nestas sinfonias encontramos assim o momento em as memórias de uma cidade e as vozes da música encontram um patamar de entendimento, por um mundo sem muros.

“Glass: Symphony N. 12 – Lodger”, pela Filarmonie Brno, dir. Dennis Russel Davies, com Angelique Kidjo como solista, está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Orange Mountain Music.

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